DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Segunda-feira, Janeiro 26, 2004
 
Sumiram com a Ludmila e com o Marcos
A Casa de Cultura Laura Alvim pregou em seu mural a crítica que Barbara Heliodora fez da peça "Avalanche", em cartaz no teatro de lá. A crítica é altamente positiva, como já diz o título: "Um bem-vindo teatro que cumpre missão de entreter e fazer pensar." Quem lê o texto fica animado com as observações de Barbara sobre o espetáculo. Só tem um detalhe: a Casa editou a matéria para esconder certas passagens. Em outras palavras, censurou a crítica. No original, está escrito: "Os papéis femininos são menores, quase córicos, com Ludmila Rosa (Darlene), a que menos atinge seu personagem, Darlene; Julia Carrera está adequada como Bonnie, e Bianca Comparato é a que atinge melhor rendimento, como Donna." No mural, Ludmila desaparece. Também está no texto publicado no jornal: "O naipe masculino tem mais responsabilidade na trama, sendo Marcos Azevedo, no cínico Mickey, o mais modesto de rendimento, Fernando Cylão muito beneficiado pelo físico para o mais tranqüilo, Artie, Sebastian DeVicente devidamente violento e imprevisível como Phil, e Bruce Gomlevsky o mais variado na interpretação." Na Casa Laura Alvim, sumiram com o Marcos.
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Sexta-feira, Janeiro 23, 2004
 
Orador em baixa
Ontem teve pré-estréia aqui no Globo do filme "Narradores de Javé", seguida de debate. Me pediram para ser o mediador. Diante do público formado por leitores do jornal, caprichei na abertura do evento: "Boa noite a todos, estamos reunidos aqui hoje para o primeiro evento de 2004 da série Encontros no Globo. E não podíamos ter começado melhor. Depois de ver esse belíssimo filme, vamos conversar com a diretora do filme, Eliane Caffé, do ator José Dumont e da contadora de histórias Benita Prieto. Meu nome é Mauro Ventura e vou ser o..." Nessa hora, ouviu-se um grito vindo da segunda fila da platéia:
- Mas que saco isso!!
Um silêncio tumular tomou conta do auditório. Todo mundo ficou constrangido com aquela intervenção inesperada. Era um menino de seus 10 anos que, com a franqueza e falta de paciência habituais da idade, deu seu parecer sobre a oratória de quem estava discursando no palco - no caso, eu. Mas que deu vontade de matar, deu.
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Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
 
Baú
O cineasta Rogério Sganzerla deixou muita coisa inédita. O material rendeu uma capa para o Segundo Caderno, que saiu ontem. Quem quiser pode ler aqui.
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Telas de Jano
Já está no ar o site do filme "Rio de Jano", de Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima (o popular Zéjosé) e Renata Baldi. O filme, que estréia dia 30, capta bem o olhar amoroso e sem disfarces com que o ilustrador francês Jano retrata o Rio de Janeiro. O olhar estrangeiro costuma fixar a atenção nos cartões-postais, mas Jano - e o filme - prefere se ocupar do lado mais trivial - e rico - da vida. O filme circula por cenários tão distintos quanto o Maracanã e Madureira, Paquetá e Vila Mimosa. Mesmo quando visita lugares como a Praia de Ipanema, Jano foge ao óbvio. Em vez de mostrar a beleza do cenário, retrata personagens como a menina que vende biquínis, o rato de praia e a turma enfumaçada do Posto 9. Programa obrigatório, para cariocas ou não.
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Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
 
Mancada
Quatro pessoas me disseram que a ´Cult´, ótima revista de literatura que existe há oito anos, tinha acabado mês passado. Por isso, quando a apresentadora do programa Starte, da Globonews, me perguntou, durante uma entrevista, "de que revista você sente falta?", não tive dúvidas: "Da ´Cult´." Era uma forma de me solidarizar com a publicação. Me dei mal. Hoje recebi e-mail da diretora da ´Cult´, Daysi Bregantini: "Recebi alguns telefonemas de assinantes preocupados com o ´fim da revista Cult´; segundo eles, você teria dado uma entrevista na Globonews e dito que a revista não existia mais. Atendemos as ligações e esclarecemos o absurdo. Provavelmente, Mauro, você não disse isso, mesmo porque - apesar das enormes dificuldades - a revista circula todos os meses e tem uma tiragem auditada de 15 mil exemplares. A redação de ´Cult´ é constituída por profissionais competentes e bastante reconhecidos no mercado que dão um duro enorme e fazem, sim, a melhor revista de cultura com circulação nacional. Não é fácil. Temos poucos anúncios e pouco dinheiro. Mas encaramos esse trabalho com prazer, afinal, ganhar dinheiro não é o objetivo de quem edita uma revista como a ´Cult´. Também não buscamos reconhecimento. Apenas queremos fazer o nosso trabalho." Daysi tem toda razão. Meus informantes - quatro! - estavam furados. O jeito foi pedir desculpas e pensar numa forma de consertar o erro.
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Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
 
Scarlett
Difícil saber o que é melhor no filme "Encontros e desencontros", de Sofia Coppola, que passou no último Festival do Rio. Se é Bill Murray, talvez em seu melhor papel, se é a delicadeza com que a diretora conduz a trama, se é a história que junta de forma habilidosa dois personagens solitários e vulneráveis ou se é a atriz Scarlett Johansson. Como não dá para falar de tudo, escrevi sobre Scarlett no Segundo Caderno. Quem quise ler clique aqui. Homens e mulheres saem do cinema encantados por ela. Depois que "Encontros e desencontros" estrear me digam se eu estou enganado.
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Sexta-feira, Janeiro 09, 2004
 
Sganzerla
Meu único contato com Tom Jobim foi lá pelo fim dos anos 80:
- Boa noite, eu gostaria de falar com o Tom Jobim.
- Quem gostaria?
- Mauro Ventura, do Jornal do Brasil.
- Um momentinho.
- Alô?
- Tom?
- É.
- Tudo bem? Nós estamos fazendo uma matéria sobre pizza e eu gostaria de saber qual é a sua preferida.
- A de muzzarela da Pizzaria Guanabara.
- Muito obrigado. Tchau.
- Tchau.
E só. Nenhuma tirada espirituosa, nenhuma revelação picante, nenhuma informação relevante sobre o método de trabalho do genial compositor. Ao longo desses 18 anos de profissão, foram dezenas as entrevistas com gente que não está mais aqui. De Luis Carlos Prestes a Chacrinha. A maioria desses papos não rendeu muito coisa. Mas com Rogério Sganzerla foi bem diferente. Conversamos em outubro, na varanda de sua casa, na Urca. Foi sua última entrevista. Recém-operado de um tumor no cérebro, ele estava lúcido, mas por vezes embaralhava as idéias. Foi um papo difícil, mas enriquecedor. Logo após a reportagem, a filha Sinai disse que ele tinha ficado emocionado com a referência na matéria ao beija-flor que ele batizou de Teca e que fez seu ninho no pinheiro da varanda. Hoje de manhã Sganzerla morreu. Cedo demais, aos 57 anos. A doença modificou muito o temperamento difícil do diretor.
Sua enteada, Paloma Rocha, contou-me que foi uma morte oposta ao temperamento dele: serena, tranqüila, sem dor ou agonia. A informação traz alívio, mas não ameniza a saudade que ele deixa.
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Quinta-feira, Janeiro 08, 2004
 
Proibição
E não é que a prefeitura cancelou o Skol Hip Hop Manifesta? Os empresários estão reunidos tentando revertar a decisão - e tomara que tenham sucesso. A prefeitura alega que eles tinham avisado que o festival era para 20 mil pessoas, mas já tinham vendidos 40 mil ingressos. O curioso é que a decisão de proibir o evento partiu do secretário municipal de Turismo. Ele é ninguém menos que Rubem Medina, irmão de Roberto Medina, responsável pelos festivais Rock in Rio. Vai entender.
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Quarta-feira, Janeiro 07, 2004
 
Sangue
Hoje saiu uma reportagem sobre hip hop no Segundo Caderno mostrando a polêmica do festival Skol Hip Hop Manifesta. Um leitor não gostou muito do que escrevemos, a julgar pelo seguinte e-mail, assinado pelo DJ Saci, do grupo A Resistência: "Senhores jornalistas, será que vocês têm noção do tamanho da merda que vocês estão fazendo? Estão alimentando uma rivalidade que depois vai ser muito dificil desfazê-la. Pra quê? Polêmica vende né? Só que no rap nacional as pessoas vêm do sofrimento, da luta, do crime...!! Vocês podem se sentir culpados quando o sangue começar a derramar!! Porque pessoas marginalizadas, excluídas infelizmente costumam resolver as coisas de maneira diferente..." Sinistro.
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Terça-feira, Janeiro 06, 2004
 
Hélio
Quem quiser ler a reportagem sobre os 80 anos de Hélio Pellegrino basta acessar aqui.
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Saldo do furto
Finalmente descobri o que sobrou dentro do meu carro. Antes de ser furtado, havia documentos, chaves, duas bolas de basquete, quatro luvas de boxe, óculos escuros, livros com dedicatória, uma caixa com jornais antigos, uma bolsa novinha, fitas com entrevistas, papéis de trabalho, short, chinelo, camiseta, carnês atrasados do IPTU, agendas de telefone, senha do Smiles, cartão do Seguro Saúde, cartão da videolocadora, pedidos de exame médico, blocos de anotação, filme para ser revelado, contas já vencidas - eu falei que o carro era uma extensão da casa - fita de vídeo e até formulário para pagamento de bagagem extraviada da Iberia, entre muitas outras coisas que eu fiz questão de esquecer. Depois de achado, tinha, nas palavras do corretor, "uns pedacinhos de jornal".
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Sábado, Janeiro 03, 2004
 
Grande Hélio
Tenho a maior simpatia por Hélio Pellegrino. Aliás, tenho a maior simpatia por todos os quatro geniais mineiros - Hélio, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Fernando Sabino. Fiquei feliz quando meu chefe aceitou a sugestão de se fazer uma reportagem sobre os 80 anos que Hélio completaria na próxima segunda-feira. A pesquisa que tive que fazer sobre a vida e a obra do poeta e psicanalista só reforçou o meu apreço inicial. Hélio comprou todo tipo de briga - e estava sempre combatendo o bom combate. Mas supresa mesmo foi ler o livro "Hélio Pellegrino - A paixão indignada", de Paulo Roberto Pires. Lá pelas tantas, Paulo descreve o período em que Hélio foi preso pela ditadura militar. Entre seus companheiros de cela, estava meu pai. Quem conseguiu tirar o psicanalista da cadeia foi Nelson Rodrigues. Escreve Paulo: "Hélio Pellegrino poderia deixar a prisão tendo o dramaturgo, homem de confiança do exército, como fiador. Estava tudo certo. Mas aí foi a vez de Hélio dar para trás:
- Só saio se o Zuenir sair também."
E assim foi feito. Hélio só deixou a prisão depois que Nelson aceitou se responsabilizar também por meu pai. Não me lembrava do episódio. Mas o que era simpatia virou admiração.
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