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Quinta-feira, Agosto 28, 2003
Arte contra o tráfico
Eu sei, eu sei, ando sumido. Tenho estado às voltas com a leitura dos contos para o concurso do "Prosa e Verso", com o curso de crônica na Estação das Letras e com as reportagens do jornal. Acabo de pôr o ponto final numa resenha do livro "Da favela para o mundo" que vai sair no "Prosa e Verso". O livro conta os dez anos do Afro Reggae, que usa a arte para tirar jovens do tráfico. Mesmo o leitor familizarizado com o tema sai das páginas impressionado com as histórias narradas por José Junior, coordenador-executivo do grupo. Tem o caso de Dinho, rapaz de Vigário Geral que ia fazer um assalto, mas, atraído por uma batucada do grupo, pediu licença aos colegas bandidos e escapou da morte. Tem também Tota, percussionista da banda, que abandonou o Afro Reggae para ser traficante. Virou gerente da boca de fumo, foi preso, saiu da cadeia e, arrependido, voltou para o grupo. É ele quem conta: "Além de ser pobre e de ser ex-traficante, você passa a conviver com o estigma de ser ex-presidiário. A tatuagem que fiz na cadeia a polícia reconhece logo, porque é mais feia, esmaecida. Lá se usa arame em vez de agulha."
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Domingo, Agosto 24, 2003
Obrigado
Um furacão chamado Meg (os furacões não costumam ter nomes femininos?) varreu as páginas deste blog, depositou aqui e ali mensagens carinhosas e trouxe alento ao duro ofício de empilhar palavras e dar-lhes algum sentido.
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Sexta-feira, Agosto 22, 2003
Bizarrices
Que o mundo é um lugar estranho estamos todos cansados de saber. Mas quem tem por hábito ler vários jornais volta e meia se depara com algumas bizarrices dignas de nota. Querem um exemplo? Dou até dois, ambos tirados de "O Dia". Um brasileiro pode ser condenado à morte na Indonésia por tráfico de drogas. Até aí não difere muito de outros países. O inusitado está no carrasco: um elefante. O público enche as arquibancadas de uma arena para ver o condenado ser enterrado até o pescoço e ter sua cabeça esmagada pelo paquiderme. Outra reportagem fala de leis excêntricas. No Estado de Washington, é proibido transar com virgens, mesmo na noite de núpcias, o que nos leva a crer que elas tenham que mudar de estado para perder a virgindade. Reproduzo aqui outras leis estranhas dos Estados Unidos, muitas delas ultrapassadas:
Em Oregon, o homem não pode falar palavrões com a mulher durante a relação sexual. Na Flórida, mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas não podem pular de pára-quedas aos domingos. Em Massachusetts, é proibido tomar mais de um banho por semana. Em Idaho, não é permitido pescar montado numa girafa. Na Pensilvânia, é proibido dormir dentro de uma geladeira. Em Maryland, é proibido limpar a banheira e beijos não podem durar mais de um segundo. Em Ohio, uma mulher não pode se despir na frente da fotografia de um homem. Em Wiscosin, é proibido aos homens atirar com armas de fogo quando suas parceiras atingem o orgasmo. Em Kentuck, um homem não pode se casar com a avó de sua ex-mulher. Em Vermont, mulheres casadas não têm direito a usar próteses dentárias sem consentimento por escrito dos maridos.
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Quinta-feira, Agosto 21, 2003
Filme à toa
Sábado desfilei toda a minha insignificância numa festa de bacanas. Era o aniversário de 40 anos de um amigo de infância, por acaso ator famoso da Globo. Fui um dos primeiros a chegar e os fotógrafos, de plantão na portaria, acionaram um flash atrás do outro. Explica-se: noite chuvosa, iluminação escassa, guarda-chuva aberto, eles acharam melhor clicar antes e perguntar depois. Vai que era alguma celebridade chegando... Mais tarde, apareceram Camila Pitanga, Carolina Ferraz, Claudia Abreu, Malu Mader, Camila Morgado, Guilherme Fontes, Dênis Carvalho, Andrucha, José Henrique Fonseca e até o Coppola. Fiquei imaginando a irritação dos fotógrafos, descontentes por terem gasto filme à toa com aquele sujeito anônimo, de olhar assustado e guarda-chuva de cinco reais.
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Quarta-feira, Agosto 20, 2003
"Briga, não, meu rei"
O blecaute americano fez muito hóspede dormir no hall de entrada dos hotéis de luxo. Eles não conseguiam entrar nos quartos porque as chaves eletrônicas não funcionavam. Esse é o problema da modernidade. Quando a informática falha, é um Deus nos acuda. Um dia entrei numa loja em Goiânia para comprar fita cassete. As prateleiras estavam cheias, mas só pude levar duas. O rapaz do caixa explicou-me que as fitas ainda não tinham sido cadastradas. Logo, o computador não aceitava que elas fossem vendidas. Não houve jeito de levar mais de duas. Dia desses, quis comprar bala numa lanchonete. Pedi três, mas ouvi da vendedora que o mínimo era quatro. Menos que isso o código no computador não aceitava. Acabei sem nenhuma. E quando falta luz? O melhor é tomar um táxi. A porta automática da garagem não abre e o carro fica ilhado. Uma vez, a mocinha do guichê do Detran, simpática toda vida, avisou-me que eu não poderia receber os documentos do carro porque havia uma multa pendente. Dei meu melhor sorriso e disse que a multa já tinha sido paga - aliás, naquele dia mesmo.
- Não aparece no computador. O senhor pagou em cheque ou em dinheiro?
- Em dinheiro.
- Então leva três dias para aparecer. Se fosse cheque levava cinco. O senhor vai lá na Presidente Vargas e dá baixa na multa. Mas olha: na volta nem precisa entrar na fila.
No fim das contas, perdi sete horas, porque o computador leva três dias para registrar que a multa foi paga. É como aquele compositor baiano que ficou horas na fila de um banco em Salvador tentando descontar um cheque. Quando chegou ao caixa reclamou da demora. A funcionária, cheia de dengo, explicou:
- Ah, meu rei, briga não. Depois do computador ficou tudo mais complicado.
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Terça-feira, Agosto 19, 2003
Procura-se ghost writer para blog
Julia Marinho critica a morosidade com que o DizVentura dá sinais de vida. Diz que é frustrante abrir a página é ver as mesmas notas velhas de sempre. Ela dá um sugestão: por que que eu não contrato um ghost blog? Ele escreveria os posts e eu assinaria. Taí um belo trocadilho. Que nem o comentário de meu amigo Denílson sobre Paraty: "Paratisíaco." E ouçam só - ou melhor, leiam só - o que diz Paula Autran, colega de redação, que trabalha na área de cidade. Volta e meia Paula é cedida para outras editorias, o que a levou a se definir: "Sou uma repórter emprestável."
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Segunda-feira, Agosto 18, 2003
Introdução à crônica
Hora dos comerciais: amanhã, terça-feira, começo a dar o curso "Introdução à crônica", na Estação das Letras (Rua Marquês de Abrantes, 177, loja 107, Flamengo, tel: 3237-3947). Será toda terça, das 15h às 17h. Um horário meio ingrato...
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Domingo, Agosto 17, 2003
Do Palácio Alvorada ao presídio
Uma das boas coisas do jornalismo é que ele te dá a oportunidade de circular por tudo que é canto. Já teve dia em que eu saí da favela para uma entrevista no restaurante Antiquarius. Há menos de um mês, estive no Cine Alvorada, a sessão de cinema que o Lula promove em sua residência oficial. Semana passada, foi a vez de conhecer outra sala de cinema inusitada. Não tinha uísque 12 anos, charuto cubano, atrizes conhecidas ou presidente da República. Mas foi igualmente compensador. É o Cine Lemos Brito, que fica dentro da penitenciária de segurança máxima Lemos Brito. Ele está fechado há 30 anos e vai ser reaberto na quarta-feira, com uma sessão para 583 presidiários. A visita à prisão rendeu uma reportagem dominical na editoria Rio do Globo. Mas jornalismo é uma atividade dinâmica. Quando saí do jornal, ontem, à 1h da manhã, deixei a matéria pronta. Estava com duas fotos e ocupava um bom espaço. Horas mais tarde, vi a primeira edição do jornal, que é vendida na tarde de sábado e vai para os outros estados. Surpresa: a matéria tinha perdido as duas fotos e encolhido de tamanho, para dar espaço à notícia da gripe que atacou Rosinha e Garotinho. Hoje, quando abri o jornal, novo susto: a matéria tinha sumido e dado lugar ao obituário da morte do poeta Haroldo de Campos. Ossos do ofício. Quem quiser conhecer a reportagem que sumiu, pode clicar aqui.
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Quarta-feira, Agosto 13, 2003
"Meu nome é Creuza"
Show de reabertura da Sala Baden Powell, em Copacabana. No palco, estrelando o "Musical dos musicais", estavam Marília Pêra, Bibi Ferreira, Stella Miranda, Miguel Falabella, Ney Matogrosso, Suely Franco, Claudia Netto. Na platéia, Arlete Salles, Marina Lima, Vera Holtz, Eduardo Dusek. Todos eles tornaram-se meros figurantes na hora em que entrou em cena uma voz poderosa cantando uma versão escrachada da música "O amor e o poder". Ninguém acreditou: era ela mesma, Rosana, interpretando, junto com Luís Salem e Aloísio de Abreu, versos como "Meu nome é Creuza/Só ando de trem/E os vale que o Edmílson dá/Me levam além". Os mais novos não têm idéia de como o hit brega colou nos ouvidos e foi repetido em todo canto do país. Depois do estouro, Rosana fez uma operação plástica mal-sucedida, sumiu de cena e reapareceu há pouco, fazendo shows para o público GLS. No fim do espetáculo, ficamos um bom tempo conversando. Ela tinha vindo direto de Manaus, onde fez show. Agora está loura, com o cabelão quase na cintura. Veio enfiada num modelito preto justíssimo. Seu carro foi multado, mas ela não estava nem aí. Ficou feliz da vida de encontrar Marisa Orth e lhe entregar seu cartão. "Quem sabe não surge uma nova parceria?", perguntei a Marisa. Ela gostou da idéia. Ia dar o que falar a dupla Marisa-Rosana. O problema agora é desgrudar a musiquinha da cabeça. Volta e meia me pego cantarolando "Como uma deusa/Você me mantém/E as coisas que você me diz/Me levam além". Cruzes.
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Segunda-feira, Agosto 11, 2003
Era do cachorrinho
Logo depois que conversou com Renato, Fernando Sabino foi caminhar na praia. Quando chegou no calçadão, viu que uma mocinha bonita andava à sua frente. A certa altura, achou que ela tinha deixado cair algo e, gentil, se abaixou para pegar. Ela viu e disse:
- Cuidado, não apanha, não, que cheira mal!
Ele, todo galenteador, respondeu:
- Vindo de você só pode cheirar bem.
No que ela achou por bem advertir:
- Mas esse não veio de mim, não, veio do cachorro...
Ele tirou a mão rapidinho.
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Terça-feira, Agosto 05, 2003
Encontro marcado com Renato
Toca o telefone. É Fernando Sabino. Acho que vocês não entenderam. Quem estava do outro lado da linha era Fernando Sabino, um de meus ídolos literários desde que, ainda garoto, li "Encontro marcado".
- Estou ligando para contar uma história que só você tem sensibilidade e condições criativas para entender - ele disse.
Gelei. Era responsabilidade demais para o meu gosto. Mas ouvi atentamente as palavras de Fernando:
- Eu ia saindo da igreja no domingo quando vi um rapaz de short, sentado num caixote. Ele não tinha os dois braços. As pessoas davam esmola e ele pegava com os dedos dos pés. Fiquei pensando: "Como ele escova os dentes, penteia o cabelo, coça o nariz?" Chegou um segurança, pegou o dinheiro e trocou para ele por uma nota de R$ 20 na banca de jornal. Apresentei-me, dei a ele cinco reais, disse que meu nome era Sabino e perguntei se podia conversar. Ele disse que tinha 28 anos e nasceu assim. Quando sua mãe viu, jogou-o no lixo. Ele foi achado por uma pessoa e foi passando de uma mão para outra. "Várias pessoas me ajudaram aqui e ali", disse. Chamava-se Renato, era analfabeto e morava cada dia num lugar. "Você tem cabeça tão boa", comentei. "É, já me disseram isso", ele falou. Renato contou que come quando dá - ou seja, quando aparece alguém para ajudar. A naturalidade dele impressionou-me estupidamente. Fiquei comovido de chorar - narrou o escritor.
Em seguida, Fernando perguntou-me o que poderíamos fazer por ele. Quis saber se eu poderia ir lá conversar com Renato e, quem sabe, como jornalista, imaginar alguma forma de ajudar.
- Não estou pensando em salvar a humanidade e sim em atender ao apelo do meu coração. Saí dali com os olhos cheios de lágrimas. A história de Renato me tocou muito e lá na hora pensei que você era a única pessoa que poderia dividir comigo essa emoção - disse.
Só posso dizer o seguinte, Fernando: essa semana mesmo tenho um encontro marcado com Renato.
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Ruir e castrar
Na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, você não dava dois passos na rua sem encontrar um rosto conhecido. Mas o ponto alto foram as palestras. Millôr Fernandes apresentou Ruy Castro da seguinte forma: "O nome dele é catastrófico e ameaçador. Começa com Ruy. Depois, vem Castro." Brilhante. Dois verbos, ruir e castrar, um catastrófico e o outro, ameaçador. Ele lembrou ainda da crítica que fez ao livro "Brejal dos guajas", do imortal Sarney - ou Sir Ney, como prefere. Disse que é tão ruim que parece escrito por um oligofrênico.
- Me perguntaram se ele, afinal, escreveu ou não escreveu um livro. Escreveu. Segundo a Unesco, livro é uma publicação não periódica de mais de 50 páginas. E "Brejal dos guajas" tem 51 páginas.
Millôr encerrou com uma pergunta a Ruy, autor dos livros "Anjo pornográfico", sobre Nelson Rodrigues, "Estrela solitária", sobre Garrincha, e "Chega de saudade", sobre a bossa nova.
- Ruy, você acha que o Garrincha é um anjo pornográfico?
- Chega de saudade, Millôr.
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Segunda-feira, Agosto 04, 2003
Y
Na ótima matéria da Isabel Kopschitz publicada ontem no Globo, lá pelas tantas aparece o bandido-mirim Y., 13 anos. Ele é um exemplo acabado do poder do tráfico de drogas. Isabel foi entrevisá-lo com a condição de não revelar seu nome verdadeiro. Nesses casos, o jornal costuma identificar o personagem como X. Para tranqüilizá-lo, ela explicou:
- Não precisa se preocupar. Vai sair assim: "X., 13 anos".
Para surpresa de Isabel, em vez de se acalmar o garoto se desesperou. Ouviu falar em X e achou que ela fosse identificá-lo na reportagem como X-9, ou informante da polícia, categoria que, na escala do morro, só fica abaixo da dos estupradores (se o garoto tivesse nove anos, então, ia ser pior: "X., 9 anos"). Ela teve que prometer que ia trocar de letra. E assim ele virou "Y., 13 anos".
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Sábado, Agosto 02, 2003
Flip
Estou pegando a estrada agora, rumo à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Amanhã estou de volta e conto os detalhes.
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Juliete
A moça liga para o amigo e convida: "Vem rápido que peguei uma fita com o último filme do Benício de Paula!" O ator Benicio del Toro não é lá muito a cara do sambista Benito de Paula, mas, enfim, essas confusões são comuns. Curioso mesmo é o diálogo que pesquei esses dias no blog da Samanta, o NoFreezer. A amiga se vira para a outra e diz:
- Ai, menina, anda mais devagar porque meu pé tá doendo.
- Mas tá doendo de quê?
- Ah, não sei, acho que é a minha Juliete.
- Juliete?!? Que Juliete o que, sua burra. O nome certo é Janete!!!
Coitado do Joanete...
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