DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Quinta-feira, Maio 27, 2004
 
Duros tempos
Faltou acrescentar que a Igreja matava também as parteiras. Qualquer um que tentasse aliviar os sofrimentos do parto era perseguido e morto. Afinal, a mulher deveria sofrer para pagar o pecado de Eva ter comido a maçã.
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Trevas
Que a Inquisição tinha sido o período mais tenebroso da História da Humanidade eu já sabia. Que tinha durado 300 anos, havia esquecido. Que queimava as mulheres acusadas de bruxaria - e aí se incluíam as professoras, sacerdotisas, ciganas, místicas, amantes da natureza, coletoras de ervas, fofoqueiras ou simples vítimas de acusações alheias - também era de conhecimento geral.
Mas a leitura de "O código Da Vinci" me revelou um dado assustador: a Igreja queimou nada menos que cinco milhões de mulheres. Vou repetir: cinco milhões de mulheres foram queimadas injustamente pela Igreja. E isto numa época em que a população mundial era incomparavelmente menor (eu sei, eu sei, eu devia ter pesquisado e botado o número certo aqui). Cruzes.
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Mistério
O embrulho chega às minhas mãos sem qualquer identificação. Estou acostumado a ganhar todo tipo de coisa, mas esta caixa chama atenção pelo vermelho berrante e pela ausência de destinatário.
Parece um estojo e a possibilidade de conter uma caneta ou um óculos escuros de presente acelera minhas tentativas de abri-lo. É mais complicado que abrir um CD e levo mais tempo do que gostaria até conseguir destampá-lo. Um misto de estranhamento e decepção se instalam em mim.
Dentro estão quatro broches e a inscrição: "4 símbolos vão formar um nome de 4 letras que vai marcar 2004". O primeiro broche é a foice e o martelo. O segundo reproduz uma estrela de David. Outro é um círculo com uma cruz - o símbolo da mulher. E o último traz um coração dentro de um círculo. Fico sem entender nada. O que o Comunismo, o Judaísmo, a Mulher e o Amor têm a ver um com o outro?
Tento usar as iniciais para formar uma palavra. O resultado é CJMA. Resolvo experimentar as palavras foice, estrela, feminino e coração. O resultado é igualmente frustrante: FEFC. Mais algumas tentativas se mostram infrutíveras.
Derrotado, resolvo apelar para meu colega de redação Bernardo Araujo. Ele dá uma espiada no estojo e não leva mais do que cinco segundos para dar a resposta: Olga.
E não é que ele tem toda razão? Este ano vai estrear o filme "Olga", de Jaime Monjardim, que fala da história de amor da ex-mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, a judia alemã Olga Benário, que foi presa e deportada para um campo de concentração. Amor + Mulher + Comunismo + Judaísmo = Olga. A caixa vermelha com os quatro broches nada mais é do que parte do material de divulgação do filme. Cinco segundos foi o tempo que Bernardo levou para descobrir o mistério. Expressionante.
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Quinta-feira, Maio 13, 2004
 
Sopa de letrinhas
Saio da festa, tomo o elevador e me vejo diante de um dilema: qual botão apertar? Quero sair do prédio, mas não vejo nenhum T, de térreo, ou S, de saída. Há um P, um E, um A, um AP, um FP e um AE. Aperto o P, mas não é portaria e sim playground. Tento o E e dou de cara com o estacionamento. Arrisco o A, e novamente vejos carros à minha frente. Os outros botões não provocam qualquer movimento no elevador.
Depois de muito tentar, saio e desço os andares de escada. Pergunto ao porteiro onde afinal era a saída e ele diz que era mesmo no A. Só que como eu peguei o elevador de serviço acabei não vendo a entrada social. AP, continua ele, significa abrir porta, e FP, fechar porta. AE é o botão de emergência.
- A empresa disse que, como nós atendemos aos moradores, o A quer dizer atendimento. Mas todo visitante fica confuso. Não entendo porque complicar - desabafa ele.
O porteiro está cheio de razão. O painel dos elevadores hoje parece até o alfabeto, de tanta letra que tem: A, E, G, L, P, PO, S, SL, SS, T. Um do mais estranhos é PI, que não significa pilotis e sim mezanino. Uma amiga explica que é PI de piso intermediário.
Tempos atrás, teve um dia em que eu, confuso dentro do elevador, também fiquei indeciso sobre o que o A queria dizer e escrevi: "Quem sabe significa 'abaixo', 'abrigo', 'apoio', 'armadilha', 'abrir', 'ajuda', 'auditório' ou 'automático'? Nenhuma das alternativas me parece convincente. Talvez seja A de 'asfalto', como sinônimo de rua. Não, metafórico demais. Ou então A de 'além'. Muito mórbido. Presumo que seja A de 'até', como se o edifício estivesse se despedindo do visitante com um 'até breve' ou um 'até logo'. Simpático, mas pouco provável. Acaso não seria 'arriba', já que os espanhóis estão invadindo o Brasil? Não, eu estava descendo e não subindo."
Daquela vez também acabei saindo e pegando a escada.
Na época, o porteiro me disse que era A de atrium. Fazia sentido, já que atrium significa "pátio que dá acesso a um prédio". Resolvida a questão? Ainda não. O engenheiro e consultor Paulo Juarez Dal Monte, que trabalha com o assunto há 27 anos, esclarece-me que a letra A significa na verdade "acesso". Ele diz ainda por que o velho e bom T, de térreo, tem sido substituído pelo A. Da década de 70 para cá, cada vez mais os botões são digitais. As letras e números, que eram pintados, passaram a ser iluminados, como num relógio digital. A letra A, por exemplo, é facilmente formada pelos traços de luz. Mas não é possível representar o T e ele foi aposentado. Palavra de especialista: o engenheiro escreveu o livro "Elevadores e escadas rolantes", o mais completo trabalho já publicado no país sobre o tema, com 526 páginas e 383 imagens.
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Modernidades
Vou a um restaurante recém-reformado e empaco diante do banheiro. Antes das obras, um lavatório mostrava a letra "H", de homem, e o outro a letra "M", de mulher. Simples assim. Agora, confuso, vejo-me diante de um "O" com o desenho de um alho e de um "A" com a ilustração de uma pimenta. Sem pensar direito, abro a porta da pimenta, no que sou detido por um garçom.
- É o outro - ele diz, antes de consolar-me: - Muita gente se confunde.
Logo depois cai a ficha. O designer fez uma escolha por gênero. Usou o "O" - e o alho - para designar homem, já que a letra significa o artigo definido masculino singular.
É uma moda que se espalha por aí e que daqui a pouco vai fazer surgir a profissão de fiscal de porta de banheiro. Uma amiga fala de um lavatório no exterior que mostrava um círculo e um triângulo. Ela ficou sem saber onde entrar e teve que esperar outra cliente aparecer para então segui-la. Neste caso eu não teria dúvidas, graças ao livro "Código Da Vinci", que estou lendo. Lá pelas tantas, o autor fala da célebre imagem desenhada por Da Vinci, que mostra um homem dentro de um círculo com os braços e pernas esticados. O escritor explica que o pintor queria simbolizar o equilíbrio entre o homem e a mulher. O círculo é um símbolo feminino, pois indica acolhimento e proteção. Mas vai explicar isso para alguém apertado?
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Terça-feira, Maio 04, 2004
 
Marcas do tempo
Ipanema fez 110 anos - com um corpinho de 200. Adoro o bairro - tem o melhor a quilo da cidade, o Da Silva, tem tudo à mão, tem a Livraria da Travessa, tem uma casa linda na Prudente de Moraes que ostenta a plaquinha: "Este imóvel não está à venda. Pede-se não insistir" - mas que está precisando de um trato, está. Se não vejamos:
- Tem uma quadrilha que assalta de bicicleta e guarda o fruto do roubo no bueiro em frente à minha casa. Outro dia, um deles mirou em mim, mas o porteiro avisou e ele assaltou um turista. Ainda corri atrás - sabe-se lá para quê - mas ele se evaporou.
- Nos fins de semana, a Visconde de Pirajá parece Calcutá. Famílias e mais famílias se instalam nas ruas em busca de trocados.
- O sinal da Farme de Amoedo com a Vieira Souto é um exercício de paciência com os motoristas.
- À noite, o bairro torna-se um deserto. Até a Letras & Expressões, que fechava de madrugada, passou a cerrar as portas mais cedo. Encontrar uma farmácia ou uma loja de sucos depois de meia-noite é impossível.
- Os pitboys não dão sossego. Dia desses, um amigo foi espancado a caminho do Dama de Ferro. Teve que operar o maxilar.
A lista de mazelas é grande. Amanhã eu continuo.
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Que disposição
Aos 83 anos, Alberto Granado tem uma disposição invejável. Logo que chegou ao Brasil ele pediu para provar cachaça. Passou a tomar todo dia - ao acordar. Em São Paulo, na pré-estréia do do filme "Diários de motocicleta", o homem que viajou com Che Guevara pelo continente latino-americano em 1952 era o mais animado. Às 3h da manhã, Walter Salles já estava doido para ir embora, mas Granado resistia firme. Semana passada, depois da pré-estréia carioca do filme, foi todo mundo comemorar na Capricciosa do Jardim Botânico. Às 2h da matina, a cena era a seguinte: Granado, Gael García Bernal (que faz o jovem Che) e Rodrigo de la Serna (que vive Granado na juventude) bebendo em pé e cantando em altos brados todo tipo de música latina. Não fiquei para ver o término da noite.
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Link
Aqui está o link para a reportagem sobre abuso sexual, feita em parceria com Marcia Cezimbra e publicada no Jornal da Família do último domingo
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Segunda-feira, Maio 03, 2004
 
Incesto
A semana foi complicada, às voltas com uma reportagem sobre incesto. Tive que ouvir todo tipo de história de abuso sexual contra crianças. Haja estômago. É um fenômeno mais comum do que se pensa, disseminado por todas as classes sociais, mas abafado pela sociedade. Professores, médicos, juízes, pais - todos silenciam.
As poucas pessoas que se arriscam a denunciar sofrem represálias, como uma moça, que, hoje em dia, tem que conviver com bilhetes ameaçadores, telefonemas intimidadores e até desenhos - ela já chegou em casa e viu pintada no chão a imagem de um caixão e de uma cruz. Os pais abusam, as mães se calam e as crianças sofrem, sem ter a quem recorrer.

Felizmente, há pessoas dispostas a reagir, como a psicanalista Graça Pizá, que lança dia 19, na Travessona de Ipanema, o livro "A violência silenciosa do incesto", com textos de 16 especialistas. A análise ajuda a evitar que as crianças abusadas se tornem futuros criminosos - ou suicidas. Na clínica de Graça, também são tratadas as mães das vítimas. Uma delas, de 55 anos, após várias sessões, acabou contando sobre o abuso que sua mãe sofria de um vizinho. Em seguida, revelou que ela própria passou a ser o alvo do homem que, agora, estava abusando de sua filha. Por causa da impunidade e do silêncio, o sujeito já estava na terceira geração de abusos.

Em sua clínica, Graça já se deparou com todo tipo de barbaridade. Um deles (impróprio para estômagos frágeis) mostra como a violência pode levar à perda da humanidade. A psicanalista não entendia porque a criança sempre entrava no consultório de quatro, latindo. Com o tempo, ela começou a se expressar através de desenhos. Certa vez, cobriu o papel com imagens de cães. Após anos de tratamento, descobriu-se a história: o pai costumava amarrar a criança com a fralda no berço e dizer "vamos brincar de cachorrinho", antes de violentá-la.

O incesto é um tabu universal, mas descobri na matéria que há casos em que a manutenção da família torna-se mais importante que a proibição. Graça conta que, no Norte da Irlanda, há famílias que adotam uma estratégia para o marido não sair de casa em busca de outras mulheres: a própria esposa põe a filha mais velha na cama do pai.

O livro de Graça traz 32 desenhos infantis, que ajudam o leitor a identificar quando a criança é vítima de violência sexual. Tomara que seja um sucesso. Como diz em seu artigo a ex-secretária nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind, "somos muito poucos, mas somos firmes e temos pressa".
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