Terça-feira, Setembro 30, 2003
Deu no Joaquim
Documentário estranho
Dois sujeitos documentavam o pipi no banheiro masculino da festa vip de abertura do Festival do Rio. Um estava com uma microcâmera. O outro, o repórter, puxava conversa sobre o ritual público. A "reportagem" foi descoberta no fim da noite. Aguarda-se a mostra do próximo festival.
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Domingo, Setembro 28, 2003
E fez-se o verbo
Na aula de terça-feira sobre introdução à crônica, falamos sobre ficção e realidade. Expliquei que o cronista tinha espaço para criar personagens. A ficcionalização ajuda a sair do plano individual e particular e ir para um nível mais universal e coletivo. Só que o cronista não tem a liberdade do romancista, que pode inventar acontecimentos, datas, pessoas e locais. A crônica, em geral, tem um vínculo com os fatos, o que torna a recriação do real mais restrita. Um aluno perguntou:
- Quer dizer então que a gente pode guguzar?
Ouvi o verbo, reconheci-o e achei-me antenado com os novos tempos.
- Claro que pode usar o Google - comentei.
Afinal, como vocês devem saber, já existe o verbo googlezar, que é pôr um nome no Google para ver a ficha da pessoa. O rapaz balançou a cabeça e disse que não era isso que ele estava falando. Guguzar vem de Gugu Liberato e significa falsear a realidade. E eu que pensava que estava em dia com as novidades...
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Sábado, Setembro 27, 2003
Só dá maluco
A fila era grande no banheiro do Palácio da Cidade, na festa de abertura do Festival do Rio. Mesmo o toalete masculino estava cheio. Uma mulher entrou no banheiro dos homens e, diante das reclamações, alegou que está acompanhando o marido e o irmão. Chegou a vez do homem que estava à minha frente. Enquanto se aliviava, ele puxou papo comigo e falou do telefonema que acabara de receber.
- Que mulher folgada. Me ligou no meio da festa para saber que horas vou buscá-la!
Me senti obrigado a não interromper o desabafo e perguntei:
- Que mulher?
- Eu trabalho na prefeitura de Búzios e...
E aí ele continuou a desabafar até a hora de sair do banheiro.
Chegou a minha vez. Após terminar os trabalhos, fechei a braguilha e ouvi o rapaz que estava aguardando sua vez me dizer:
- Vou fazer um making of sobre o comportamento dos outros no banheiro.
- Merecia mesmo um filme - comentei eu, impressionado com a quantidade de malucos que havia por ali.
- Você não está entendendo - disse ele. - Eu já estou fazendo.
Só aí olhei para baixo e vi que havia uma pequena câmera ligada. Ele havia filmado tudo o que tinha acontecido ali nos últimos tempos - inclusive aquilo que vocês estão imaginando.
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Terça-feira, Setembro 23, 2003
Ziraldo
Amanhã vai passar aqui no Globo o documentário "Ziraldo: profissão cartunista", de Marisa Furtado. Depois, haverá debate reunindo Ziraldo, a diretora, o cartunista Paulo Caruso, o jornalista Sérgio Cabral e a cineasta Daniela Thomas, filha do cartunista. Me chamam para ser o mediador. Convite irrecusável, como vai entender quem ler esse texto que saiu em 1999 no Jornal do Brasil.
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Beltrana
Das boas coisas da vida é crônica bem feita. Quando se é personagem de um texto carinhoso, então... Obrigado, Rosana.
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Segunda-feira, Setembro 22, 2003
O que o tempo não faz
Berlim sofre de ostalgie - neologismo criado pelos alemães a partir das palavras ost (leste) e nostalgie (nostalgia). Não fica tão bom, mas dá para traduzir como lestalgia - nostalgia do leste. A onda saudosista toma conta de muitos moradores da antiga Berlim Oriental, que se perguntam se a vida durante o regime socialista não era melhor do que agora. O maior exemplo é o filme "Good bye", Lenin!, que vai passar no Festival do Rio. Uma senhora de Berlim Oriental entra em coma ainda na época em que a cidade era dividida. Ela recupera a consciência depois da queda do muro, mas seu filho não tem coragem de contar que o regime socialista acabou. Ele então recria a vida como antes, para que ela não perceba a mudança. Usa latas de comida com símbolos comunistas, veste roupas antiquadas e tenta esconder o cartaz da Coca-Cola no prédio vizinho. A ostalgie está presente também nos objetos. Tornaram-se cults em Berlim símbolos como o carro Trabant e a figura do ampelmännchen, homenzinho verde desenhado nos sinais da antiga Alemanha Oriental para indicar que o pedestre podia atravessar. Tem docinho de ampelmännchen, chaveiro de ampelmännchen e até placa de hotel do tipo "do not disturbe" em formato de ampelmännchen.
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Separação
Já contei aqui que a caixa postal de meu chefe é um depósito de esquisitices. Ele volta e meia repassa para a gente algumas mensagens que recebe dos divulgadores. A mais recente delas: "CLEITON E CAMARGO SEPARADOS - Cleiton e Camargo acabaram de cumprir agenda de shows em cidades do estado de Tocantins e já seguem para o Pará, onde farão shows por várias cidades no próximo final de semana. Por morrer de medo de avião, Camargo resolveu fazer todo o percurso no ônibus da equipe. Mas, mesmo sendo muito solidário ao parceiro de dupla, Cleiton não embarcou nesta. A primeira voz da dupla seguirá para o Pará de avião. Desta vez, Cleiton e Camargo chegarão separados ao local do show." Palpitante, não?
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Lgaur crteo
Curiosidade que acaba de desembarcar na caixa postal: "De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Vdaerde!"
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Segunda-feira, Setembro 15, 2003
Y no lugar do Z
Já deu para perceber que o teclado alemao nao tem til, nem cedilha. Mas o que mais me irrita é que o y fica no lugar do z, e vice-versa. Cada vey que tento escrever "fayer" e "diyer" sai errado, como dá para reparar. A última vez que estive aqui faz quase 22 anos e achava que se falava inglês em tudo que é lugar. Nao é bem assim. Tentei chegar a um lugar chamado Gendarmenmarkt e fui parar em Hackeschermarkt, gracas ao meu sotaque impecável e à ajuda operosa de um funcionário do metrô. Ele me disse "in ihnen schlummertein noch heimliches behehren", ou algo parecido, e lá fui eu para o outro lado da cidade. Abri uma revista e descobri que meu signo, libra, é waage. O horóscopo dizia que hoje "irgendetwas stimmt da nicht. Akte ex ungelöst?". É uma língua curiosa. O sujeito pode estar dizendo "querida, eu te adoro" que parece que está dando uma bronca na mulher.
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Guindastes
Por onde quer que você olhe em Berlim tem um guindaste. Nao é como há dois anos, quando a cidade parecia um imenso canteiro de obras e, quando ventava, ficava difícil até caminhar, por causa da areia nos olhos. Mas os tapumes ainda fazem parte da paisagem berlinense, tanto quanto as salsichas e as bicicletas. Ao contrário de muitas cidades européias, quase tudo em Berlim é novo. A cidade foi destruída na Segunda Guerra Mundial e vem sendo reconstruída aos poucos. Você olha para a Igreja Nikolai, a mais antiga da cidade (1230), se impressiona com tanta história e aí descobre que ela foi bombardeada na guerra e refeita nos anos 80. Anima-se com a bela estátua em cima do Portao de Brandenburgo - a deusa da vitória sendo conduzida por quatro cavalos - e aí lê que só uma cabeca de cavalo sobreviveu ao bombardeio e o que está lá é uma cópia.
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Quinta-feira, Setembro 11, 2003
Berlim
Fui. Ou melhor, estou indo. De lá, mando notícias.
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Terça-feira, Setembro 09, 2003
Todo dia ele faz tudo sempre diferente
Pedem-me que fale do meu dia-a-dia como jornalista. Vamos lá. Hoje foi um dia comum - e não há nada de muito comum no dia-a-dia de um repórter. Dormi às 3h30, envolvido com a leitura do livro "Damas de copas", de Cecília Costa. Acordei com a cara inchada, tomei café às 8h30 e fui para o jornal, maldizendo o trânsito na Lagoa. Espantei o sono com uma mistura de Targifor, Defatig e Arcalion, cheguei e dei bom dia à redação vazia. Às pressas, escrevi uma reportagem sobre o romance de Cecília e, às 14h30, saí para dar aula na Estação das Letras. De lá, sempre esbaforido, segui para o Instituto Goethe, entrevistar o diretor. Às 19h, consegui almoçar. Voltei para o jornal, tomei o sétimo café do dia e estou de saída para o lançamento do livro "Da favela para o mundo", de José Júnior, do grupo AfroReggae. Quando voltar para casa, será hora de continuar a leitura dos contos do concurso do Prosa & Verso. As caixas se espalham pela sala, se esparramam pelo quarto de TV e se infiltram em meus sonhos. Não espalhem, mas até que é bem divertido.
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Quinta-feira, Setembro 04, 2003
11
Tentei marcar viagem para o dia 10 de setembro. Os vôos para Berlim estão lotados e terei que escolher outro dia. Demorou a cair a ficha: ninguém quer viajar no dia 11. Já prevejo que terei um vôo tranqüilo, com espaço para esticar as pernas e ir ao banheiro sem ter que cutucar o colega de poltrona.
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Terça-feira, Setembro 02, 2003
Joaquim
Ninguém me perguntou, mas vou contar assim mesmo. O curso de crônicas na Estação das Letras vai bem, obrigado. São 11 alunos - nada mal, levando-se em conta que as aulas vão das 15h às 17h. Logo de cara, um deles quis saber: "Professor, o procrastinador pode ser um escritor?". Procrastinador? Quem me salvou foi Paulo Mendes Campos. Há tempos, tinha lido sua crônica "Brasileiro, homem do amanhã", onde ele diz que as duas colunas da brasilidade são a capacidade de dar um jeito e a a capacidade de adiar, ou seja, de procrastinar. Nunca mais esqueci da palavra. "Para o brasileiro, os atos fundamentais da existência são: nascimento, reprodução, procrastinação e morte (esta última, se possível, também adiada)", escreveu o cronista. E, assim, pude responder com toda segurança: "Sim", e explicar porque o procrastinador pode ser um escritor. É uma turma interessada e atenta. Hoje levei a tiracolo o Joaquim Ferreira dos Santos, para dar uma palestra. Joaquim fez todas as gracinhas possíveis: leu crônicas, contou casos, falou com graça do penoso ofício de passar a vida colando palavrinhas uma atrás da outra. Duro agora é voltar a dar aula depois do show de Joaquim.
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Segunda-feira, Setembro 01, 2003
Lucro de 70 reais
Um amigo me conta o sufoco que passou domingo retrasado, nas quadras do Aterro do Flamengo. Vamos chamá-lo de Carlos. Ele chegou ao parque e acomodou-se no banco, aguardando para jogar a partida seguinte. Outros dois garotos se sentaram, também à espera do fim do jogo. Era quase noite quando viu o amigo Osvaldo levar um empurrão de um adversário. Incidente típico de uma pelada, não tivesse Osvaldo decidido chamar a polícia. Escoltado por dois PMs, apontou o jogador com quem discutira e disse:
- É tudo um bando de maconheiro.
Carlos viu os guardas se aproximarem de onde estava sentado e pedirem que os três se levantassem. Revistaram debaixo do banco e nada encontraram. Um dos policiais foi até a patrulhinha e voltou com uma lanterna. Na nova revista, disseram ter encontrado maconha. De nada adiantou os três dizerem que tinham acabado de chegar. Foram postos na viatura e levados para um lugar mais distante. Um dos policiais começou a negociação:
- É 80 por cabeça.
Os três, que não se conheciam, levaram um susto e disseram que não tinham o dinheiro. O PM foi baixando o preço: 70. 60. 50.
- Menos que 40 não pode ser.
Nessa hora, um dos garotos, amedrontado, precipitou-se e tirou da carteira tudo que tinha: R$ 35. Carlos fuzilou-o com o olhar, recriminando o rapaz por ter inflacionado a propina. Mais um pouco e teriam conseguido baixar o valor para R$ 10. A contragosto, Carlos tirou os R$ 30 que tinha no bolso e entregou ao guarda. O terceiro rapaz estava limpo.
- Então vai ficar sem isso aqui - disse o policial, arrancando o colar que ele usava.
Mais do que a perda, doeu no menino a ironia do guarda:
- Além de vagabundo o colar está remendado.
Depois de liberado, Carlos foi tirar satisfação com Osvaldo.
- Você está maluco? Como é que chama todo mundo de maconheiro?
O amigo não sabia onde enfiar a cara:
- Fiquei nervoso e acabei falando bobagem.
- Por sua causa, tive que dar dinheiro para a polícia - reclamou Carlos.
- Deixa que eu pago - disse Osvaldo.
Numa tentativa de remediar o estrago, ele completou:
- Quanto eles te tomaram?
- Cem paus.
No fim das contas, pensou Carlos, até que o dia não foi tão ruim assim.
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