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Segunda-feira, Junho 30, 2003
Quase chegamos lá
Ontem, domingão de sol no Aterro, Oscar fez sua despedida com a camisa do Flamengo. Na última partida, ele montou uma seleção para jogar ao seu lado: o filho Felipe, que atua nos Estados Unidos, Bruno, que já jogou no Flamengo, Monky, excelente jogador, e Glauco, um jornalista raçudo. Do outro lado da quadra, cinco peladeiros do Aterro. O massacre era inevitável. Pois não é que fizemos bonito contra o time de basquete de Oscar? Empatamos em 18 a 18, o jogo foi a dois, empatamos de novo, o jogo foi a quatro e só aí perdemos - isso porque Oscar apelou e pediu algumas faltas duvidosas. Minha participação se limitou a alguns passes e uma cesta - é bem verdade que na cara do maior jogador brasileiro de todos os tempos. Não é nada, não é nada, quase que o time dos peladeiros sai do Aterro consagrado.
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Sábado, Junho 28, 2003
A vida é bela
Receita de felicidade: acarajé + pastel de camarão + cuscuz + cafezinho feito na hora na Toca do Siri, em Copacabana.
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Sexta-feira, Junho 27, 2003
Menos
Uma sugestão: por que não instalam aqui no jornal um bloqueador de celular igual ao do presídio Bangu 1? Deve ter uns 200 jornalistas na redação. Digamos que metade tenha celular. O cardápio de toques parece infinito. Cada aparelho é regulado numa altura diferente. Façam os cálculos e sintam o drama. Buzina que relincha, karaokê e celular tocando música clássica não dá.
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Quinta-feira, Junho 26, 2003
Discriminação onde menos se espera
Leio no Rio Show que a sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) já era. Agora o certo é falar GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros). Ué, excluíram os simpatizantes? Não entendi. O movimento não prega o respeito à diversidade? A propósito, uma vez escrevi uma nota falando em GLS e um amigo me chamou num canto para conversar. Disse que algumas pessoas ficaram "preocupadas", achando que eu tinha saído do armário. Tudo porque eu disse que era S no GLS. Expliquei que não era o caso (e se fosse?). Vou reproduzir a nota, que saiu no JB há três anos e se chamava "As dores de ser minoria":
"Os carecas do ABC paulista lincharam um homem porque ele 'parecia homossexual'. Eles pregam o extermínio de judeus, negros, nordestinos e gays. Se eu estivesse no local, poderia ter sido a vítima, porque estou incluído numa das quatro categorias. O leitor há de se perguntar: qual delas? Pelo sobrenome ele não é judeu. A foto acima ( havia uma foto minha na coluna) mostra um rapaz apenas moreninho. E na carteira de identidade está lá: nascido no Rio de Janeiro. Sobra uma opção. Mas, na verdade, o colunista é S na sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). O que nos leva de volta ao começo, mais especificamente ao sobrenome materno, Akiersztein, alojado entre o Mauro e o Ventura. Pois foi uma semana difícil para nós judeus, aliás, para as minorias em geral. Na Tijuca, vândalos arrombaram duas sinagogas e picharam símbolos nazistas. Na Espanha, ataques racistas fizeram 50 feridos. Na Áustria, um neonazista chegou ao poder. E, na Favela da Maré, angolanos foram detidos e fotografados, suspeitos de serem mercenários do tráfico. Mesmo que alguns poucos estivessem ligados ao crime, o que se fez foi estigmatizar toda uma comunidade. Os abusos só não foram maiores porque o coordenador de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, deu um basta na PM, avisando que a discriminação tornou os angolanos vulneráveis dentro da própria comunidade: 'Estava sendo criada uma favela dentro da favela.' O episódio mostrou o despreparo da polícia. Ao ser cobrado da violência, um policial só faltou botar as mãos nas cadeiras de tão surpreso: 'Mas não houve brutalidade! Nós não batemos neles não. Aliás, tratamos muito bem. Chamamos até de cidadão.' Não passa pela cabeça do sujeito que reunir todos os angolanos como rebanho numa delegacia, revistá-los e fichá-los seja um constrangimento e tanto."
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Quarta-feira, Junho 25, 2003
Jack, o estuprador
O caderno "Folhateen", da "Folha", traz uma reportagem sobre as gangues juvenis. Diz que uma gíria comum entre a garotada é "Jack". É como eles chamam os estupradores. Os jovens ouvem falar em Jack, o estripador, é acham que o que ele fazia era estuprar as garotas...
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Viagra de nome Wagner
Leio uma reportagem no jornal inglês "The Guardian". Diz a jornalista: "Há dois tipos de experiência transcendental: fazer amor com alguém que você ama e uma noite na ópera." Ela defende a tese de que quatro horas de Wagner duas vezes por semana mantém sua sanidade e o torna melhor na cama. O título da matéria é sugestivo: "Ópera - melhor do que sexo." Sei não, mas acho que há controvérsias...
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Trilha sonora
Tem gente que precisa de silêncio para escrever. Acho que eu não conseguiria. Há 18 anos escrevo tendo como trilha sonora os barulhos de uma redação de jornal. Há as TVs ligadas aos berros nas novelas, nos desastres internacionais e nos jogos de futebol. Há os celulares que tocam uma infinidade de sons enquanto seus donos não estão por perto - ué, mas celular não é para ser carregado junto? Há os telefones, que tocam o tempo todo por todas as mesas. Há as risadas - algumas viscerais -, as tosses, os espirros, o estalar de dedos e demais ruídos corporais. Não há mais o som das máquinas de escrever, mas os teclados dos computadores podem ser incomodativos. Há o ranger das cadeiras e dos passos no piso. E há o Esporte. Uma amiga diz que os jornalistas esportivos não ultrapassaram o estágio dos homens das cavernas. Maldade. São todos grandes figuras, mas há que se reconhecer que não dão um bom dia sem fazer estremecer toda a redação. Se você quer sossego para escrever, certamente jornalismo não está em seus planos.
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Segunda-feira, Junho 23, 2003
Indecisão
Pior foi a "Folha", que no dia 11 de março de 1996 informou que o músico Carlos Santana era mexicano. No dia seguinte, se desculpou: "O músico Carlos Santana é guatemalteco, e não mexicano, como informou reportagem de ontem." Só que no dia 13 o jornal teve que dar a correção da correção: "Diferentemente do que informou ontem esta seção, o músico Carlos Santana é mesmo mexicano e não guatemalteco."
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Pedro Táxi
Volto ao assunto dos erros jornalísticos. Muitas vezes os jornais fazem um mea-culpa e publicam correções. Algumas se tornaram clássicas, como conta um e-mail que recebi de um amigo jornalista:
- "Diferentemente do que foi publicado na seção de necrologia, não houve missa de Ricardo Pereira. Ele está vivo." (27/6/97)
- "O quadro referente à reportagem Viagra para mulher indica erroneamente a vagina no local do ânus. No mesmo quadro, o testículo está incorretamente indicado no local do escroto." (14/3/2000)
- "Diferentemente do que foi publicado no texto Artistas periféricos passam despercebidos, Jesus não foi enforcado, mas crucificado." (7/12/94)
- "Na nota Balão, onde se lê 'bando Opportunity', leia-se 'banco Opportunity'." (21/12/95)
- "A peste pneumônica é transmitida por gotículas de saliva, diferentemente do que informou o texto publicado no dia 24/9." (28/9/94). O texto afirmava que a doença era transmitida por filhotes de perdiz. Quem editou o texto procurou um sinônimo para perdigoto, que pode significar tanto salpico de saliva como filhote de perdiz.
- "Texto da edição de anteontem grafou incorretamente no primeiro parágrafo a palavra ortografia." (25/2/95). Saiu hortografia...
- "Saiu grafado incorretamente na edição de ontem o plural de fuzil-metralhadora. O certo é fuzis-metralhadoras, e não fuzíveis-metralhadoras, como foi publicado." (13/9/91)
- "Diferentemente do que foi publicado na edição de ontem, a rodovia que passa pela cidade de Praia Grande chama-se Pedro Taques, e não Pedro Táxi." (20/11/99)
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Em extinção
Reunião hoje à tarde no jornal com editores, editores-assistentes, subeditores e agregados. No total, são 13 mulheres e dois homens - incluindo eu. Definitivamente, os homens são uma espécie em extinção no jornalismo brasileiro.
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Notinha
A visita de Lula aos Estados Unidos rendeu uma notinha no "Washington Post" e um silêncio total no "New York Times". Ué, imaginavam o quê? Se o presidente de Botsuana visitasse o Brasil aposto que meus chefes aqui no Globo iam ignorar solenemente.
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Sexta-feira, Junho 20, 2003
Potter
Minha mulher me liga. Já tem o novo "Harry Potter" nas mãos. Não que ela seja fã, mas como é gerente da Livraria da Travessa já recebeu o livro. Sabe quem é o personagem que vai morrer. Mas não me diz. Afinal, é casada com um jornalista. Uma amiga também me liga. Diz que adorou a reportagem que publiquei hoje na capa do Segundo Caderno do Globo sobre o lançamento de "Harry Potter and the order of the Phoenix". Conta que não imaginava que eu fosse um Pottermaníaco. Acho que ficou meio decepcionada quando soube que eu jamais folheei sequer um exemplar da série. Explico que essa é uma das características do jornalista: escrever sobre o que não sabe.
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Que inveja
Sou daqueles sem o menor talento para trocadilho. Talvez por isso admire tanto quem faz jogos de palavras. Uma amiga, por exemplo, trabalha num escritório onde só tem mulher. Uma das estagiárias, Cacau, brinca:
- Não é um escritório e sim um esclitóris.
Brilhante. É como aquela outra amiga que mora num trecho menos nobre do Leblon. Ela não diz que mora no Leblon e sim no Lebronx, numa referência bem-humorada ao bairro barra-pesada de Nova York.
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Marinha americana
Na verdade, a mania de dar nome americano aos filhos não se resume aos jogadores de futebol. Tem desde os clássicos Deivide, Daiane e Magaiver até Oallace, Uóston e Roquiudis (a mãe queria homenagear o ator Rock Hudson). O mais original vem de Natal, no Rio Grande do Norte, onde os Estados Unidos instalaram uma base militar durante a Segunda Guerra. Era tanto navio da Marinha americana no porto que não é raro ouvir por lá alguém dizer: "Boa tarde, Seu Usnavy."
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Valdisnei
Por falar em nome estranho, teve um dia no ambulatório do hospital de pediatria da UFRJ em que a atendente começou a chamar as crianças: Leandro. Solange. Vanderlei. Valdisnei. E assim por diante. Passado algum tempo, só restaram uma mãe e seu filho.
- Por que que a senhora não chamou meu filho?, preocupou-se a mãe.
- Mas eu chamei todo mundo! Como é o nome dele?, quis saber a funcionária, consultando de novo a lista.
- Walt Disney, respondeu a senhora.
Era o Valdisnei.
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Blog!
Tem um contador aqui no blog que mostra o número de visitas por dia. Ontem, o gráfico mostrou um salto assombroso. Fiquei matutando: "O que será que aconteceu?" Imaginei que poderia ter a ver com o feriado. Sabe como é: as pessoas navegando em casa, de repente deram de cara com o DizVentura... Mas não, isso não seria suficiente para triplicar o número de acessos. Foi quando entrei no blog da Cora que entendi tudo. Estava escrito simplesmente: blog! Quem clicasse vinha parar aqui. Para vocês verem como Cora Rónai é poderosa...
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Quinta-feira, Junho 19, 2003
Ursicino e Aid
Hoje é feriado, ou seja, dia de muito trabalho na vida de um jornalista. Já escrevi uma capa sobre Harry Potter - sem nunca ter lido uma linha sequer dos livros - e li um sem-número de matérias. Então, vou apelar e repetir aqui uma nota que dei há anos no JB, aproveitando que falei no nome de Sandy Leah. Aí vai: "Entre os deputados que desistiram de assinar a CPI da Corrupção tem
um Ursicino, um Cornélio e um Eujácio. Nome estranho é o que não falta no Brasil. Uma conhecida reencontrou uma amiga de infância, acompanhada de uma menina. A moça falou: 'Deixa eu te apresentar minha filha, Ava Gina.' Diante do espanto da antiga colega, ela explicou: 'É uma homenagem às minhas atrizes favoritas, Ava Gardner e Gina Lollobrigida.' O mais impressionante é que ela não via nenhum mal nisso. Outro caso real: o peão do interior de Minas decidiu dar à filha recém-nascida um nome parecido com o da patroa, Haydée. Ele queria homenagear o casal de fazendeiros que o acolheu em suas terras. Mas, no cartório,
esbarrou na má vontade do tabelião, que se recusou a registrar a menina. O matuto reclamou com o patrão, que foi ver o que estava acontecendo. Descobriu o problema: o rapaz estava querendo chamar a filha de Abc. 'Mas que nome é esse que você arrumou, meu filho?', perguntou o fazendeiro. 'Uai, se a patroa pode ser AID por que minha filha não pode ser ABC?' Ele ouvia falar Haydée e achava que se escrevia Aid. O patrão conseguiu convencê-lo a mudar para algo mais simples e a menina se chamou Iamê."
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Tela sertaneja
Meu colega Hugo Sukman é o rei das histórias. Sabe tudo de cinema e música. Preciso andar com um bloquinho e uma caneta para anotar tudo que ele fala. Conversamos sobre a época da discoteca - minha adolescência - e ele me conta que o filme "Grease" influenciou quem a gente menos espera. Dá o exemplo da cantora Sandy. Ela se chama Sandy Leah. O Sandy é por causa da personagem de Olivia Newton-John em "Grease" e o Leah é por causa da princesa Leah de "Guerra nas estrelas". É isso mesmo que vocês estão pensando: Xororó - ou Chitãozinho, nunca sei - é cinéfilo!
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Quarta-feira, Junho 18, 2003
Morto fala
Manchete do "Jornal da Tarde" sobre a morte de Gregory Peck: "O herói Gregory Peck diz adeus." Imagino a voz cavernosa do ator, vinda do além-túmulo, se despedindo dos fãs.
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A falta que faz uma letra
O sinal fecha e aproveito para avançar no "Livro aberto", de Fernando Sabino, que reúne textos escritos entre 1939 e 1998. Qualquer interrupção no trânsito é pretexto para folhear as páginas do livro. A primeira crônica traz o diálogo de um menino com um pardal. Fernando tinha 15 anos. E já escrevia melhor do que todos nós juntos. Um dos textos fala de um erro de revisão cometido pelo "Minas Gerais", órgão oficial do Estado, durante a Segunda Guerra Mundial. Fernando conta como foi: "Ao publicar na primeira página, com destaque, um telegrama de Londres dizendo que naquele dia 'não houve bombardeio e o céu se manteve limpo', a palavra 'céu' perdeu o 'é'. E o revisor, claro, o emprego." Na verdade, a gente checa, relê, revisa, confere as reportagens e volta e meia deixa passar um erro. Quando Senna morreu, lembro da falta que fez uma letra "d". Saiu publicado num jornal: "Os fãs despejaram flores e peidos diante do túmulo do corredor." Era para ser, claro, "pedidos". O pior é que a foto combinava bem com o texto: mostrava as pessoas com mão no rosto e ar compungido. Parecia até que estavam tapando o nariz...
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Terça-feira, Junho 17, 2003
A bandidagem treme
Meu chefe, o Xexéo, é um crítico afiado do governo de dona Garotinha. É dele a pergunta abaixo ("E os bandidos, podem ficar?"), formulada ontem aqui na redação do Globo. Mas uma coisa não se pode negar: Garotinho como secretário de Segurança rende boas risadas. Os bandidos devem morrer de medo de um sujeito que tem o apelido de Coronel Bolinha.
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Segunda-feira, Junho 16, 2003
Bebuns de fora
O governo do estado - leia-se Coronel Bolinha - anuncia um choque de segurança na Zona Sul do Rio, para acabar com a violência. Vai retirar camelôs, mendigos e meninos de rua. E os bandidos, podem ficar?
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Migração
Encontro um antigo colega de faculdade. Mal reconheço. Era magro, agora parece professor de musculação. Parece, não, é. Ele largou o jornalismo e dá aulas numa academia. De ginástica. Tem sido comum a migração do jornalismo para outras áreas. Um grande amigo me liga e diz que abriu uma camisaria em Porto Alegre e pretende escrever um livro. Outro também largou as redações e virou sócio de casa noturna e músico - de primeira. Já eu não tenho nenhum Plano B. Se me tirarem daqui estou lascado.
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Sexta-feira, Junho 13, 2003
"Não, obrigado"
Não fui para Veneza, como vocês devem ter imaginado. Em vez disso, vim trabalhar. No caminho, paro no posto de gasolina. Enquanto um frentista enche o tanque, outro tenta a todo custo abrir o capô do carro - para ver se me empurra algum óleo ultrasintético aditivado premium SL. "Não, obrigado", eu digo, enquanto ele insiste. Um menino se aproxima e pergunta se quero calibrar os pneus. "Não, obrigado." Uma moça chega e oferece carregador de celular para carro. "Não, obrigado." O frentista completa o tanque e ele também tenta abrir o capô. "Não, obrigado." Quando vejo, um homem com extintor de incêndio se aproxima. Caio fora. Nunca tinha reparado que uma ida ao posto de gasolina era tão tensa.
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Quinta-feira, Junho 12, 2003
Teletransporte
Chegou há pouco um convite, assinado pelo presidente da Bienal de Veneza, Franco Bernabè. Ele chama para coquetel e recepção de três exposições. Só tem um detalhe. Ou melhor, dois: o evento é amanhã. E em Veneza. Agora só falta o Franco me explicar como é que faço para descolar dinheiro, pegar um vôo, reservar hotel e estar às 11h da manhã de amanhã na cidade italiana.
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Um real
A pergunta que mais ouço é: "Quando você vai escrever seu livro?" A bem da verdade, a frase que mais escuto é: "Você já terminou sua matéria?", e logo depois a do livro. É uma frase que me acompanha há anos. Costumo dizer que está a caminho, ou recorrer a uma das explicações:
- Tem tempo. Pedro Nava lançou seu primeiro livro, "Baú de ossos", aos 70 anos.
- Há 18 anos que não faço outra coisa na vida que não seja escrever. Reportagens pequenas e grandes, superficiais e consistentes, entediantes e estimulantes. Então, na hora de fazer o livro bate uma preguiça...
- A toda hora surge uma idéia nova, melhor do que a anterior. Sendo assim, melhor esperar, porque amanhã pode vir uma idéia melhor.
Mas acho que a resposta mais honesta é... medo. Medo de que ele vá parar num sebo, debaixo de uma placa onde se lê: "Saldão, livros a um real!". Com ponto de exclamação e tudo.
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Quarta-feira, Junho 11, 2003
Quem dera
Uma amiga me escreve: "Como assim?!! vc é o flicts? posso ir aí embaixo e declamar o livro para você?! e ninguém sabe a verdade, a não ser os astronautas...." Quem dera, mas não é bem assim. Explico que não tenho nada a ver com a inspiração para o personagem de Ziraldo. O que aconteceu foi que um dia estávamos numa festa e anos depois ele escreveu: "No meio daquela festa toda, um menino arredio, tímido, ficava pelos cantos, olho comprido, longe da participação de todo mundo, prestando muita atenção em tudo, apartado. 'Vem brincar com os outros. Não fique aí sozinho', alguém convidou. E ele respondeu: 'Não. Eu sou Flicts.' Ele tinha cinco anos e era Flicts." Ou seja, eu apenas me identificava com o personagem, como tantos outros meninos...
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Terça-feira, Junho 10, 2003
Polybesteirol
Costumo receber uns troços bens estranhos pela internet. Mas ninguém supera meu chefe. De vez em quando ele repassa alguns releases que recebe, para que a gente se divirta. Eis os últimos:
- "Você está recebendo informações sobre Kali Nato, o primeiro evento polysexual do Brasil. Embora a coincidência (festa oficial pós-parada gay), o evento não é gay ou só para esse público. Daí a denominação polysexual. A idéia do projeto é ótima, bastante inovadora." Modestos...
- "Fasa de seu penis um PNIS. Com o MANUAL mais cobiçado da internet no momento, você aumenta o tamanho de seu pênis de 2 a 5 cm em 2 meses com exercícios absolutamente naturais." Fasa é demais...
- "Massagem for men é coisa séria! Especialistas em massagens terapêuticas desejam reformar o conceito." Massagem for men? Alguém sabe dizer o porquê do portunglês?
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Heróis maltratados
Nessa profissão você ouve muito papo-furado, mas também esbarra em gente interessante. O ex-corredor William Vorhees era office-boy em Bonsucesso e, para completar o treino, pegava os malotes e ia correndo pela Avenida Brasil até o Centro da cidade. Tomava banho num chafariz e comia os restos da feira. Mesmo assim, foi campeão brasileiro universitário de revezamento e só não pôde ir às Olimpíadas por falta de patrocínio. Conversamos sobre racismo. Ele conta o caso de seu primo, Arnaldo de Oliveira. Arnaldo, para quem não lembra, correu em quatro Olimpíadas e ganhou a medalha de bronze em Atlanta. Logo que voltou dos Estados Unidos, em 1992, era paparicado em tudo que é canto. Levava tapinha nas costas, dava autógrafos e ouvia: "Não precisa pagar, não."Dias desses, Arnaldo foi numa loja e quis fazer um crediário. A vendedora ficou desconfiada - afinal, Arnaldo cometeu o crime de ter nascido negro. "Ela pediu de tudo. Só faltou o tipo sangüíneo. A idéia era dificultar ao máximo para ele desistir", conta Vorhees, que acompanhava o primo. Somente quando Vorhees disse ao gerente que ele estava diante de "um herói brasileiro" é que o tratamento mudou. O sujeito ficou passado e pediu mil desculpas. E ainda dizem que isto aqui é uma democracia racial...
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Segunda-feira, Junho 09, 2003
Nova arma
Achei que já tinha visto de tudo na vida. Aconteceu em Belo Horizonte, com a colega de trabalho de um amigo. A moça estava parada no sinal quando o assaltante se aproximou do carro e disse:
- Ocê me passa o dinheiro senão vou sujar ocê todinha de bosta.
Quando ela viu, ele estava com um pão recheado de cocô. Enquanto o bandido falava, seu comparsa, do outro lado do carro, sujava o vidro para mostrar que eles falavam sério. Mesmo assim, ela arrancou com o carro. O resultado? Uma camisa suja e uma licitação perdida.
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O leão e o burrico
Passei o dia revisando textos aqui no Globo. A notícia mais curiosa que tive que ler aconteceu há... 50 anos. Assim o jornal noticiava no dia 10 de junho de 1952: "Também os animais artistas têm o seu Oscar, a saber, o Patsy, prêmio que oferece anualmente a Sociedade Protetora Americana aos animais que tomam parte nos filmes. Este ano coube o Patsy ao leão Jackie, por sua atuação no filme Meu amigo, o leão. Para isso, realizou-se uma festa ao ar livre, a que compareceram Francis (o burrico); Lassie e Lassie Júnior; Bonzo; o puro-sangue de Roy Rogers, Tigger; e outras pessoas e animais." Agora quem souber me diga: quem era Patsy e o que foi feito do tal prêmio?
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Domingo, Junho 08, 2003
22
Hoje 22 pessoas vão morrer assassinadas no Rio. Pode ser uma a mais, uma a menos, mas essa é a média diária no Estado, segundo mostra o Globo. E a polícia só consegue resolver oito em cada 100 homicídios. Ou seja, dos casos de hoje só um ou dois serão transformados em inquéritos e julgados pela Justiça. Do outro lado do ringue, para enfrentar esses números, temos o coronel Bolinha. Sei não, mas acho que estamos em desvantagem.
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Sábado, Junho 07, 2003
Ai Jesus
Semana Santa em Minas. O governador Aécio Neves participou da Procissão do Enterro carregando a lanterna que foi do avô, Tancredo Neves. Durante a caminhada, o mulherio não se conteve e, dando um tom profano à cerimônia, gritou: "Lindo! Gostoso!" Nisso, aproximou-se uma mulher e disse: "Abençoado!" Aécio, todo envaidecido, agradeceu o elogio. Até que um ajudante de ordens cochichou: "Governador, os outros adjetivos foram para o senhor, mas esse agora foi para aquele que está deitado ali atrás..." Aécio só faltou sair de fininho...
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Sexta-feira, Junho 06, 2003
Vespeiro
Entrevisto o cineasta Anselmo Duarte, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com "O pagador de promessas". Ele adora reclamar da vida. Diz que o pessoal do Cinema Novo foi bem-recebido porque teve a proteção da imprensa. E, com a fineza que Deus lhe deu, conta uma lição que aprendeu de uma amiga psicóloga:
- Anselmo, você precisa aprender a tratar bem três raças: judeu, viado e jornalista. Eles são muito unidos. Mexeu com um mexeu com todos.
Digo para ele que faço parte de dois desses três grupos. E que não acho os jornalistas muito unidos, não. Pelo contrário. Mas ele garante:
- É um vespeiro.
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A vida é bela
Saldo da ida ao dentista: uma restauração (de um dente avariado num jogo de basquete), uma cárie e uma limpeza dos dentes. A única coisa boa é saber que para sentar naquela cadeira de novo vai levar tempo.
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"Não nos responsabilizamos"
Paro no estacionamento e recebo um folheto: "Não nos responsabilizamos por incêndios ou roubos. Não nos responsabilizamos por eventuais danos causados ao veículo, sejam eles acidentais ou propositais. A gerência não se responsabiliza por objetos deixados no interior dos veículos. Não nos responsabilizamos por quaisquer colisões, sejam elas praticadas pelo proprietário do veículo, ou por pessoas autorizadas a dirigir o mesmo, inclusive funcionários deste estabelecimento." Achei melhor sair dali rapidinho.
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Quinta-feira, Junho 05, 2003
"Estou louca para te ver"
A próxima novela das seis vai se passar numa cidade fictícia chamada Ventura. Foi-se o tempo em que achava meu sobrenome incomum. Ele quer dizer sorte - boa ou má. O novo disco dos Los Hermanos se chama "Ventura", assim como uma revista de arte. Mauro Ventura tem aos montes. Só jornalista ouvi falar de mais dois. Volta e meia alguém me pergunta: "Você está com uma peça em cartaz?" É que tem ator de teatro infantil com o mesmo nome. Certa vez, descobri um Mauro Ventura no Norte do país - mas não era um homônimo e sim um espertalhão. Já contei isso antes, mas Rubem Braga dizia que depois de dois anos toda crônica é inédita. Tudo começou com um telefonema. Uma voz sensual e desembaraçada perguntou se eu estava com saudades. "Estou louca para te ver", ela dizia. Expliquei que era engano, mas a moça insistiu. "Não é o Mauro Ventura que está falando? Pois então, não vejo a hora de te reencontrar." Em seguida, ela começou a relembrar os momentos românticos que havíamos vivido juntos em Manaus. Desconfiado de um trote, desmenti cada lembrança. Ela foi se irritando, reclamou que os homens são todos iguais e disse que eu poderia ter pelo menos a decência de falar direito com ela. Precisei insistir até ela ver que eu estava sendo sincero. A moça então contou o que aconteceu. Tempos atrás, desembarcara em Manaus um jornalista. Apresentara-se como Mauro Ventura e levara inclusive um exemplar da revista Domingo, do Jornal do Brasil, onde eu trabalhava à época, como prova. Viera fazer uma reportagem sobre a cidade. Bom de papo, insinuante (definitivamente não era eu), logo caiu nas graças da sociedade local. Foi recebido pelo prefeito, recebeu convite para festas, jantou nos melhores restaurantes. A moça pelo visto também caiu na conversa fiada do sujeito. Durante uma semana, ele foi paparicado, sem que ninguém tivesse a idéia de ligar para o jornal e confirmar a história. Expliquei que nunca tinha sequer passado de Brasília. A garota ficou irritadíssima em descobrir-se enganada, mas desconfio que não se arrependeu nem um pouco daquelas noites quentes de Manaus.
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Quarta-feira, Junho 04, 2003
Erro
Nunca me dei muito bem com computadores, então não teria porque imaginar que com o blogger seria diferente. Então, alguém sabe dizer por que quase toda vez que tento publicar uma nota aparece a mensagem "Ocorreu um erro de publicação"?
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Valeu, Sabino
Mas o furto do meu carro (ver nota abaixo) teve uma vantagem: eu escrevi sobre o assunto e, passados alguns dias, recebi em casa um pacote. Não, não eram os livros que o ladrão, num gesto de grandeza, resolveu devolver. Esses já deviam estar na lata de lixo há tempos. Eram três livros de Fernando Sabino, devidamente autografados, e enviados, pelo autor. Como ele é um dos meus escritores favoritos, dá para perceber a festa que foi.
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Adeus, Drummond
Estaciono no Leblon, pago os dois reais do Vaga Certa e o guardador me avisa: "Se tiver rádio é melhor tirar." Explico que o rádio é de fábrica e não sai. Ele faz cara feia e diz que tem muita gangue por ali. Falo: "Então o senhor faça o favor de ficar de olho." Ora essa, afinal não é para isso que a gente paga à prefeitura? Já tive alguns carros furtados e o pior não é nem enfrentar a burocracia policial e a burocracia da seguradora. É fazer um inventário do que tinha no automóvel. Ainda mais no caso de quem, como eu, faz do carro uma extensão da casa. Certa vez, entre os objetos levados tinha óculos escuros, chave de casa, toalha, luva de boxe, bloco de anotações, agenda, calção, tênis, bola de basquete, carregador de celular, folhetos de apartamento, jornais velhos, documento do carro, copo de mate vazio, panela - devia ter devolvido logo para minha mãe - protetor solar, lenço de papel, contracheque e - o que me deixou realmente irritado - livros do Drummond, do Fernando Sabino e do Rubem Braga autografados para o meu pai. Covardia.
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Cinco é demais
Vocês que são mais experientes me expliquem: por que que às vezes a mesma nota sai repetida várias vezes? Só agora percebo que o post sobre os homônimos estava repetido cinco vezes. E o pior: em negrito, que é para chamar mais atenção. Se fosse em jornal acho que eu estava demitido...
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Homônimos
A internet tem suas armadilhas. Lembro que uma vez estava atrás da empresa Videofilmes, dos irmãos Walter e João Moreira Salles, e fui parar num site pornô, que tinha o mesmo nome da produtora. Encontro com o deputado Carlos Minc na posse do novo representante do Ministério da Cultura (MinC) no Rio e ele, como de hábito, me abastece com suas histórias saborosas. Certa vez, ele conta, o então ministro da Cultura, Francisco Weffort, resolveu acessar o site de seu próprio ministério. Viu de cara uns artigos sobre ecologia e achou tudo bem. Afinal, cultura e meio ambiente não chegam a ser que nem água e óleo. O ministro seguiu em frente na página e o tema agora eram os gays. Achou um pouco estranho, mas não se incomodou. Quando o site passou a defender a descriminalização da maconha, Weffort subiu nas tamancas: "Aí já é demais!" Quando se preparava para passar um sabão nos responsáveis pelo site do ministério é que se deu conta do engano: em vez de digitar www.minc.gov.br e acessar o site do MinC, escreveu www.minc.com.br e foi parar na página do deputado Carlos Minc. Coisas da internet.
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Rosineide
Deu no jornal que um homem esqueceu uma gravura de Picasso no metrô de Nova York. Dois mendigos acharam a tela e a entregaram para um imigrante libanês, que devolveu o quadro logo depois de ver uma reportagem sobre o assunto na TV. O homem distraído está feliz da vida, mas não quer ser lembrado como "o idiota que esqueceu um Picasso no metrô". Vai ser difícil. O episódio me lembrou Rosineide. Ela achou não um Picasso, é claro, mas uma carteira cheia do dinheiro. Na época (2000), contei sua história, mas não custa repeti-la aqui. O título era "Alice no país de Rosineide":
Rosineide já fez mais pela imagem do Rio do que muita agência de viagem ou secretaria de turismo. Falei da moça aqui por alto, mas agora chegaram os detalhes. Rosineide Paiva, ou Rosineide Rivas, não se sabe ao certo, descobriu uma carteira caída no corredor lotado do Rio Sul. Tinha de tudo: cartões de crédito internacional, documentos e muito dinheiro, entre dólares, reais e francos suíços. Ninguém mais reparou. Era uma chance única na vida atribulada de Rosineide. Na outra ponta da história, a suíça Alice se desesperava ao perceber que sua carteira sumira. Casada com o ex-diretor de uma indústria química, vinha pela terceira vez ao Brasil, sempre de transatlântico e no Natal. Achou que tinha sido furtada. Até que ouviu seu nome no alto-falante - Rosineide tinha preferido comunicar a descoberta à segurança do shopping. Quando as duas se encontraram, Alice quis dar 300 dólares em agradecimento, mas ouviu de Rosineide:
- Sou muito pobre, mas tenho orgulho de ser brasileira. Esse é o meu presente de Natal para você. Quero que a senhora leve daqui a imagem de um povo honesto e trabalhador.
As duas se abraçaram e choraram. De volta à Suíça, Alice avisou aos parentes que não iria dar nem receber presentes. Em vez disso, pediu a uma família amiga, moradora no Rio, que montasse 210 cestas básicas. Os Rostock, também suíços, distribuíram as cestas nas favelas da Rocinha, Vidigal e Vila Pinheiro, a quem aparecia pelo caminho. Alice fez mais. Contou a história à sua agência de viagem, que mandou circular para todas as filiais, recomendando o Rio como destino. De Rosineide, pouco se sabe. Mora em Nova Iguaçu, é mulata, tem cerca de 30 anos e não tem telefone. Não quis deixar endereço. Na pequena Schaffhausen, perto de Zurique, Alice não fala de outra coisa: "Encontrei uma alma gêmea."
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Terça-feira, Junho 03, 2003
Cena carioca
A moça estava numa van em direção à Barra da Tijuca. Na altura de São Conrado, o veículo foi parado numa blitz. Enquanto os policiais revistavam o carro, um pivete entrou na patrulhinha e roubou o dinheiro que os PMs guardavam no porta-luvas. Um policial ainda saiu correndo, de arma em punho, atrás do garoto. Não viu nem sombra. Aos populares, só restou segurar o riso e comentar: ladrão que rouba ladrão...
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No calçadão
Aproveito as férias para dar uma corrida no calçadão. Nos dois dias seguintes, mal consigo caminhar. Subir escada, só aos trancos e barrancos. O ortopedista dá o diagnóstico: "Você está velho." Ah, é? Uns dias depois, nova tentativa, agora devidamente aquecido. Menos de cinco minutos depois, os joelhos já estão em petição de miséria. Aos poucos, vou ficando para trás. Primeiro são três garotos que passam, com humilhante facilidade. Em seguida, duas mocinhas. Logo depois, é a vez de um senhor, seguido por um homem de seus 70 anos. Aperto o passo, mas quando vejo estou disputando corrida com uma mulher. Só que ela está caminhando - é bem verdade que com pressa. Achei melhor desistir. Mas eu volto. Me aguardem.
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É bom conferir
Entrego o carro para o manobrista e entro na pizzaria. Na volta, dou a ele os dois reais básicos. Ele recusa e pede que eu dê uma olhada mais atenta no tíquete: seis reais! Virou moda. O restaurante terceiriza o estacionamento, dá o nome pomposo de Valet Parking e o cliente agora paga três vezes mais pelo mesmo serviço de antes.
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Domingo, Junho 01, 2003
Na boate
Um amigo me conta que seu filho passou no concurso do Ministério Público e virou promotor. Feliz da vida, o garoto foi na boate comemorar. Conheceu uma menina, que lhe perguntou:
- O que você faz?
Ele, todo orgulhoso, respondeu:
- Sou promotor.
E ela, toda animada:
- De que boate?
Até explicar que promotor não é promoter...
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Seu William
O sítio de Vera Fischer fica em Ilha de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. Após a entrevista com a atriz, de volta para o jornal, fico remoendo a dúvida: se não tem uma gota d'água na região, por que o bairro se chama Ilha de Guaratiba? Não descanso até encontrar a explicação: há muito tempo morava no lugar um inglês, de nome William. "É o William de Guaratiba", diziam os moradores. Com o tempo, ele ficou conhecido como Willia de Guaratiba e, depois, como Ilha de Guaratiba. Mais tarde, a região toda acabou batizada assim. Se é verdade ou não, não sei, mas que faz sentido, faz.
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