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Quinta-feira, Maio 29, 2003
Rubicunda
Revejo "Marvada carne", para participar de um debate na TVE. O filme é uma graça, daqueles a que você assiste com um sorriso na boca. Fernandinha Torres ganha o espectador como Carula, a caipira que negocia com Santo Antônio para arrumar um marido. Ela está bem mais cheinha que hoje em dia, quando adotou o padrão feminino da mulher magra e malhada. Durante o debate, todos elogiam sua silhueta da época - 1985. O roteirista Paulo Halm, também convidado do programa, diz: "Ela está rubicunda!" Concordo na hora. Há tempos não ouvia o adjetivo, que me sugere formas arredondadas e sensuais. Só agora me dou conta de que não é nada disso: rubicunda é pessoa muito corada, algo que Fernandinha definitivamente não é.
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Ignora-se
O Estado não costuma dar muita bola para os moradores da favela. Lá, quem manda e desmanda é o tráfico. Marcos André era um líder comunitário que acabou assassinado por traficantes. Dêem uma olhada em sua certidão de óbito e me digam se o caso dele vai ser resolvido ou não: "Homem falecido em hora ignorada, filho de pais desconhecidos, com idade ignorada, profissão ignorada, Estado Civil ignorado, residência ignorada, natural de região ignorada, ignora-se a existência de filhos, ignora-se a existência de bens, ignora-se a existência de testamento, ignora-se se era eleitor, causa mortis: indeterminada, em razão de intensa carbonização."
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Quarta-feira, Maio 28, 2003
Não dá para esquecer
Dou uma espiada no mapa turístico e cultural de Tiradentes. Tem um anúncio do restaurante Atrás da Matriz, onde se lê, em letras maiúsculas e ponto de exclamação: "INESQUESSÍVEL!" De fato.
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Rescaldo da Bienal
A Bienal do Livro tem isso de bom: até jornalista tem seu dia de estrela. Quando o primeiro menino veio pedir autógrafo, achei que era gozação. Mas depois veio outro, em seguida vieram duas meninas tirar foto, mais tarde a rádio Catedral pediu uma entrevista, a TV da Gama, outra, e quando vi já nem sabia mais do que estava falando. O blog tem uma vantagem: você pode ser um pouco provinciano e pôr foto da família. É verdade que fica parecendo coluna social de jornal do interior, mas quem quiser pode ver uma foto tirada logo depois do encontro "Família literária", na Bienal. O crédito é de Retlaw Robson T. Modesto. Quem está ao lado de meu pai é o Arthur Dapieve.
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Não mereço tanto
Hoje meu pai escreveu no site nominimo um texto sobre a nossa participação na Bienal do Livro. Está bonito de chorar.
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Segunda-feira, Maio 26, 2003
Plano inclinado
Jantar na casa de Lula Vieira e Silvana Gontijo. O casal é tão chique que tem um funiculaire em casa. É isso mesmo que você ouviu (ou melhor, leu). Assim que o convidado chega, entra num bondinho que sobe um plano inclinado até o alto da casa. Você sai da cabine se perguntando: onde está a estação de esqui? Lula escreveu o livro "Loucuras de um publicitário", onde conta histórias deliciosas da profissão. Uma das minhas favoritas é "O lírio do lodaçal", que fala na perda da inocência. Certa vez, numa cidade do interior, seu colega Zé Guilherme foi com os amigos num bordel. Lá encontrou uma menina linda, vestida com simplicidade e recato, sem nenhuma pintura, de sorriso tímido e infantil, inteiramente deslocada do ambiente. Apaixonou-se na hora. "Rapidamente vieram-lhe à cabeça mil razões para aquela criança estar ali. Poderia estar visitando a mãe ou, ainda, ter ido buscar o endereço de uma amiga. Certamente haveria de ter um motivo muito forte para aquele anjo ter pousado naquele lugar, tão sem propósito como o São Jorge, o cavalo e o dragão iluminados pela lâmpada vermelha", conta Lula. Finalmente ele ganha coragem para se aproximar da moça e consegue dizer, num fiozinho de voz:
- Eh... o que se faz por aqui?
E ela, sorrindo, coloca suas mãozinhas sobre as dele:
- Tirando o c., qualquer coisa...
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Concordância
Na sala VIP da Bienal do Livro, os convidados deixavam registradas num caderno suas impressões sobre o evento. A governadora Rosinha caprichou no texto, que começava assim: "O livro e a literatura é..." A sorte é que o ajudante de ordens viu e logo corrigiu com a caneta: "O livro e a literatura são..."
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Ele está aí
Descubro no jornal que Bob Hope está vivíssimo da silva. O veterano comediante americano faz 100 anos hoje e, por recomendação médica, vai passar o dia repousando em sua mansão. Volta e meia me dou conta de que está vivo alguém que imaginei morto - e o contrário também. Há poucas semanas, avisaram a uma amiga minha:
- A cantora Nina Simone morreu.
E ela:
- De novo?!?
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Sexta-feira, Maio 23, 2003
Rock mortífero
O Disque-Denúncia ajudou a prender há pouco um grupo de extermínio em Pernambuco. Nome do grupo: Os abelhas. Sei não, parece mais nome de banda de rock.
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Indigestão
Marcel Proust, James Joyce, Kafka, Freud, Stravinsky e Picasso se encontraram num jantar em Paris, em maio de 1922. Os três maiores escritores do século XX, o criador da psicanálise, o compositor russo e o pintor espanhol juntos no mesmo evento deve ter resultado na conversa mais inteligente da história. Eis como foi a noite, segundo conta o crítico literário Harold Bloom no recém-lançado "Gênio": "Joyce havia lido algumas páginas de Proust, mas não detectara qualquer talento especial; Proust sequer ouvira falar de Joyce. O aristocrático Stravinsky ignorou ambos, e Picasso ocupou-se de admirar as mulheres presentes. Os relatos da conversa entre Joyce e Proust variam: decerto, Proust queixou-se de má digestão, e Joyce, de dores de cabeça."
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Governadora letrada
Rosinha, na Bienal do Livro: "Essa Bienal está ótima. Tem um monte de Bíblia à venda." Me contaram. Se é verdade, não sei, mas que tem tudo a ver, tem.
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Quinta-feira, Maio 22, 2003
O mundo dos negócios
Duas mulheres discutem na minha frente:
- Você está querendo atrapalhar o meu trabalho - diz uma delas.
- Não, você é que está ocupando a minha vaga - rebate a outra.
O clima é tenso. Afinal, o mercado está competitivo e nenhuma delas quer abrir mão de seu negócio. Até que o guarda chega e manda as duas mendigas carregadas de crianças passearem. A causa da briga era nobre: o ponto em frente a uma joalheria, em Ipanema.
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Borges e Sabato
Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato no livro "Diálogos":
Borges: "Que haja céu e inferno, isso não."
Sabato: "Em todo caso, se existem, devem ser dois estabelecimentos com uma população muito inesperada."
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Quem manda no Rio
Historinha real que aconteceu há pouco. Um empresário de ônibus recebeu dos traficantes ordem para não trabalhar naquele dia. Reuniu-se com a cúpula de segurança pública do Rio, que avisou: "Pode liberar seus ônibus, o Estado dá todas as garantias, quem manda no Rio somos nós", e todo aquele blábláblá que vocês conhecem. No fim do dia, ele contabilizou: oito ônibus da empresa tinham sido incendiados. No dia seguinte, assustado, falou: "Não ponho meus ônibus na rua." Às 7h15, recebeu um novo telefonema do traficante: "Amigo, já está liberado. Vou destruir a sua garagem se você não botar os ônibus na rua." Ele imediatamente obedeceu à ordem e diz que sabe direitinho agora quem manda no Rio. Alguém pode dizer que ele está errado?
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Quarta-feira, Maio 21, 2003
Filme antigo
Leio no jornal que Hector Babenco participou de uma mesa de debate sobre "Carandiru" em Cannes e foi ríspido com o mediador. Não gostou quando o jornalista falou que Costa-Gavras tinha outra visão de cinema. "Esse é o Constantin Costa-Gavras. Meu nome é Hector Babenco", disse irritado. Já vi esse filme. Há pouco tempo, num debate com Babenco e o elenco do filme, o diretor interrompeu aos berros um especialista em segurança pública. Sobrou até para o mediador - no caso, eu - que ficou na maior saia justa.
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Mais um Verissimo de araque
Não disse? Acabo de receber um e-mail intitulado: "Depoimento Emocionado de Luis Fernando Verissimo sobre sua experiência com as DROGAS". É um velho texto que circula pela internet comparando os cantores sertanejos às drogas. E com o velho truque de pôr a assinatura de Verissimo para dar mais credibilidade. Dá pra parar?
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Rio eu sofro com você
Vejo o caminhão de mudanças e paro para conversar com o homem. Como eu estava para me mudar, peço detalhes. Ele explica que é preciso autorização da prefeitura. Pergunto se isso afasta os policiais. Ele diz que não. Conta que um minuto depois que estacionou apareceu um policial a pé: 10 reais. Mais um tempo e veio outro de moto: 10 reais. Passaram-se mais alguns instantes e vieram dois numa patrulhinha: 20 reais. Comento:
- Pelo menos não veio nenhum a cavalo.
Ele responde:
- Calma que ainda é cedo...
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Terça-feira, Maio 20, 2003
Chegaram na frente
Na época o Barretão também quis filmar a história de Roberto Carlos, mas parece que chegaram na frente.
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Roberto Carlos merece
Ter um blog me faz lembrar da coluna. Não a que sofre com as 10, 12 horas por dia sentado diante do computador, mas a que eu escrevia há poucos anos no JB. Lembro-me que em 1999 falei de um rapaz chamado Roberto Carlos. Mariana, filha de Verissimo, conta que está fazendo o roteiro de um filme sobre ele. Roberto Carlos merece. Reproduzo aqui a nota que escrevi na época sobre ele, que tinha o título: "O afeto e as mudanças que ele traz."
É com admiração que se conta aqui a história de Roberto Carlos. Não o cantor, muito menos o jogador, mas o rapaz que, aos 12 anos, já tinha fugido 132 vezes da Febem. Considerado irrecuperável, passou a infância e o início da adolescência alternando-se entre as ruas e os reformatórios de Belo Horizonte. Perdeu a conta das surras que tomou, foi estuprado, meteu-se com drogas, envolveu-se em roubos, tentou o suicídio. Uma noite, deitou-se na ferrovia e desmaiou. Só não morreu porque o trem decidiu não passar. Nada disso ele lembra com autocomiseração ou rancor. Ao contrário, seu relato é pontuado por um humor desconcertante. Aos 13 anos, o menino favelado e analfabeto conheceu uma francesa. Combinaram um acordo: ele lhe mostraria a linguagem cifrada das ruas, ela lhe ensinaria a língua de Molière. Foram morar juntos e, desconfiado de tanta bondade, Roberto Carlos fez uma lista do que levar da casa. À medida que ficava, percebia que a mulher era do bem e ia desistindo de roubar os objetos, até que jogou a lista fora. Mudaram-se para a França e, na volta, ele cismou de também ajudar outros ``casos perdidos''. Formou-se em Pedagogia, tornou-se contador de histórias e começou a cuidar de meninos de rua. O primeiro que pegou é hoje um gênio da computação. Mas essa é outra história. Junto com 12 deles, construiu uma casa que agora abriga garotos antes condenados a uma existência breve. Aos 33 anos, Roberto Carlos esteve mês passado nos Estados Unidos. Em cada lugar, sua história emocionava e espantava. Na próxima sexta e no domingo 29 ele estará no Rio como convidado do 2º Festival de contadores de história, que será aberto amanhã no Parque da Catacumba, com patrocínio do Centro Pediátrico da Lagoa. Na autobiografia que escreve, Roberto Carlos diz que não adianta nada dar apenas cama, comida e dinheiro. ``Isso os traficantes também dão.'' Se tivesse que resumir numa palavra o que o salvou da morte precoce, é quase certo que diria: afeto.
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São 4
O DizVentura tem mais duas madrinhas, além da Elis e da Marina. Vamos a elas. Uma é a Cora, claro, referência-mor no assunto. A outra é a Denise, autora da tese "Blog: comunicação e escrita íntima na internet", primeiro trabalho acadêmico sobre os blogs. Por acaso, minha mulher. Com um empurrão desses, não dava mesmo para protelar mais.
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Segunda-feira, Maio 19, 2003
À bênção
Nunca tinha ouvido falar em blog até que, tempos atrás, uma moça de nome Marina me escreveu um e-mail falando no assunto. Hoje ela é a grande dama da internet, autora do www.blowg.blogspot.com. À bênção, Marina.
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Rio eu gosto de você
Um amigo viu: Reinaldo Giannechini saiu da academia onde malha, em Ipanema, e botou óculos escuros e boné, com medo de ser reconhecido pelos fãs. Passou um rapaz e gritou: "Ô cumpadi, você tá no Rio de Janeiro. Aqui não precisa dessa palhaçada toda, não." O ator saiu de fininho...
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Em manutenção
Acho que eu e o blog teremos uma relação tumultuada. Toda vez que escrevo um post e quero publicar, vem o aviso: "Sua sessão expirou." Ou então: "Serviço em manutenção." Aí perco tudo e tenho que escrever de novo. Não sei, não, mas acho que estão querendo me dizer que sou meio devagar.
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Quem era o Onça?
"Tempo do onça". Nem eu sei de onde desencavei essa expressão. Uma busca na internet e eis o que diz o "Dicionário de provérbios e curiosidades", de R. Magalhães Jr.: "Tempo do Onça foi o tempo em que o severo e turbulento Luis Vahia Monteiro governou o Rio de Janeiro. Começou o governo em 1725. Homem de gênero violento, entrou em conflito com vereadores e religiosos da cidade conquistando o apelido de Onça."
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O velho truque
Falando em Verissimo, recebo de uma amiga um e-mail que está circulando pela internet. O texto, chamado "Um dia de m.", é assinado pelo escritor gaúcho. Só que é uma baixaria só, o oposto do humor refinado de Verissimo. Taí um expediente do tempo do onça: você pega uma mensagem, põe a assinatura de alguém famoso e aumenta a leitura. Ninguém merece.
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Se até o Verissimo sofre...
Verissimo gostou de saber que Chico Buarque fica jogando paciência em vez de trabalhar. Ele também faz de tudo para não enfrentar a primeira frase. Mas acho que eu exagerei: abri esse blog há dois meses (graças à ajuda de Santa Elis Monteiro) e só agora escrevo algo além da palavra "teste". É um tal de tomar café, levantar da cadeira, esticar as costas, jogar conversa fora, tudo para não ter que escrever o primeiro post. Mas agora vai.
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Quinta-feira, Maio 15, 2003
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