DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Sexta-feira, Novembro 28, 2003
 
Ao vivo
Ontem, tomei café o dia inteiro para rebater o nervosismo e ir ao Sem Censura. O programa é ao vivo e não dá para editar se falar bobagem. Teve uma hora em que expliquei que o Globo evitava a glamourização da violência. Não dizia o apelido dos bandidos (a não ser os que já são conhecidos assim) e não noticiava a que facção o criminoso pertence, porque percebeu que tinha virado uma guerra de marketing isso de Comando Vermelho, Terceiro Comando, Terceiro Comando Jovem etc. No mesmo instante, bateu a dúvida: "Eu falei O Globo ou falei JB? Não é possível que eu tenha falado JB! É melhor nem voltar para a redação." Felizmente percebi que tinha sido paranóia, motivada pelos 14 anos de JB. Um dos convidados era o pai da menina assassinada há pouco em São Paulo. Outro era a novelista Glória Perez, que teve a filha assassinada. Tinha também o advogado de duas meninas assassinadas em Pernambuco. Ou seja, só gente radicalmente a favor de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Eu confesso que ainda não estou convencido de que é a saída. Mas não estava nem um pouco a fim de entrar na discussão. Por isso, fiquei feliz quando avisaram que um juiz de menores ia participar do debate. Pensei: "É bom porque eles vão ficar discutindo o assunto e eu aproveito para falar sobre o papel da imprensa." Só que o programa estava para começar e nada do juiz. Até que começou o Sem Censura. E a cadeira ali, vazia. Até que finalmente, ufa, o homem apareceu. E não deu outra: de um lado do ringue, caros telespectadores, o juiz. Do outro, o pai da menina, o advogado e Glória Perez. Enquanto ouvia o bate-boca, concordava em muitos pontos com o juiz. Mas não tive chance de entrar na discussão. Hoje de manhã, me ligou uma amiga, pessoa equilibrada, incapaz de levantar a voz ou perder o tom.
- Vi você ontem no Sem Censura. Estava ótimo. Agora, você viu aquele juiz, que imbecil! É um idiota, só falou bobagem! - esbravejou ela.
Ainda bem que não abri a boca.
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Quarta-feira, Novembro 26, 2003
 
Arrependimento
Sou de uma timidez atroz. Duas pessoas para mim é multidão. No entanto, insisto em aceitar convites para falar em público. Em geral, sobre o que não entendo - ou seja, tudo. Depois que aceito - não sei dizer não - arrependo-me tremendamente. Amanhã, não será diferente. O assunto é violência. Tirando eu, a mesa do Sem Censura só vai ter fera: a novelista Glória Perez, o deputado federal Antonio Carlos Biscaia, o pai daquela menina que foi assassinada em São Paulo, o perito Talvane de Moraes e o advogado que defende as famílias daquelas duas moças assassinadas no Nordeste. Entre os temas, redução da maioridade penal, soluções para diminuir a criminalidade e a relação entre imprensa e violência. Já vi que vai ser mais uma noite em claro.
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Fora do ar
Juro que tenho tentado postar alguma coisa. Mas os servidores vivem sobrecarregados...
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Terça-feira, Novembro 25, 2003
 
Controle de natalidade urgente
A reportagem do JB sobre o incêndio da Ceasa mostra a população saqueando restos de comida em meio aos escombros. Eles não se importam com o fogo, com o risco de desabamento, com as doenças e com os vidros quebrados. Só querem comer. Entre os famintos estava Fabíola Machado Soares. Aos 21 anos, ela está desempregada e não tem marido. No entanto, está grávida de sete meses e é mãe de três meninas: de um, de três e de sete anos. Assim fica difícil.
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Sexta-feira, Novembro 21, 2003
 
A volta
Passei o dia de ontem pensando em pauta e limpando o correio eletrônico. É que voltei de férias em pleno feriado. O e-mail ofereceu a cota habitual de bizarrices: como aumentar seu pênis, viagra online, "temos o prazer de informar que você ganhou o grande prêmio da loteria internacional", diploma universitário pela internet, propostas de transferência de uma grande soma por parte de empresários africanos, releases de todos os tipos e ofertas de divulgar o meu blog nos mais variados endereços. Das centenas de mensagens, deu para aproveitar cinco ou seis. O dia só não foi perdido por conta de um fax que chegou à redação do jornal. Fico em dúvida de reproduzi-lo. Meu melhor amigo me deu um puxão de orelhas. Disse que o blog está muito auto-referente e que preciso parar de jogar confete em mim mesmo. Pega mal, alerta ele. Tem toda razão. Mas não resisto a abrir uma exceção e mostrar o texto: "Caro amigo Mauro, como você fez referência (na sua magnífica matéria, a propósito dos 80 anos que cometi a imprudência de completar) à minha ´autobiografia não autorizada´ ocorreu-me que maior recompensa eu não poderia merecer: a apresentação, na abertura do livro, de trechos do artigo de sua autoria, que tanto me comoveu. Espero contar com a sua aprovação desde já (se na época da publicação a Editora também aprovar, como acredito). Fico aguardando em resposta um palavra sua. E que possamos fazer disso um pretexto para nos vermos e trocarmos idéias (na certeza de que você sairá perdendo). Com um abraço fraterno do seu amigo, Fernando Sabino." Liguei correndo para ver se não era trote. Não era. Fernando contou que está escrevendo sua "autobiografia não autorizada por mim mesmo" utilizando como personagem Eduardo Marciano, o mesmo do best seller "Encontro marcado". Disse que gostaria de usar a reportagem que saiu no Globo como prefácio do livro e perguntou se eu autorizava. "Quanto você quer?", pensei em dizer. "Claro", foi o que respondi, antes de sair pulando.
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Domingo, Novembro 16, 2003
 
Funicular
Praga também tem sua Torre Eiffel. É cinco vezes menor que a francesa, mas foi construída dois anos antes. Para se chegar ao topo, é preciso subir 299 degraus, esforço compensado pela magnífica vista. A torre fica no alto do Parque Petrín. Quem quiser, pode subir o parque a pé, mas vale mais a pena pegar o funicular construído em 1891 e reconstruído em 1985. Durante a subida, um susto: o bonde deu uma freada brusca e parou. "Problemas técnicos", devem ter pensado todos. Até que os passageiros viram um pequeno esquilo cruzando o trilho. Ele saracoteou na pista, desapareceu, voltou, balançou a cauda e só quando ia ao longe é que o condutor acionou novamente o funicular.
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A virgem de Nuremberg
Visitamos diversas exposições em Praga, mas haja estômago para ver o Museu da Tortura, retratando o período da Inquisição. Torturava-se na Europa por qualquer motivo: por usar linguagem obscena, porque se causou algum escândalo em público, por fofocar, por perturbar a paz, por "transar com o Diabo", por ser mãe solteira, por fazer aborto, por bruxaria, por provocar tempestade. Um aparelho de tortura prendia a cabeça e os dedos das vítimas e era usado para punir "músicos cuja baixa qualidade musical ofendeu os ouvidos dos nobres". Outro é bem conhecido: A virgem de Nuremberg, também conhecido como Dama de Ferro, inventado na Alemanha. A vítima era posta de pé dentro de um sarcófago cheio de pregos. A razão do nome é que, por fora, ele se assemelha a uma mulher da Bavária. Mas, por dentro, é recheado de estacas de ferro cuidadosamente posicionadas para não atingir nenhum órgão vital e prolongar a agonia. Um falsário resistiu três dias antes de morrer. A mais dolorosa tortura consistia em pendurar a vítima de cabeça para baixo e serrá-la ao meio, por entre as pernas. Segundo a legenda que acompanha o aparelho, "a posição favorecia o fluxo de sangue para o cérebro, mantendo a pessoa consciente por muito tempo", enquanto dois homens executavam o serviço, um de cada lado. Era especialmente usado contra bruxas e homossexuais. Diante de tanta barbárie, não admira que surgissem confissões como de uma mulher de 21 anos, de família respeitável, mas que foi acusada de bruxaria. Depois de inúmeras torturas, ela confessou intercurso com o diabo com idade de oito anos, ter comido o coração de 30 crianças, ter causado tempestades, matado varias pessoas e negado a Deus. A pena: a morte. Algumas torturas eram tidas como leves e a confissão era considerada pela corte como espontânea. As injustiças eram comuns: Jean de la Vitte foi processado em 1459, mas provou-se logo que era inocente de qualquer acusação. Só que resolveram cortar sua língua e suas mãos para que ele não pudesse falar ou escrever sobre o engano. Não contente, a corte condenou-o à morte, para sufocar qualquer possível escândalo. Um dos aparelhos mostrados no museu servia para esmagar o crânio. A legenda diz: "Em certos países da América Latina um instrumento muito similar ainda é usado hoje em dia, mas seu apoio anterior e posterior são acolchoados com material macio para não deixar sinais visíveis nas vítimas." Faltou dizer que calúnia, injúria e difamação também eram punidos com tortura naquela época...
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Identidade
O bairro judeu de Praga conserva umas poucas sinagogas, que não foram destruídas pelos nazistas porque serviram, durante a Segunda Guerra Mundial, de depósito de objetos confiscados - Hitler queria fazer mais tarde um museu da "raça extinta". A sinagoga mais bonita, em estilo mourisco, é a Espanhola. A mais emocionante, com 80 mil nomes de judeus mortos escritos nas suas paredes, é a Pinkas. E a mais antiga, do século 13, é a Staranová. Para visitá-las, paga-se em torno de 30 reais. Mas é possível ir durante uma cerimônia. Na porta da Staranová, duas belas mocinhas batiam papo. Não se engane: eram seguranças. Para entrar na cerimônia, explicaram, é preciso provar que se é judeu. "Ficar nu, não!", pensei. Mas elas pediram apenas a carteira de identidade. Depois da confirmação, foi a vez de passar pelos detectores de metais. Não sei até agora se as perguntas - "De onde você é? No seu país tem comunidade judaica?"- eram simples curiosidade, uma forma de saber se não era mais um casal de turistas querendo entrar na sinagoga de graça ou parte do rigoroso esquema de segurança.
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Jaqueta
O tcheco é uma língua impenetrável. Decorei uma ou outra coisa: pivo (cerveja), ne (não) e klobásy (salsicha). Aqui e ali, dá para reconhecer algumas palavras. Numa loja, havia uma liquidação de bunda. De todos os tipos e tamanhos. Nada a ver com promoção de clínica de estética. Bunda em tcheco quer dizer jaqueta.
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Sábado, Novembro 08, 2003
 
Truques
Uma coisa é inevitavel em qualquer viagem: você vai ser enganado. Em geral, é no táxi. Em Praga, o lugar mais comum para ser tapeado é nas casas de câmbio. Elas anunciam em letras garrafais que um euro vale 32,47 coroas, a moeda local. Quando você entra, descobre que este é o valor de venda do euro. Na hora de comprar, eles só pagam 29,77 coroas pelo seu euro. Terminou? Não, porque esse valor só vale se você comprar mais de 15 mil coroas. Caso contrário, o euro sai por apenas 26,19 coroas. Claro que tudo isso está dito em letras minúsculas, escritas em tcheco. Cada casa tem seu preço, então é bom pesquisar. Outro artifício comum é não anunciar que há uma comissão. Você entra crente que vai receber 31 coroas pelo euro até descobrir que tem que pagar 3% de comissão. Os restaurantes tambem são mestres em truques baratos - ou caros. A cervejaria U Flekú é a mais conhecida de Praga - em 1459 já era produzida cerveja na casa. Uma cerveja escura e deliciosa. Mal o cliente entra e já ganha um licorzinho típico da Republica Tcheca. Parece cortesia da casa, como um brinde de boas-vindas, mas custa os olhos da cara. Há um garçom que fica rodando o ambiente com uma bandeja cheia de copos, atrás dos alvos recém-chegados, que ficam agradecidos com o mimo da cervejaria - até a hora em que chega a conta.
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Passando a mão
O que seria de uma cidade sem suas lendas? Se para voltar a Roma o turista joga uma moeda na Fontana di Trevi, em Praga ele tem que passar a mão nos relevos que ornamentam a estátua de São João Nepomuceno, na Ponte de São Carlos. A maior prova da avalanche de turistas que tem invadido Praga é a foto da estátua que está no nosso guia, publicado em 2002. No guia, a única parte dourada - de tanto passarem a mão - é a imagem de São João sendo jogado da ponte. Hoje, um ano depois, boa parte do relevo está brilhando - inclusive a imagem de um cachorro. Outra lenda bem conhecida diz respeito ao relógio da torre, na Cidade Velha, feito em 1490. Contam que cegaram o autor com uma espada incandescente para que ele não pudesse recriar sua obra-prima em outro lugar. Se não me engano foi Tom Jobim quem disse que Nova York era uma cidade para se ver de maca, referindo-se aos arranha-céus. Praga tambem é assim, mas não por causa da altura de seus edifícios. Cada prédio tem uma estátua, um relevo, um brasão, uma pintura ou um enfeite qualquer. E cada teto tem um afresco, provocando um inevitável torcicolo no viajante.
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Bolso vazio
Aqui em Praga, como no Rio, as mãos se enchem de folhetos. Mas eles não prometem trazer a pessoa amada em três dias ou oferecem dinheiro fácil e sim anunciam as várias opções de concertos diários nas igrejas e salas da cidade. À medida que a mão vai se enchendo o bolso vai se esvaziando. A sorte é que Praga é uma cidade barata. Pelo equivalente a 30 reais, faz-se uma boa refeição na cidade. A dieta básica tem sido: baldes de cerveja + salsicha de entrada + carne de porco com batatas + torta de maça com sorvete + café. Num restaurante em que fomos, não havia mesas disponiveis. A atendente pediu que sentássemos junto a duas jovens. Elas nos receberam bem. Disseram que é comum dividir espaço com estranhos. Só havia uma funcionária em todo o restaurante. Ela nos atendia, corria para o bar, servia os clientes, lavava os copos, trazia as comidas, fechava as contas, recebia o dinheiro, dava os trocos. Tudo num inacreditável bom humor.
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Sábado, Novembro 01, 2003
 
Praga
"Praga não deixa a gente ir embora. Esta velha tem garras." O homem que disse isso está enterrado à nossa frente, em Olsany, um cemitério judaico intensamente arborizado, ainda ativo. Ali também estão seu pai e sua mãe - as irmãs morreram num campo de concentração. A lápide é simples - mais simples que as demais - e há umas poucas flores, deixadas pelos fãs. Uma inscrição diz: "1883-1924. Dr Franz Kafka." Durante sua curta vida, Kafka não teve reconhecimento, mas hoje é o nome mais culturado por aqui. Nesses dias de Praga, só ouvimos referência a quatro brasileiros. Paulo Coelho está em tudo que é canto, por causa dos cartazes de lançamento de versão tcheca de "Onze minutos" - outro dia, no metrô, um homem lia o livro com interesse. Na TV, um anúncio da Pepsi mostra o jogador Roberto Carlos. Outro Roberto Carlos surgiu quando o vendedor de tíquetes para teatro de marionetes num quiosque descobriu que éramos brasileiros. O homem disse que ele e Caetano eram seus cantores preferidos e quis saber se era verdade a notícia de que Roberto Carlos tinha parado de cantar após a morte da mulher. Ficou feliz ao saber que não. O frio nesta época do ano já é abaixo de zero de madrugada. É tanta roupa para vestir que eu já estava na porta do quarto, pronto para sair, quando minha mulher me disse:
- Você vai assim?
Eu estava só de ceroulas.
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