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Segunda-feira, Março 29, 2004
Vale do Paraíba
Deu no jornal "O Dia":
Na prova final do Colégio Objetivo, da Tijuca, um aluno respondeu o seguinte sobre a importância do Vale do Paraíba.
- É de suma importância, pois não podemos discriminar esses importantes cidadãos. Já que existem o vale-transporte e o vale-idoso, por que não existir também o Vale do Paraíba?
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Segunda-feira, Março 22, 2004
Desabafo
É longo, mas vale a pena perder alguns minutos para ler o desabafo de um amigo daquela moça que foi assassinada depois de um seqüestro-relâmpago. Infelizmente, ele desistiu do Rio e mudou-se para São Paulo. Pode-se questionar sua decisão, achar que ele está pintando um retrato exagerado, mas de qualquer forma o texto reflete bem a dor que é um pouco a de todos nós:
"Amigos
Estive fora do escritório ontem e quem assistiu ao Jornal Nacional talvez tenha desconfiado do porquê. Minha grande amiga Elisabete Gomes, contadora da Petrobrás, foi assassinada com dois tiros na nuca depois de um seqüestro-relâmpago, que começou na Tijuca e teve o trágico desfecho em São Gonçalo. A Beth estudou comigo na Uerj e, como eu, teve sua primeira experiência profissional na empresa de consultoria Deloitte. Foi na Deloitte que ela conheceu o marido, Renato, outro grande amigo, com quem teve um filho, o Rafael, da idade da minha filha Marina. Durante muitos anos, Beth, Renato e Rafael freqüentaram o sítio que herdei do meu pai na cidade de Mendes.
Foram muitos finais de semana felizes com nossos amigos, isso sem falar nas festinhas de aniversários, shows, jantares e tantas outras atividades conjuntas. Só perdemos um pouco do convívio quando estive morando na Argentina e agora, que estou vivendo em São Paulo. Mas, quando ia ao Rio, quase sempre nos encontrávamos. O último evento, tão agradável! Foi o nosso tradicional torneio de botão, disputado na semana do Natal. Rafael e Renato jogaram. A Beth foi junto, para torcer.
Agora ela não está mais entre nós, ao menos fisicamente... Passei o dia de ontem no Rio de Janeiro e, mais uma vez, refleti, desesperançado, sobre os destinos da cidade que um dia me fez tão feliz. Algumas constatações tristes: a Beth foi seqüestrada quando ia para a aula de inglês por três elementos armados, que a colocaram no porta-malas do carro. O carro tinha um sistema de rastreamento implantado no painel que não apenas informava sua exata posição como ainda transmitia, ao vivo, o som interior do veículo. Como ela estava falando com o marido pelo celular justamente quando foi atacada, ele percebeu o
que estava acontecendo e acionou imediatamente a empresa de rastreamento. Assim, toda a conversa dos bandidos foi acompanhada em detalhes pela empresa e pelo próprio marido.
Os bandidos chegaram a discutir se deviam ou não tirar a vida da moça, tudo acompanhado pelo meu pobre amigo Renato. O sujeito que defendia o extermínio era aparentemente o líder e isso custou a vida da Beth. A polícia foi imediatamente informada, mas demorou simplesmente duas horas para chegar ao local onde Beth foi assassinada. Os tiros foram ouvidos, em tempo real, pelo marido e pelos funcionários da empresa de rastreamento. Já a polícia, que poderia perfeitamente ter abordado o carro enquanto os seqüestradores cruzavam a Ponte Rio-Niterói, por exemplo, simplesmente levou duas malditas horas para aparecer! Além disso, o sistema de segurança do carro tinha um botão que permitiria a Beth abrir a mala, mesmo trancada por dentro.
Ela apertou o botão? Os sensores da empresa mostraram, dez vezes, mas a mala não se abriu.
Nas capelas do segundo andar do cemitério São João Batista, três corpos eram velados. O da minha amiga, com apenas 40 anos, e os de dois jovens. Todos mortos por projéteis de armas de fogo. Era como se no Rio de Janeiro, hoje em dia, só morresse gente de causas não naturais. Os meninos eram moradores de uma favela e foram chacinados ao lado de um terceiro amigo, durante uma ação da polícia do Garotinho.
Pelo que dizem, eram inocentes. Nos portões do cemitério, contei seis viaturas policiais: as mesmas que foram usadas na invasão ao morro que causou a morte dos jovens. As mesmas que deviam ter acudido a minha amiga, que ficou por mais de uma hora nas mãos dos assassinos e só foi encontrada duas horas depois de receber os tiros fatais. O policiamento se fazia notar no cemitério porque o governo temia novo quebra-quebra, semelhante ao organizado pelos moradores da favela invadida pela polícia, na noite anterior. O saldo de tudo isso? O gosto que fica na boca depois de ver um pai, velhinho, sepultando uma filha tão jovem? O que passou pela minha cabeça ao ver um garoto de 13 anos, gente boa toda vida, com o olhar perdido num velório? Coisas terríveis. Amargas. Desesperadoras. Meu amigo Renato estava destruído. A mãe da moça desfalecia, a irmã chorava sem parar por um instante. Eu chorei um bocado, também. Chorei por duas amigas: a Beth e a cidade do Rio de Janeiro. Ambas haviam morrido para mim. Das janelas da capela que abrigava o velório, para cada lado que eu olhava, via uma favela. Dentro delas, eu sei, milhares e milhares de homens e mulheres de bem. Trabalhadores, estudantes, gente que ajuda a tornar mais fácil a vida dos privilegiados da classe média, como nós.
E, ontem, ficou mais claro do que nunca que as vítimas estão em todos os lugares: na classe média,
nas favelas, em todas as partes. As capelas do São João Batista diziam tudo. O Rio de Janeiro vive um estado exatamente igual aos das cidades em guerra, em que cada família tem uma vítima para velar, em que cada pessoa tem uma história de violência para contar. Antes, comentávamos entre nós quem já tinha sido assaltado. Quando finalmente todos foram assaltados (eu, cinco vezes, e acho até que estou na média), passamos a contabilizar os seqüestrados e depois os mortos. Em breve o narcotráfico se transformará em narcoguerrilha, como ocorreu na Colômbia, e shoppings serão mandados pelos ares com bombas. Exagero meu? Guardem este e-mail para me cobrar depois. Por conta de tudo isso, hoje, simbolicamente, fui ao TRE e transferi meu título de eleitor para São Paulo. Desisti do Rio de Janeiro. Desisti daquele papo que vendem para nós de que a cidade é linda e isso compensa qualquer pequeno contratempo.
Não considero pequenos contratempos como volta e meia ver uma arma apontada para a minha cabeça, receber um telefonema da minha velha mãe para contar que foi assaltada na porta de casa e tinha se cagado nas calças com as ameaças dos bandidos ou ver no Jornal Nacional a foto de uma amiga do peito acompanhada daquelas sórdidas
animações, ilustrando os últimos momentos de sua vida, como se ela não fosse nada além daquela personagem de computação
gráfica que as famílias acompanham diariamente sem interromper o jantar. Ela era mais do que aquilo, sim! A Beth era uma grande amiga, uma mãe sensacional, uma esposa maravilhosa, uma filha muito amada. Sei que São Paulo é tão ou mais violenta do que
o Rio. Sei também que não estou totalmente livre da violência aqui. Mas aqui a violência se concentra na periferia, o que não melhora nada o problema geral, mas melhora o problema da minha família. Sei que essa é uma visão egoísta, micro, escrota e que não resolve o problema de fundo. Mas atenua o meu. Pois é: o meu. Eu, que não estou pronto para, como o pai da Beth, ver a filha deitada num caixão com uma bandagem na cabeça, para esconder as perfurações das balas. Estou aqui há três anos sem ouvir uma história de assalto. Jamais apontaram uma arma para mim e jamais escutei um tiro. Não estou a salvo? Basta lembrarmos da história da Mônica, mas estou claramente menos paranóico. E se eu tiver uma chance de ir para a Espanha, amigos, mesmo para ganhar menos, aceitarei na hora. A população do Rio, há décadas, vem mostrando que não tem vergonha na cara para tentar mudar isso, continua elegendo os mesmos imbecis e, com isso, assina sua sentença de morte.
Pior: já vi muita gente boa falando que tudo não passa de armação da imprensa, do ACM, de sei lá quem, para destruir a imagem da cidade. O Garotinho garante que os índices de violência caíram. Ele que fale isso para o Rafael, filho da Beth, ou para as pobres mães daqueles meninos da favela! A decadência física e moral da cidade, para quem passa algum tempo longe, é tão evidente que chega a deprimir. Juro por Deus: toda vez que vou ao Rio sou tomado por uma indescritível melancolia.
E isso dói mais no caso do Rio porque, ao contrário de São Paulo, que jamais foi atraente, a ex-Cidade Maravilhosa já foi um paraíso na Terra. Cansei dessa mulher perturbadora, tão bela quanto maluca, chamada Rio de Janeiro. Nem milhões de pores-do-sol do Arpoador valem tanto medo, tantas gerações desperdiçadas por políticos escrotos ou incompetentes, nas mais das vezes, as duas coisas. Não sair à noite, ir ao Maracanã sem a camisa do clube, fingir que não vê os mendigos e a sujeira nos bares, ir à praia sem dinheiro e com medo de arrastão, isso pra mim já era. Cansei de ser burro e de idealizar uma amada que não existe mais. Enfim, John Milton, the horror, the horror?
E é isso aí. Desculpem o desabafo e tenham uma boa tarde. A minha está absolutamente miserável.
Marcos Caetano"
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Segunda-feira, Março 15, 2004
Nicolau
Nasceu Nicolau, filho de meu amigo André e de Mariana, neta de Jorge Amado. Nasceu de parto normal, algo raro hoje em dia, pelo menos nas clínicas particulares. Tanto que André chegou na maternidade e informou à atendente:
- É parto normal.
A moça anotou: "Cesariana."
Ele corrigiu:
- Não, é parto normal, não é cesariana.
A moça se explicou:
- Me desculpe, mas como normalmente é cesariana quando o senhor falou "parto normal" eu confundi.
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Quinta-feira, Março 11, 2004
Passeio
Anteontem à noite dei uma volta numa patrulhinha. Detido. Os policiais estavam abordando um homem e não gostaram nem um pouco quando parei para olhar. Expliquei que era repórter e queria ver do que se tratava. Um dos PMs pegou os documentos, anotou os dados e pediu meu endereço. Discute daqui, discute dali, mandaram eu entrar na viatura e fomos para a delegacia, acusado de desacato à autoridade e de obstrução ao trabalho da polícia. Eu estava tão tranqüilo que, no meio do caminho, eles pararam o carro e mandaram eu sair. Trocamos apertos de mão e eles só pediram que, da próxima vez, eu ficasse mais longe durante a abordagem.
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Comunhão
Na hora em que Miúcha entrou no palco, no show de Maria Bethânia, uma senhora na mesa ao lado festejou:
- É a Nana!
No que foi prontamente corrigida pela amiga:
- Que Nana, o que, sua ignorante. É aquela mulher que era casada com o Chico Buarque.
Se na platéia havia quem desafinasse, no palco tudo funcionava com perfeição. Em seu espetáculo anterior, "Maricotinha", escrevi: "Era uma Bethânia em estado de graça a que se viu no último domingo, no Canecão. Com a voz cada vez melhor - se é que isso é possível - uma banda irrepreensível e o habitual domínio do palco, ela fez um show apoteótico." Seu novo espetáculo, "Brasileirinho", não é tão arrebatador, mas ainda assim é das melhores coisas que o carioca vai ver este ano. A felicidade com que Bethânia se apresenta no palco é semelhante ao contentamento com que os espectadores a reverenciam na platéia. Uma comunhão como poucas vezes se viu.
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Gratidão
Num dia de junho de 1995, recebi, no quarto de hospital, a visita de um senhor amável e de mão firme. Ele era médico e estava ali para me conhecer. Eu precisava ser operado e ele tinha sido convidado para fazer a cirurgia. Antes de dar o sim, fez questão de fazer uma visita e conhecer o provável paciente. Era um operação delicada, no cérebro, e eu cheguei a temer pelo resultado, por se tratar de um homem de 80 anos. Conversamos um pouco e a afinidade foi imediata. Ele na mesma hora topou fazer a cirurgia e eu no mesmo instante dissipei meus temores. A operação acabou cancelada na véspera, por conta de uma melhora, mas fiquei sempre grato a ele. Ontem soube de sua morte, aos 89 anos. O neurocirurgião Paulo Niemeyer era tão respeitado que os obituários relataram uma frase do ex-presidente João Figueiredo. Disse o general:
- Se o dr. Paulo quiser cortar minha cabeça, ele pode, porque sei que ele vai colocá-la no lugar.
Ele não precisou cortar minha cabeça, mas sei que não haveria melhores mãos para a tarefa.
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Terça-feira, Março 09, 2004
Estudante chinês
Sábado eu estava na ciclovia do Aterro do Flamengo quando dei de cara com um carro vindo em minha direção. Mas o que estaria fazendo um automóvel particular no lugar onde deveriam estar bicicletas e pedestres? Resolvi dar uma de estudante chinês e parei em frente ao Fiat. Uma atitude meio arriscada, ainda mais que os vidros tinham insufilm e não dava para ver quem vinha dentro. A placa da frente estava parcialmente tapada por um pano. Ficamos nos estudando por um tempo. Ele avançou um pouquinho, eu não recueei, ele buzinou, eu não sai do lugar, até que achei mais prudente sair dali e ver se a placa traseira estava à vista. Estava. Quando viu que eu anotava as letras e números - LIZ 5275 - o motorista saiu do carro. Era um bombeiro salva-vidas. Que, vejam só, queria mesmo era me matar. Não fiquei ali para ouvir as reclamações do sujeito.
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Segunda-feira, Março 08, 2004
Pitboys
Não se passa um dia sem que eu ouça alguma história de violência. Não há mais nenhum trecho seguro no Rio. Ontem, um amigo caminhava em direção à boate Dama de Ferro quando um pitboy numa bicicleta esbarrou nele de propósito. Ele reclamou e logo vieram mais cinco. Deu sorte de chegarem outras pessoas e afugentarem os agressores. Mesmo assim, está no hospital e vai ter que operar o maxilar, deslocado. O trecho em torno da Dama de Ferro e a Farme de Amoedo são pródigos em ataques a gays. Um conhecido caminhava com um amigo na Farme. Um grupo de fortões achou que fosse um casal e partiu para cima deles. O amigo conseguiu fugir, mas ele foi parar no hospital. Casos como esse se repetem a toda hora.
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Trapaças da língua
É preciso tomar cuidado com a conjugação dos verbos. Ontem, suei frio, mas acertei ao falar "proveu" para o Verissimo. Hoje, escapei de outra. Meu chefe me mandou um e-mail perguntando se eu poderia mediar o debate que vai ter quarta-feira no jornal sobre o filme "Fala tu". Na mesma hora, escrevi: "Medio, sim." Mas o alerta vermelho acendeu e resolvi conferir no "Aurélio". E pude mandar a resposta correta: "Medeio, sim." Feio, não?
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Domingo, Março 07, 2004
Ufa
Lúcia e Luis Fernando Verissimo completam 40 anos de casados amanhã. Hoje teve almoço de comemoração para o casal, no Satyricon. Tenho que sair mais cedo por causa do plantão no jornal. A mulher do escritor, com a gentileza habitual, preocupa-se em saber se tive tempo de comer alguma coisa. Respondo que sim:
- Minha mãe cuidou dessa parte. Sabe como é mãe judia, proveu meu prato de comida.
Na mesma hora me bate o arrependimento. "Proveu"? Será que a conjugação é essa mesma? Por que diabos fui usar o verbo prover? O que Verissimo vai pensar? Eu podia ter escolhido "municiar" ou "abastecer". Não, estou viajando, claro que o certo é "proveu". Ou será que é "proviu"? Nessas horas, com uma mesa de intelectuais de olho em você, até as palavras mais corriqueiras tornam-se um risco. Mas felizmente era apenas paranóia. Também quem mandou escolher verbo mais besta?
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Quinta-feira, Março 04, 2004
Roubada
Para quem estiver interessado em comprar um Renault, aí vai a experiência de minha prima:
"Em 29/11/1999, ganhei de presente de meu pai, com laço de fita e tudo, um Renault Clio 1.0 zerinho. Nunca mais tive sossego. Ele enguiçou no Rebouças, na Ponte Rio-Niterói, à noite, a caminho da Barra, no Aterro do Flamengo, na Praça da Bandeira às 23h etc. Levei o carro umas 10 vezes nas concessionárias Renault, só no período de garantia. Já quando fui buscar o documento do carro, em dezembro de 1999, ele apresentava um barulho no motor que a concessionária Renault, na época Renoir, hoje Itavema, disse que era normal. Por duas vezes voltei para reclamar, pois o barulho assustava. Eles diziam que viria de São Paulo um aparelho para verificar o barulho. O tal aparelho não chegou e voltaram a afirmar que o barulho era normal em modelos 1.0.
Depois, começaram a surgir outros defeitos - ignição, apagamento total, pane elétrica, suspensão, velocímetro, direção dura, problema no tanque de gasolina, vedação nas janelas, problemas no cambio, no freio etc. Foi tal o descaso com que fomos tratados, que, depois de quase um ano de agonia, levei pela última vez em 21/11/2000 o carro na concessionária e só o recebi em 25/1/2001, com os mesmos defeitos, barulho no motor, apagando na rua sem mais nem menos, não ligando (só empurrado), por três vezes rebocado, parado na garagem por dois meses etc.
Os problemas continuam até hoje. Com o fim da garantia, resolvi entrar na Justiça. Em maio, mais de três anos depois do processo, terei a primeira audiência. Renault nunca mais."
Se mesmo depois de ler você quiser ir em frente, boa sorte.
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23 anos depois
Dona Lúcia Rocha é uma figuraça. Mulher miúda, temperamento forte, sustenta há anos a casa dedicada a seu filho Glauber. Pede dinheiro daqui, convence alguém dali, e assim vai, a duras penas, tocando o Tempo Glauber, junto com o sobrinho João. Amanhã estréia um filme histórico. Silvio Tendler levou 23 anos para terminar "Glauber o filme, labirinto do Brasil." Tudo porque dona Lúcia proibia o cineasta de usar as imagens que ele fez no velório e no enterro de seu filho. Mesmo apavorado com a perspectiva de nunca poder fazer seu filme, Tendler guardou silêncio durante todo o tempo. Até que dona Lúcia capitulou e permitiu o uso das imagens, que resultaram num belo trabalho. Semana passada, juntei dona Lúcia e Silvio Tendler para uma conversa sobre a briga entre eles. O papo foi divertido e emocionante. Quem quiser pode ler aqui.
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Maus-tratos
Meu amigo Zeca Borges é cheio de histórias. Ele é coordenador do Disque-Denúncia e não passa uma semana sem me contar algum caso. Vou passar a dividi-los com vocês. O de hoje: dia desses, chegou uma denúncia. O informante relatava um caso de maus-tratos cometido, vejam só, por uma mulher. Ela, uma jovem de seus 30 anos, tem o hábito de maltratar o marido, um senhor de 60. Pinta e borda com ele, a tal ponto que o denunciante anônimo resolveu ligar para o Disque-Denúncia. O detalhe curioso é o nome da mulher que abusa sem piedade do marido: Amélia. Ela mesmo, a mulher sem vaidade, que passava fome e achava bonito, símbolo da submissão feminina. Não se fazem mais amélias como antigamente. Ainda bem.
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