Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004
Fernando Meirelles numa noite de insônia
O diretor de "Cidade de Deus", Fernando Meirelles, escreveu um longo desabafo sobre a situação da favela, que continua abandonada depois de todas as promessas feitas na época de lançamento do filme. Este é o texto, enviado para alguns amigos e jornalistas:
"Companheiros,
Tem um velho provérbio chinês, ou pseudo-chinês (talvez seja tirado destas revistinhas de auto-ajuda), que diz:
A Arte é um dedo apontado para a Lua.
Olha a Lua,
não o dedo.
'CDD' ('Cidade de Deus') é um filme que aponta para uma lua muito objetiva, mas parece que a atenção geral, por algum processo perverso em nossas cabeça, só consegue olhar para o dedo: o filme. E agora para a estatueta que ele possa vir a segurar. Enquanto isso, a lua está lá. Esquecida. Em janeiro do ano passado, achei que tivesse recebido o melhor prêmio que um filme pode receber. O governo federal, estadual e a prefeitura do Rio decidiram criar vários projetos sociais na Cidade de Deus para que, como um modelo, se espalhassem depois por outras comunidades. Na época, o então secretario Nacional da Segurança Pública, (Luiz) Eduardo Soares, disse: 'Queremos mobilizar governos, instituições e a sociedade para reverter a violência. O filme mostra o lado sombrio de CDD. Nós vamos mostrar o lado luminoso.' Comemorei eufórico. Eis alguns dos principais projetos que vieram com esta boa notícia:
- Ministério dos Esportes: construção de uma fábrica de material esportivo.
- Ministério da cultura: BAC - Base de Apoio à Cultura.
- Ministério das Cidades: processo de documentação e posse dos moradores.
- Unicef e Rede Globo: construção do espaço Criança-Esperança.
- Governo do estado: doação do espaço para a construção do Criança-Esperança e do BAC.
- Prefeitura: criou uma séria de projetos, incluindo uma ação forte da Secretaria de Habitação.
Houve uma grande mobilização dos moradores, muitas reuniões, viagens a Brasília, mas, aos poucos, cada órgão foi saindo de fininho. Um ano depois, nada aconteceu. Na época, anunciei com orgulho esta decisão do governo em todas as entrevistas para imprensa internacional que dei. E não foram poucas. 'El País', da Espanha, mandou um jornalista e deu uma página inteira sobre o assunto, com chamada na capa. Hoje, quando algum jornalista internacional se lembra disso e me pergunta como anda o projeto, sou eu quem sai de fininho. Digo que tudo está acontecendo a seu tempo. Mentira do bem, para não sujar a imagem do país. Quando não há perspectiva de futuro, o crime é de fato uma opção a se considerar. O que há conosco? É tão óbvio que o investimento social é a melhor forma de combater a violência e a única maneira de se construir um país. Se não for também a mais barata a longo prazo. Até a Secretaria de Segurança deveria investir em escolas ou cursos profissionalizantes e não apenas em armas e viaturas. É incluindo e não só reprimindo que se resolve o problema. Todo mundo sabe disso. Não vou mais chover no molhado.
Cada vez mais torço para que o Peter Jackson leve mesmo aquela estatueta. Acho que sentiria vergonha se eu ganhasse. Coloque-se no meu lugar e pense na população de CDD assistindo à transmissão. Você há de se sentir envergonhado comigo.
Fernando
De Londres, numa noite de insônia.
PS.: Costumo ser quase idiota de tão otimista, mas às vezes fica difícil. Vai ver que eu só estou é cansado. Mas mesmo assim a lua está cheia."
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Bolão do Oscar
Fernando Meirelles fez um bolão com seus colegas de "Cidade de Deus" que estão concorrendo ao Oscar. Ele, o montador Daniel Rezende, o fotógrafo César Charlone e o roteirista Bráulio Mantovani mandaram uma mensagem com seus prognósticos sobre quem vai vencer na noite de domingo. Aí vai o e-mail:
"Companheiros, está rolando um bolão. Coloquem aqui suas apostas. Tem que ser honesta e não bajulatória.
Direção: Peter Jackson, barbada.
Montagem: Vc Dani.
Fotografia: 'Moça com brinco de pérola'. Sorry.
Roteiro: Bráulio ou 'American splendor'.
abc, Fernando
Gente, não vi todos os filmes. Acho difícil apostar. Mas vou colocar meus palpites em relação ao 'CDD' ('Cidade de Deus').
Montagem: Dani leva.
Fotografia: não leva (vai ganhar algo mais clássico, sem a coragem e a inventividade da fotografia do César).
Roteiro: não leva (ganha 'Sobre meninos e lobos' ou 'American splendor').
Direção: Fernando leva. Não é bajulação. Quando eu estava vendo o filme na montagem eu disse para o Fernando: vc vai ganhar um Oscar com esse filme. Repito minha profecia.
abcs, Bráulio
Vai a minha:
Direção: Peter Jackson (pelo conjunto dos 3 acumulados).
Montagem: Dani com certeza.
Fotografia: Eduardo Serra ('Moça com brinco de pérola').
Roteiro: Bráulio disparado.
abs, César
Aí segue a minha lista de vencedores este ano:
Direção: Peter Jackson.
Montagem: 'Lord' (sorry!).
Fotografia: 'Moça com brinco de pérola'.
Roteiro: 'Sobre meninos e lobos' (ou 'American splendor', que seria mais justo).
abraços, Daniel
PS.: Mas continuo torcendo por todos nós.
Dani, você é a minha única certeza, não amarela,
abs, César
Pode crer, vai ser uma decepção se vc não levar! Vê se reza.
Fernando"
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Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004
Exudação
Tenho andado numa displicência só com o blog. Consumido com os afazeres do jornal, mal encontro ânimo para postar. Esses últimos dias foram gastos acompanhando a crise no Ministério da Cultura, depois que Gil exonerou um de seus melhores amigos, acusado de irregularidades. Em protesto, três colaboradores do ministro pediram o boné e divulgaram um duro manifesto. Ontem, em meio ao tiroteio, perguntei a ele:
- Gil, seus três assessores pediram demissão atirando no Ministério da Cultura. Eles falam em "deslealdade, mesquinharia na disputa pelo poder, ignorância, descaso, politicagem e intriga". O que você achou do manifesto?
O baiano não se abalou e, com o linguajar habitual, disse:
- Ventura, é apenas uma pletora de adjetivos negativos e uma exudação de mágoas e ressentimentos.
Tive que procurar um dicionário médico para saber que exudação é a "passagem de componentes do sangue para os tecidos ou espaços adjacentes" ou, no popular, "sangramento".
Também foi cansativo, mas bem mais agradável, fazer a reportagem sobre os 30 anos do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Lembro-me de ter assistido à peça "Trate-me leão" nos anos 70 e saído em estado de graça do Teatro Ipanema. Em vez
de militância política e de protestos ideológicos, víamos em cena o dia-a-dia da geração em torno dos 20 anos da classe média carioca. Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, Hamilton Vaz Pereira e companhia arejavam o palco carioca de forma irresistível. Tinha uma hora em que um casal conversava:
- Julinha: Garoto, pára de me agarrar! Qual é! Eu vou embora.
- Djamil: Não vai mesmo. A gente já não transou?
- Julinha: A gente transou. E aí? Sou sua mulher agora? Olha só, garoto, esse um metro e sessenta e quatro aqui é meu. Se eu quiser, eu solto a fera. Ando com ela pra lá. Trago ela de volta para cá. Eu quero exibir os meus troféus. Me sentir desfrutável. Eu quero que as pessoas entrem e saiam da minha vida como se eu fosse as Lojas Americanas!
Era genial. Quem quiser ler a reportagem, feita em parceria com a Roberta Oliveira, pode clicar aqui.
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Terça-feira, Fevereiro 10, 2004
Zé
Estive esses dias na casa de José Dumont. Levei um susto. O ator mais premiado do cinema brasileiro não mora numa casa no Jardim Botânico, numa cobertura na Barra ou num apartamento em Ipanema. Seu prédio, no Catete, é uma daquelas cabeças-de-porco com mais de 30 apartamentos por andar. Dumont vive num quarto-e-sala apertado, comprado com muito sacrifício. Achei estranho, já que ele participou de 35 filmes, o último deles "Narradores de Javé", onde está, como de hábito, magistral no papel do ex-carteiro Antônio Biá. Ele explicou que vida de ator é assim mesmo: se você não está direto na TV, passa aperto. É o caso de Dumont que, apesar de ser um dos maiores atores brasileiros, aparece pouco na televisão.
- É claro que se eu fosse um cara bonito estaria numa situação muito melhor - diz ele, antes de ressalvar: - Mas não sei se teria o valor que tenho.
O papo foi ótimo e rendeu uma reportagem para o Segundo Caderno. Ele é muito bem-humorado, mesmo quando fala dos problemas financeiros:
- Minha família era da classe miserável C. Eu sou pobre A.
Dumont nasceu num vilarejo da Paraíba. Aos 21 anos, decidiu vir para o Sul do país:
- Cheguei em casa um dia e estava tocando no rádio "Here cames the sun", dos Beatles. Nem sabia que diabo queria dizer aquilo, mas bateu lá dentro. É como se internamente a música me chamasse: "Opa, tá na hora de ir. O que que estou fazendo aqui?".
E, assim, lá foi ele para São Paulo e, mais tarde, para o Rio. Foi casado duas vezes, não tem filhos e o único bem que acumulou em quase 30 anos de carreira é o apartamentinho no Catete. Ano passado, quase morreu num assalto. A pedido de uma conhecida, tinha ajudado um rapaz que queria se firmar como ator. Um dia, o sujeito apareceu com um comparsa e, de arma na mão, limpou o pouco que Dumont tinha. O bandido queria matar o ator para não ser reconhecido, mas seu cúmplice o impediu. Quem quiser ler a reportagem basta clicar aqui.
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Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004
Oswaldos
Um amigo foi ao restaurante e pediu um file à Oswaldo Cruz. Na hora em que chegou o prato, levou um susto: em vez do tradicional alho, o bife estava coberto por um omelete.
- Você se enganou - explicou o rapaz. - Cadê o alho? E por que que este omelete?
O garçom explicou:
- O senhor pediu filé à Oswaldo Cruz. Só conheço filé à Oswaldo Aranha. Mas pensei: "Oswaldo Cruz derrotou a febre amarela. Então, deve ser um bife com alguma coisa amarela por cima." E pus o omelete.
O cliente não teve outra saída a não ser parabenizar a criatividade do homem e comer o prato - que, aliás, não estava nada mal.
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Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004
Ainda magoado
O filme "Cidade de Deus" levou quatro indicações para o Oscar, mas seu diretor, Fernando Meirelles, não engoliu até hoje as críticas negativas que o filme recebeu no Brasil. De Londres, onde está filmando "O jardineiro fiel", ele fez uma sugestão: que eu fizesse uma reportagem pegando um a um todos os críticos que falaram mal do filme e perguntasse: "E aí? Como é que você explica isso? Você não disse que o filme ia ser esquecido em três meses? Por que não foi?". Ele continua magoado com o tratamento que "Cidade de Deus" recebeu no Brasil, principalmente com as críticas que falavam em "cosmética da fome", "estetização da miséria", "espetacularização da violência" e "chacina fashion". Quem quiser ler a entrevista com Meirelles, que saiu ontem no Segundo Caderno, pode clicar aqui.
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Domingo, Fevereiro 01, 2004
De herói a vilão
O rapaz chegou à garagem pouco depois que o ladrão fez o serviço. Viu que seu CD-player tinha sido roubado e correu para chamar um PM. O policial, coisa rara, foi atencioso e solidário, e saiu atrás do bandido. Conseguiu prendê-lo e lá foram todos para a delegacia. A vítima parabenizou o PM por sua competência e pensou: "Nem tudo está perdido, ainda existem policiais eficientes e honestos." Enquanto esperavam o registro da ocorrência, tocou o celular do policial. Era sua mulher. O PM falou:
- Querida, não posso falar agora que estou na delegacia.
Ouviu em resposta:
- Deu merda, né? Eu sabia! Eu te falei que isso ia acontecer, eu disse que algum dia ia dar merda e você ia ser preso, mas você não me ouviu!
E desligou o telefone na cara do marido.
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