Quarta-feira, Outubro 22, 2003
Até breve
Daqui a pouco tenho que ir para o aeroporto. Em breve, prometo notícias fresquinhas de Praga.
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Maria Rita Lee
Seu Walter, o portuga que é dono do boteco Cayman, no Flamengo, viu Maria Rita cantando na TV. Quem sabe intrigado de ver a filha de Elis Regina aparecer em tudo que é canto, talvez porque ouviu falar que a mãe da moça era famosa, decidiu perguntar:
- Ô raios, essa m'nina é filha de quem mesmo?
Ninguém se mexeu. Até que, do fundo do bar, um bebum levantou o braço e disse:
- Eu sei. Ela é filha da... filha da...
E quem disse que a memória do bêbado funcionava? Até que acabou o suspense e ele respondeu, satisfeito:
- Filha da Rita Lee!
Não teve um que discordasse.
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Segunda-feira, Outubro 20, 2003
Erro que se mantém
Vários cartazes espalhados pelo banheiro do Aterro do Flamengo fazem uma sugestão aos freqüentadores: "Por favor colaborem com a caixinha do zelador para que ele possa mader o banheiro limpo." Uma reivindicação justa, o homem fica dia e noite ajeitando a área para conforto do público e não custa nada um agrado para que ele continue a manter tudo limpo. Mas algum funcionário do parque, zeloso com o português, achou que não ficava bem permitir semelhante erro de ortografia e emendou, com uma caneta, todos os avisos do sanitário. Agora, pode-se ler: "Por favor colaborem com a caixinha do zelador para que ele possa mantem o banheiro limpo."
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Sábado, Outubro 18, 2003
Rescaldo da mostra
O filme mais impactante do Festival do Rio, pelo menos para mim, foi "S21 - A máquina da morte do Khmer Vermelho". Ele mostra os horrores do regime de Pol Pot, que exterminou um milhão de pessoas no Camboja. Mas faz isso dando voz aos torturadores. Cheguei atrasado à sessão na Casa de Rui Barbosa. O cinema fica longe da entrada da casa e tive que acelerar o passo. Um funcionário me parou e, com voz esperançosa, perguntou:
- Você é o homem da legenda?
Disse que não, que era apenas um jornalista que tinha ido cobrir a sessão, e apertei o passo. Outro funcionário me deteve e, com voz mais aflita ainda, perguntou:
- Você é o homem da legenda?
Sem entender nada, disse novamente que não, para decepção do sujeito. Quando entrei na sala, vi que o filme ainda não tinha começado. Um amigo, presente à sessão, me esclareceu o atraso. O documentário tinha se iniciado e, enquanto na tela se viam as imagens do Camboja destruído pela guerra, aparecia na legenda eletrônica: "Quando eu tinha 14 anos, descobri que gostava de meninas." Simplesmente tinham mandado para o cinema a legenda de um filme da mostra gay, "Não se preocupe, é só uma fase"! Por isso, a ansiedade de todos atrás do homem da legenda. Ele acabou chegando logo depois e a sessão começou 40 minutos atrasada. Para piorar as coisas, o público via o filme e não enxergava a cabeça dos entrevistados. Teve gente que achou que era estilo do diretor. No fim, o administrador da sala confessou que não avisaram a ele que o filme tinha sido feito para TV e que era preciso uma lente especial. Coisas de uma mostra de cinema.
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Quarta-feira, Outubro 15, 2003
Sganzerla
Estava inseguro com a reportagem que saiu hoje no Segundo Caderno com Rogério Sganzerla. O diretor de "O bandido da luz vermelha" luta contra um tumor no cérebro e tem recebido homenagens por toda parte - logo ele, um cineasta marginal, que sempre enfrentou todo tipo de resistência. Há alguns dias, estive em sua casa para entrevistá-lo. Sua voz saiu baixa e vacilante, a memória falhou e ele embaralhou-se algumas vezes. Também não foi fácil encontrar o tom na hora de escrever a matéria - para não ficar piegas, não magoar a família e não o tratar como santo. Sganzerla sempre teve um temperamento irascível e arrumou vários desafetos ao longo da vida. A doença não poderia servir de desculpa para que eu omitisse seu gênio difícil. Para completar, na hora de fechar a matéria, ontem à tarde, descobri que ele foi internado de emergência e está no Hospital do Câncer, em São Paulo. Felizmente, a filha Sinai me liga agora para dizer que ele está lúcido e chorou quando leu a referência ao beija-flor Teca na reportagem.
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Cara de pau
A moça foi jantar no restaurante japonês em São Paulo. Lá pelas tantas, passou um rato, em meio aos clientes. Assustada, ela chamou o maître - um japonezinho todo formal - e cobrou providências. Ele não se abalou:
- Pode ficar tranqüila que ele não é nosso, não. É do vizinho. Só vem aqui passear - disse o homem.
Então tá.
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Mièle
No meio de uma reunião, alguém me apresenta a Mièle.
- Esse é o filho do Zuenir.
No que ele responde de bate-pronto:
- Um tá bom de pai, outro tá bom de filho.
Não sei porque, mas simpatizei de cara com o sujeito.
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Não gostou
Das boas coisas do Festival do Rio, uma é entrar ao acaso numa sessão, sem saber ao certo que filme está passando. Mas convém dar pelo menos uma olhadinha na sinopse, como não fez o senhor que se sentou ao meu lado no bar do Estação Botafogo. Ele tinha entrado para ver "Yossi e Jagger", a história de amor entre dois soldados do Exército de Israel.
- Saí no meio. Onde já se viu pagar para ver homem agarrando homem? Eu é que devia receber. Se quiser fazer escondido, faz, mas não precisa mostrar no cinema. Pensei que era filme de romance.
- Mas é - eu disse, contendo a irritação. - Não é porque se tratam de dois homens que não é um romance.
- Só se for de cabeça para baixo - ele reclamou.
Ainda tentei argumentar, mas o homem estava fulo da vida. Perdeu um dos melhores filmes do festival.
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Segunda-feira, Outubro 13, 2003
Reportagem
Quem quiser ler a reportagem que saiu no Segundo Caderno pode clicar no dizventura2.
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Sábado, Outubro 11, 2003
Feliz da vida
Amanhã Fernando Sabino faz 80 anos. Hoje saiu uma reportagem com o autor de "Encontro marcado" na capa do Segundo Caderno. Confesso que estava inseguro com a matéria. Como o escritor tem horror a entrevistas, fiz o texto com base em conversas que temos tido nos últimos tempos. Imaginei que ele poderia se sentir traído. Um amigo em comum disse que como a intenção era boa - homenageá-lo em seu aniversário - talvez ele não se importasse com a transcrição pública dos nossos papos. Apesar disso, estava preocupado. Às 9h da manhã, tocou o telefone. Era ele. Já falei aqui que, em quase 20 anos de jornalismo, raríssimas vezes algum entrevistado ligou para comentar a matéria. Peço licença, então, para narrar o que ouvi de meu cronista favorito, mesmo correndo o risco de ser cabotino:
- Estou de joelhos, esmagado. Você é um esteta. Sofre da proporção do equilíbrio, do bom senso e da harmonia. É a consagração. O texto tem uma delicadeza não açucarada. Fiz uma primeira leitura, com os olhos molhados. Fiz uma segunda leitura, com os olhos enxutos de profissional, e posso dizer: é a coisa mais bonita que já saiu sobre mim.
Mesmo descontado o exagero, nem precisava dizer que passei o resto do dia em estado de glória.
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Quinta-feira, Outubro 09, 2003
Enfim, o encontro com Renato
Há algumas semanas, contei do telefonema que recebi de Fernando Sabino. Ele tinha ficado impressionado com um rapaz de 27 anos que viu na rua e me ligou:
- Você é o único que está na ativa que tem condições criativas e sensibilidade jornalística e literária para entender.
Fiquei todo envaidecido, é claro, e ouvi o relato de Fernando sobre Renato, que nasceu sem os braços e pede esmola nas ruas de Copacabana. Fernando perguntou se eu poderia ir lá conversar com ele e ver uma forma de ajudar.
- Não estou pensando em salvar a Humanidade, e sim em atender ao apelo do meu coração. A história de Renato me tocou muito. A naturalidade dele impressionou-me estupidamente. Fiquei comovido de chorar - contou-me Fernando.
Ontem fui conhecer Renato. Sua história impressiona. Chama-se Renato da Costa Bonfim, mas ganhou nas ruas o apelido de Bracinho - tem apenas um pedaço do braço esquerdo. Sobrevive da caridade alheia. Com medo de ser maltratado, paga R$ 12 e dorme num hotel no Centro. Diz que sua mãe tomou um remédio que continha talidomida para evitar que ele nascesse. O resultado foi o defeito físico. Rejeitado por ela, pulou de casa em casa até parar nas ruas. Luta na Justiça para ganhar uma aposentadoria por invalidez, mas explica que o processo está arquivado há oito anos no INSS. Os burocratas do governo dizem que ele não merece ajuda do Estado. Vive fugindo dos funcionários do governo estadual:
- A carrocinha cata-mendigo já me levou quatro vezes.
Aqui e ali, Renato recolhe ajuda dos passantes. Há um coronel que todo mês dá R$ 50 a ele. O segurança da rua guarda seu dinheiro e afasta os pivetes. Ele consegue botar e tirar a camisa com o pé. Também escreve o nome com os dedos dos pés e, para provar, pede uma folha e assina na minha frente. Ficou impressionado com a atenção que recebeu de Fernando.
- Ele se apresentou e ficamos conversando mais de uma hora. Foi atencioso e mostrou uma preocupação sincera de me ajudar. Nunca imaginei que um cara famoso ia falar comigo. Essas pessoas conhecidas não gostam de conversar com a gente. Ele é muito simples.
Conversamos durante algum tempo e me despedi com a promessa de ver como está seu processo no INSS de São Gonçalo.
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Segunda-feira, Outubro 06, 2003
Na hora do aperto, vale tudo
Outro dia contei minhas aventuras no banheiro da festa de abertura do Festival do Rio. Um amigo diz que eu não vi nada. Ele esteve na festa de dois anos atrás, na Ilha Fiscal. A fila estava grande no toalete masculino quando, lá pelas tantas, uma mulher invadiu o recinto. Os homens tomaram um susto, olharam-se com espanto e um até tentou proteger sua intimidade das vistas da moça.
- Vocês vão me desculpar, mas tá até o talo - disse ela, deixando a fineza de lado e indicando que estava tão apertada que não dava mais para segurar.
Dito isso, subiu na pia, levantou a saia, arriou a calcinha e se aliviou ali mesmo, à frente de todos. Terminado o serviço, perguntou:
- Tem papel aí?
O homem que estava usando o único vaso levantou o braço e, solidário, passou para ela o rolo de papel higiênico. Quando desceu da pia foi aplaudidíssima. Teve gente até que berrou.
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Quarta-feira, Outubro 01, 2003
Vôo
Ontem a rotina foi sacudida por um vôo de hidroavião, que resultou na reportagem que saiu hoje no Globo. As fotos (obrigado, Marizilda Cruppe) e a matéria estão no dizventura2.
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