DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
on-line

   
 
Terça-feira, Abril 27, 2004
 
O motorista que nos pega no aeroporto em São Paulo é falante e atencioso. Lá pelas tantas, interrompe a frase logo após falar "cara":
- Desculpe, falei "cara". O indivíduo foi transferido depois que...
E seguiu contando a história de um conhecido que conseguiu uma promoção no trabalho. Nunca tinha visto tamanho pudor linguístico. Tenho um amigo que diz "é flórida" ou "que m." para evitar palavrões, mas o motorista achou que a gíria "cara" não era apropriada para os ouvidos sensíveis de seus clientes - se soubesse o que estamos acostumados a ouvir...
A viagem a São Paulo foi corrida, como costumam ser todas as viagens a São Paulo. A causa era nobre: entrevistar Alberto Granado, o homem que, há 52 anos, embrenhou-se com Che Guevara pelo continente latino-americano, numa viagem recriada pelo
cineasta Walter Salles em seu filme "Diários de motocicleta", com estréia marcada para o próximo dia 7.
Aos 83 anos, Granado mantém a voz firme, o sorriso assíduo e a memória afiada. Conversamos por um bom par de horas, apesar da presença de um assistente, que a todo momento lembrava que ele precisava descansar. Ele tomava seu uísque enquanto ia contando histórias do amigo.
Granado não gosta de falar de si. Diz que se a viagem tivesse sido feita comigo ia ser apenas uma viagem a mais. É verdade. Mas foi feita com Che - e isso muda tudo. Teríamos ficado a noite toda papeando se não tivéssemos sido interrompidos pelo assessor. Quem quiser ler a reportagem que saiu no Segundo Caderno pode clicar aqui.
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Terça-feira, Abril 20, 2004
 
Mundo cão
Não param de chegar e-mails de internautas indignados com a passividade do casal Rosinha-Garotinho. São desde propostas de impeachment até sugestões de passeatas com todos os manifestantes vestidos de preto-luto. Por toda cidade, cariocas têm se reunido em pequenos grupos, tentando encontrar saídas para o atual estado de coisas. Ontem, participei de uma reunião na casa de uma cantora da MPB. Éramos 13, entre publicitários, artistas, advogados, empresários e jornalistas.
Ainda não sabemos bem no que vai dar, mas em comum há o desejo de pressionar as autoridades, recuperar a auto-estima do carioca, transformar a apatia em ação. Todos ali tinham casos de violência para contar, mas ninguém estava movido pelo rancor. O que não dá é para continuar como está.
No fim de semana, fui ao Armazém do Café de Ipanema. Estava quase fechando. Um pequeno cartaz pregado no vidro explicava porque: "Excepcionalmente, neste fim de semana, por motivo de segurança, na volta para casa, de nossos funcionários, estaremos fechando às 21h30 na sexta-feira e no sábado e às 22h no domingo." Perguntei a uma atendente e ele contou que era por causa dos funcionários que moram na Rocinha.
Na reunião de ontem, um dos presentes observou que os traficantes assistencialistas têm perdido espaço para os que são só sanguinários. Meu amigo Zeca Borges, coordenador do Disque-Denúncia, conta que Lulu e Dudu são um exemplo disso. Apesar dos apelidos singelos, são os dois traficantes da Rocinha. Lulu, que acabou de ser morto, doava alimento e transporte, e não deixava incendiar ônibus, atacar prédios e roubar nos arredores da comunidade. Também não permitia homens armados na entrada do morro, para não assustar os viciados vips. Dudu, que tem tentado invadir a favela, é o oposto. Mata a torto e a direito, estupra virgens e impõem-se pelo terror. Um exemplo (só para quem tem estômago forte): certa vez, pegou um sujeito e cortou seu braço. Mandou o pobre-coitado vestir um capote, que cobria os braços, e caminhou com o rapaz pela favela. Parava diante das pessoas e pedia que cumprimentassem o sujeito. Quando a pessoa apertava a mão, vinha o braço do homem junto. E eu que achei que já tinha ouvido de tudo na vida.
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Jornalistas-blogueiros
Faltou pôr o link para o blog Liberal Libertário Libertino, do Alexandre, que fez reportagem no dia 16 de abril sobre os jornalistas-blogueiros. Aqui está.
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Pechincha
Acharam minas terrestres pela primeira vez no Rio. Não faltava mais nada. Junto, encontraram também 161 granadas. De onde será que vem esse material? Um conhecido, morador da Gávea, conta que um dia três policiais bateram à sua porta. Eles estavam procurando traficantes na mata, foram cercados e acabaram pedindo refúgio lá. Os PMs entraram na casa e perceberam que ele colecionava armas antigas. Um dos policiais, que carregava granadas na cintura, propôs:
- Quer comprar? Cem reais cada uma.
- Imagina! Não, obrigado.
Os PMs insistiram e chegou uma hora em que já estavam oferecendo cada explosivo por 10 reais. Um dos homens implorou:
- Compra, doutor. É sexta à noite e qualquer dez real já resolve nosso problema.
- Mas como vocês vão justificar se chegarem no batalhão sem as granadas?
- A gente diz que jogou na favela.
Apesar da pechincha, ele não aceitou a oferta.
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Quinta-feira, Abril 15, 2004
 
Namoro de um ano e meio
O Alexandre Cruz Almeida, blogueiro dos bons e colunista da "Tribuna da Imprensa", está escrevendo sobre jornalistas que têm blog e me pede um depoimento. Digo que uma das razões de ter o DizVentura é poder revelar os bastidores da feitura das reportagens. Ele pergunta se há algum impedimento ético e se o jornal exerce algum controle sobre os posts. É uma questão séria - o "New York Times", por exemplo, proíbe seus jornalistas de ter blogs relacionados à sua área de atuação.
Digo ao Alexandre que não - que não vejo impedimento ético e que o jornal nem sabe que tenho blog. Acho que revelar alguns detalhes da criação das matérias não traz maiores problemas e pode ser de interesse de alguém. Por exemplo: dia desses, saiu uma capa que fiz sobre o novo filme de Walter Salles, "Diários de motocicleta", que estréia no Brasil dia 7 de maio.
A matéria saiu agora, mas começou a ser feita em dezembro de 2002, num jantar numa pizzaria do Jardim Botânico. Eu e o cineasta conversamos, mas havia uma cláusula contratual que o impedia de dar entrevistas até uma determinada data. A entrevista ficou, portanto, guardada. Durante esse um ano e meio, mantivemos contatos esporádicos - ele estava em Los Angeles editando o filme. Finalmente, no início deste ano, houve a primeira cabine de "Diários de motocicleta" no Brasil. Foi feita para mostrar à equipe brasileira que participou das filmagens o resultado de quatro anos de trabalho. Consegui fazer parte deste pequeno grupo que esteve no Espaço Unibanco. Mas havia um novo impedimento: eu tinha visto o filme, mas ainda não tinha autorização para falar do filme, o que só aconteceu há poucos dias.
Foi um longo namoro, cheio de limites - que foram respeitados - e que teve como resultado a capa de segunda-feira passada do Segundo Caderno. Quem lê não percebe a trabalheira que deu - até porque jornalista não é notícia. Mas, com o blog, dá perfeitamente para contar essa historinha aqui. A propósito, quem quiser ler a matéria pode clicar aqui.
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Quarta-feira, Abril 14, 2004
 
Oráculo
Uma amiga é especialista em TV. Ela fez outro dia um experimento que vale a pena reproduzir aqui. Pegou duas turmas de segunda série da uma escola da Zona Sul do Rio. Crianças de 8 ou 9 anos, bem nascidas e bem criadas. Levou a molecada para a Feira Hippie de Ipanema, na Praça General Osório. Levou junto uma equipe de vídeo e filmou a divertida tarde das crianças na feira. Registrou-as olhando as barraquinhas, conversando com os vendedores, comendo acarajé, batendo perna pela praça. Só que na hora de editar o vídeo com as imagens da criançada ela incluiu quatro cenas falsas. Uma que mostrava pivetes assaltando idosos na Praça da República, em São Paulo. Outra que trazia assaltantes roubando motoristas à noite em frente ao Hospital Miguel Couto. Uma terceira que apresentava policiais perseguindo bandidos num viaduto. E uma quarta que exibia cenas de violência na rua. Depois de pronto o filme, ela reuniu as 48 crianças e falou:
- Vamos ver o vídeo do nosso passeio?
Após as crianças verem o material - que misturava as cenas na feira com as cenas falsas - ela perguntou se elas haviam visto algo de errado no filme. Sabe quantas perceberam o engano?
- Nenhuma criança disse que aquilo era mentira - conta minha amiga.
Uma das crianças chegou a dizer:
- Eu lembro desse pivete, eu vi ele assaltando!
Outras também disseram lembrar das cenas de violência - mesmo as que se passavam em São Paulo ou as que eram noturnas. A triste conclusão dela:
- O que a TV diz que é verdade torna-se mais verdade do que a sua própria percepção da realidade. A TV é um oráculo dentro da sua casa a qual você tende a atribuir o dom da palavra final.
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Terça-feira, Abril 13, 2004
 
De mototáxi
Dia desses subi a Rocinha - antes dos últimos tiroteios. Era um sábado à noite e eu estava lá para cobrir um show de hip hop. Estacionei meu carro ao lado da quadra da escola de samba e pedi que um motociclista me levasse até o local do espetáculo. Existem 300 mototáxis na Rocinha. Eu nunca tinha andado em nenhum. E espero não precisar andar em outro. O rapaz dirigia que nem um doido em meio a becos e vielas. Tirava fino de cachorros, desviava-se em cima da hora de crianças, esquivava-se por pouco de carros, motos e até ônibus. Assustado, perguntei:
- Tem muito acidente?
- Já morreu gente. Tem muito nego bebo (bêbado) que se esborracha de moto - animou-me ele, enquanto esbarrava minha perna no pára-choque de um ônibus.
Por incrível que pareça, chegamos sãos e salvos. Mas a habilidade invejável do rapaz não se devia ao medo do prejuízo ou ao receio de se machucar num acidente. Ele me explicou porque era tão hábil:
- Se atropelar alguém você vai ter que se explicar muito com os homi.
Leia-se: com os traficantes. O curioso é que a gente rodou a favela inteira até descobrir que o show era na quadra da escola de samba, ao lado de onde eu estacionei.
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Plano B
A viagem a São Paulo para tentar entrevistar Chico Buarque foi tensa. Já estava definido que a capa do caderno ia ser com ele. Mas e se eu não conseguisse falar com Chico? E se ele simplesmente ignorasse minhas súplicas e minhas tentativas? Aí eu poria em ação o plano B. Caso o compositor não topasse falar comigo, eu ia começar a reportagem da seguinte maneira: "No filme 'Benjamim', Cleo Pires vive escapulindo de Paulo José. Sua personagem, Ariela, é arisca, corre de um lado para o outro e não se deixa aprisionar. Chico Buarque é assim. Na vida real, o criador de Ariela também se esquiva dos fotógrafos, dribla os repórteres, entra em show depois que as luzes se apagam, aperta o passo quando se vê acuado." Felizmente, consegui falar com ele - numa noite que terminou às 4h da manhã, como vocês podem ler mais abaixo - e não precisei pôr em prática o plano B.
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Segunda-feira, Abril 12, 2004
 
Reportagens
Só agora tenho tempo de pôr os links para outras reportagens que saíram recentemente no jornal. Quem quiser ler pode clicar aqui. A primeira foi barra-pesada de escrever. Trata-se de uma entrevista com o ex-traficante João Guilherme Estrella, que era o maior fornecedor de cocaína da Zona Sul do Rio, antes de ser preso. Estrella era tão poderoso que exportava uma parte para o exterior, vendia para outros traficantes e ainda abastecia a elite carioca de pó. Hoje ele está solto e regenerado. Fui até sua casa entrevistá-lo. Conversamos e nunca aquela máxima de que "o Rio é um ovo" fez tanto sentido para mim. Descobri que estudamos juntos no mesmo colégio e que temos vários amigos em comum.
Outra reportagem foi igualmente desgastante. Fala de um crime cometido há quatro anos, em Santa Teresa. O filho da cantora Ryta de Cássia e a irmã do cantor Pedro Luís foram assassinados, supostamente por conta de uma história que começou com o empréstimo de um casaco. O julgamento do acusado era semana passada, mas, por causa da matéria, a defesa pediu adiamento.
Passemos a assuntos mais amenos: uma terceira reportagem trata de um filme feito há 40 anos e que é alvo de um documentário dirigido por um brasileiro. Vicente Ferraz resolveu contar a saga de "Soy Cuba", um filme espetacular, feito por um soviético em 1964.
E, finalmente, tem um perfil da Fernandinha Torres, que dá um show na peça "A casa dos budas ditosos". A matéria saiu num domingo e, no mesmo dia, tinha um recado da atriz no meu celular. Já falei antes que é raro, muito raro, algum entrevistado ligar para comentar o que saiu publicado. Em quase 20 anos de profissão, isso deve ter acontecido uma meia dúzia de vezes. Por isto, não resisto a reproduzir parte da mensagem, correndo o risco de ser cabotino: "Alô, acho que é do Mauro esse telefone, espero que seja, é Fernanda, estou lidando para agradecer. Cara, realmente, você é um bálsamo, uma luz do universo no jornalismo brasileiro. Cara, eu espero que seja sua caixa postal, senão vou ficar com muita vergonha. Eu adorei, obrigadaço, um beijo." Uma graça, essa Fernanda. Mas exagerada como ela só.
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Brabeira
Encontro o ator Felipe Martins. Rimos ao lembrar de um episódio que ocorreu alguns anos atrás. Ao escrever no JB sobre os absurdos que eu recebia pela internet, ilustrei:
- A mensagem intitulada "Novidades sobre o ator Felipe Martins" avisa que ele está em Portugal, mas não deixa de acompanhar os jogos do Flamengo. Como pude viver até agora sem esta informação?
Em vez de ficar irritado, ele me mandou um e-mail bem-humorado, que dizia:
- Levei um baita susto ao ler meu nome na sua coluna de hoje. Estou te mandando este e-mail para dizer que gostei muito do que li, perto dos meus 40 anos que completo no dia 21 de novembro. OPS!! Desculpe por mais essa `novidade' sobre mim... Não sou adepto do `falem mal, mas falem de mim'. Acontece que ri muito com seu comentário e fiquei mais feliz neste sábado, mesmo com o Flamengo eliminado... Já li muitas coisas no JB que fizeram e fazem minha cabeça, mas sua coluna de hoje fez muito. Pessoas que não me ligavam há muito tempo deram o ar de suas graças depois que leram sua coluna. Foi como um reencontro às vésperas dos `enta'.
Depois de lembrar a história, Felipe me apresenta seu assessor, responsável pelo tal e-mail de quatro anos atrás. Rimos e passamos a falar de outros assuntos. Ele me conta que há colegas seus botando silicone no peito para parecerem mais fortes.
- Há também quem esteja usando silicone para modelar a barriga. Fica com aquele estilo "tanque de lavar roupas".
Faço uma cara de espanto e Felipe dá mais um exemplo de até onde as pessoas vão por causa da vaidade. Ele cita um conhecido seu, de 23 anos, que está internado no Hospital do Câncer, em São Paulo. Tumor no fígado. Aos 18 anos, o rapaz começou a tomar anabolizantes. Agora, a mãe diz que vai processar o nutricionista, o dono da academia, o professor de ginástica e até um médio de San Diego, nos Estados Unidos, que levou uma grana e revelou-se um charlatão. Está certíssima.
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Disfarce
Fui a São Paulo tentar entrevistar Chico Buarque. Tarefa difícil, já que o homem odeia falar com jornalista. Ele estava na capital paulista para a pré-estréia do filme "Benjamim", baseado em seu livro.
Fui disfarçado. Combinei com a equipe do filme de fingir que fazia parte da produção e, quando sentisse que era hora, daria o bote - ou melhor, me apresentaria. Por acaso, cruzei com Chico logo no Aeroporto Santos Dumont. Como ele não me conhecia, não havia problemas. Viajamos no mesmo avião e subimos juntos no elevador do hotel. Uma moça se meteu entre nós e explicou, eufórica:
- Só estou subindo para pegar seu autógrafo. Mary, M-A-R-Y.
Antes de ir para a sessão, fiquei colado em Chico, tentando ouvir as conversas com a atriz Cléo Pires, com a diretora, Monique Gardenberg, e com outros integrantes da equipe. Fomos na mesma van, sentei perto dele no cinema e seguimos juntos para uma festa. Eu anotava tudo na surdina. Até que, no carro, Chico se vira para seu assessor, Mário Canivello, e pergunta:
- Quem está do seu lado?
- Mauro Ventura - respondeu Canivello.
Pronto, pensei, lá se foi minha identidade secreta por água abaixo - e com ela, minha matéria. Mas Chico disse:
- Ele eu sei quem é. Estou perguntando quem estava do seu lado no cinema (era a VJ Marina Person).
Descobri ali que ele sabia de meu disfarce desde o começo. Tudo bem, Chico estava radiante. Ficamos na festa até de madrugada. As mulheres - ou melhor, meninas - não davam sossego. Convidavam-no para ir a casa delas, tentavam beijá-lo, afagavam sua nuca, dançavam a seu lado só para tirar onda depois com as amigas.
Canivello me explicou que eles têm um código: se Chico achar que está na hora de ir embora ou que alguém passou dos limites, dá uma olhada e seu assessor já sabe que é o momento de interferir. Mas o cantor estava animado. Dançou até as 3h20 da manhã. Saímos de lá quase às 4h. Paramos num posto de conveniência para ele comprar cigarros e o atendente pediu que ele desse um autógrafo escondido.
- É proibido - explicou.
Depois, se aproximou do carro e pediu para apertar sua mão. Chico estava relaxado. Ao pegamos o elevador, só nós dois, lembrei de Tom Jobim, que dizia algo como:
- Subir com Chico Buarque num elevador é como subir com um árabe. Você não sabe o que dizer.
Conversamos sobre amenidades e fui direto escrever a reportagem que saiu no Segundo Caderno. Quem quiser pode ler aqui.
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Terça-feira, Abril 06, 2004
 
Cena carioca
A moça passava na rua quando viu um policial enfiando a mão - ou melhor, o cassetete - no suspeito de um roubo. O rapaz era negro. Ela interferiu e acusou o PM de ser preconceituoso. Ele respondeu de bate-pronto: "O que a senhora chama de preconceito eu chamo de estatística."
Até que o sujeito teve presença de espírito para justificar a covardia...
Tão preconceituoso quanto os policiais são os taxistas. Já escrevi sobre o assunto. Um motorista de táxi me contou que não pára quando vê um negro e um branco fazendo sinal - para ele, se os dois estão juntos é por conveniência, é porque estão tramando algo. Certa vez, à noite, outro me disse: "Se você fosse negro, eu passava batido." Ele falou de um colega que é ainda mais radical e que costuma dizer: "Mesmo que o camarada esteja de terno e maleta 007, na Avenida Rio Branco, às quatro da tarde, se for negro eu não paro."
Recordo que contei duas historinhas para tentar convencê-lo do absurdo do que estava me dizendo. Na primeira, o motorista de táxi pega o garotão às 14h na Tijuca. Louro, de blazer, pinta de executivo, o passageiro leva nas mãos um buquê de flores e um embrulhinho de presente para a noiva. No meio do caminho aponta a arma para o motorista. Foge com um colega de moto que vinha atrás.
Em outra ocasião, o técnico em eletrônica, negro, sai de casa com uma maleta e pega o táxi na porta de casa, no Engenho Novo. "Que sorte que eu dei, nem precisei esperar", pensa. O motorista é branco, está bem vestido e é bem-apessoado - mas, na altura do Centro, ele anuncia o assalto. Era um ladrão que tinha roubado o táxi minutos antes. Após ouvir as duas histórias, o motorista acabou concordando comigo, mas sem muito entusiasmo. Só não contei a ele a reação do técnico em eletrônica ao taxista ladrão: "Você vai me assaltar? Mas o negro sou eu!"

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