Quarta-feira, Junho 30, 2004
Tim-tim
Dia desses, liguei a TV - algo quase tão freqüente como pular de asa delta ou comer repolho. Estava passando o filme "Tortilla soup", com a Rachel Welch. O filme é daqueles tão ruins, mas tão ruins... que você não consegue desligar. E lá fiquei eu preso diante da televisão, aturando diálogos inusitados e cenas risíveis.
Lá pelas tantas, aparece um brasileiro. Quer dizer, brasileiro entre aspas, porque o português dele era de dar dó. Mas, enfim, era um estudante brasileiro que morava nos Estados Unidos e começa a namorar uma das personagens principais. Ele vai jantar na casa da namorada e seu sogro estranha ele ter pele clara:
- Os únicos brasileiros brancos que conheci eram criminosos nazistas.
Para vocês terem uma idéia dos diálogos. Mas não foi de todo mal. Numa das cenas, uma das atrizes brinda com o namorado e pergunta se ele sabe porque se faz tim-tim com os copos. Ele não sabe e ela explica que é para envolver todos os cinco sentidos no ato de beber. A visão (ao ver a bebida), o olfato (ao sentir o aroma), o tato (ao segurar o copo), o paladar (ao beber) e a audição.
O gesto de bater um copo no outro teria sido a maneira encontrada de provocar barulho e envolver também a audição no ato de beber. Pode até não ser verdade, mas faz sentido e amenizou a culpa de perder duas horas diante de "Tortilla soup".
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Quinta-feira, Junho 24, 2004
Coisas de Brasília
O presidente da Câmara, João Paulo Cunha, chamou hoje o deputado Roberto Freire de cretino. Freire ficou indignado. Na reunião da manhã aqui no jornal, estávamos discutindo se "cretino" era xingamento ou não. Teve quem achasse que o deputado não tinha razão de ter ficado tão irritado. Teve quem criticasse João Paulo e achasse que ele tinha exagerado. Não se chegava a lugar nenhum, até que o editor-assistente de Brasília, mais afeito às liturgias do poder, entrou na conversa e explicou por que Freire ficou na bronca:
- É que João Paulo disse: "Você é um cretino."
Entenderam? Se ele tivesse dito "Vossa Excelência é um cretino", tudo bem, faz parte do jogo, os políticos costumam se xingar de coisa bem pior. Mas chamar de "você" aí já foi demais.
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Quarta-feira, Junho 23, 2004
Leonel
A última vez que vi Leonel Brizola foi há poucos dias, na Livraria da Travessa, no lançamento do livro de Flávio Tavares, "O dia em que Getúlio matou Allende". Como sempre elegante, causou frisson entre os convidados. Não houve quem não cutucasse o colega e dissesse:
- Olha ali o Brizola!
Ao longo dos anos, tive duas ou três oportunidades de entrevistá-lo. Era uma figura magnetizante e carismática, que sabia como poucos desviar a conversa para onde melhor lhe convinha.
Nunca votei em Brizola - em 1982, fui de Miro Teixeira - e não me arrependo. Outro dia mesmo estávamos conversando numa roda de bar sobre a origem da gíria brizola. Ninguém sabia ao certo como a palavra se tornou sinônimo de cocaína, mas um dos presentes arriscou uma explicação:
- Deve ter surgido na época em que Brizola era governador e deixou correr frouxo a venda de drogas na cidade.
Se é verdade ou não, não sei. Sei que Brizola merece uma série de deferências. Menos por seus governos que pela maneira como enfrentou a ditadura militar, pela coerência, pelo compromisso com as classes mais pobres e pelo amor incondicional ao país.
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Making of
Eis aqui os bastidores da preparação do caderno especial de 18 páginas sobre Chico Buarque, publicado na última sexta-feira. O texto tem a assinatura de meu chefe, Artur Xexéo:
A notícia foi desanimadora: Chico Buarque não vai dar entrevistas. Não que isso nos surpreendesse. Pelo menos, quatro vezes por ano, uma entrevista com Chico é pautada aqui no Segundo Caderno. E, pelo menos, quatro vezes por ano, a pauta não é cumprida. Chico não dá entrevistas. Mas, quem sabe, desta vez, sendo uma homenagem... Não adianta, Chico é irredutível. Será que valia a pena mesmo fazer um caderno especial?
Bem, a gente poderia ouvir os amigos, os colegas de profissão, escrever sobre a obra teatral, o Chico do futebol, o Chico do cinema, uma enquete para escolher a sua melhor música... Fomos em frente, dava para fazer um caderno de dez páginas.
O colunista Joaquim Ferreira dos Santos tentou fazer uma foto de Sílvia Buarque para a Gente Boa. Ela foi supergentil, mas quem sabe noutra ocasião? O repórter Arnaldo Bloch tentou ouvir Paulinho da Viola. Quem sabe noutra ocasião? A sucursal de Brasília tentou o voto do presidente Lula para a enquete. Ele estava na China!
Tecnicamente, este caderno começou a ser feito há dois meses, quando o repórter Mauro Ventura foi a São Paulo cobrir a estréia de "Benjamim". Chico estaria presente. Dava para começar a colher material. Em Brasília, a repórter Isabel Braga era bem-sucedida na colheita de votos no Congresso para a eleição da melhor música:
- Os políticos, sempre tão sisudos e ocupados, transformaram-se quando fiz a pergunta - relata ela. - Em vez de reagir de forma irônica ou irritada, como fazem quando ouvem perguntas sobre política, desarmaram-se: não resistiram e cantaram um ou mais versinhos da música e ensaiaram uma certa nostalgia. João Paulo, presidente da Câmara, cantou duas estrofes de "Minha história". Até mesmo o formal Marco Maciel cantou um pedaço de "Paratodos", não escondendo o orgulho ao comentar que o avô de Chico era pernambucano, como ele.
Estava dando certo. Pensando bem, talvez o material segurasse um caderno de 12 páginas.
Toca o telefone. É Marília Gabriela cantando um trecho de "Todo o sentimento". Mais um voto. Roberto Carlos promete mandar um texto. Chico topou posar para fotos. Quem sabe 14 páginas?
Mauro segue Chico numa caminhada e o acompanha da ponta do Leblon até a Rua Joana Angélica, em Ipanema. Ida e volta. Pela areia. Chico só de calção. Mauro de calça comprida, camisa social, sapatos e mochila. Está com dor no joelho até hoje.
- Você deu sorte - tripudia o compositor. - Geralmente eu vou até o Arpoador e volto.
Pelo joelho de Mauro Ventura, topamos fazer 16 páginas.
Arnaldo consegue reunir depoimentos de um festival da canção completo (Milton, Gil, Caetano...). O repórter Hugo Sukman localiza Cacá Diegues no Recife. E a sucursal de Brasília, enfim, consegue o voto de Lula. Não há dúvida, o caderno merece 18 páginas. Imaginem se o Chico tivesse dado entrevista!
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Atrás de Chico
Sobrevivi. Foram quase quatro semanas atrás de Chico Buarque, para o caderno de 18 páginas que saiu na sexta-feira. O homem não quis dar entrevista de jeito nenhum, então a solução foi fazer um perfil ouvindo os amigos e seguindo-o por aí. Uma vez, fui até São Paulo, acompanhar a pré-estréia de "Benjamim". Conversamos durante um bom tempo, mas a condição era que o papo não se transformasse em reportagem.
Em outra oportunidade, resolvi segui-lo em sua caminhada pela praia. A idéia era ver a reação das pessoas à sua passagem. Garantiram-me que ele chegava sempre às 12h30. Descia sua rua no Alto Leblon, pegava a praia, ia até o Arpoador e voltava. Cheguei às 11h30 e fiquei esperando. Às 12h32, ele apareceu. Só que, em vez do calçadão, foi pela areia, ziguezagueando em busca das áreas mais vazias. Ao fim da caminhada, fui falar com ele. Chico levou um susto:
- O que você está fazendo aqui?
Não ficou chateado de saber que tinha sido seguido durante quase uma hora. Até quis me oferecer uma água de coco, mas estava com dinheiro contado - dois reais. Meu joelho, já fatigado pelos anos, ficou de molho um bom tempo, após a caminhada na areia. Mas valeu a pena. Li quatro livros sobre Chico, devorei dezenas de matérias, conversei com várias pessoas e varei madrugadas para escrever o perfil, que ocupou duas páginas de jornal.
Não fui só eu que não consegui entrevistá-lo. Glória Maria também tentou. Disse que estava fazendo uma série de reportagens impossíveis e implorou por uma entrevista. O compositor respondeu, segundo conta a colunista Lu Lacerda:
- Aceito com uma condição. Que João Gilberto seja o primeiro, Rubem Fonseca o segundo e eu, o terceiro.
Boa resposta, com o bom humor habitual de Chico.
Quem quiser ler o perfil pode clicar aqui.
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No consultório
Dizem que são casos reais, ouvidos numa conversa entre médicos. Mas como veio pela internet...
1) Médico conversando com paciente no setor de triagem de um hospital no Sertão brasileiro:
- A senhora tem Funrural ( Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural)?
- Só um corrimentozinho de vez em quando.
2) Uma paciente idosa, gorda, chegou na sala e se sentou. O médico falou:
- Bom dia, Dona Severina!
- ...
- Pois não, posso ajudá-la em alguma coisa?
- ...
- Dona Severina, o que a trouxe aqui?
Ela pensou, pensou, e disse com firmeza:
- Foi o carro, doutor!
3) A secrétária avisa ao médico:
- Doutor, a paciente das 20 horas pediu para desmarcar por que ela morreu hoje.
4) O homem chega ao consultório e se queixa:
- Doutor, terça passada em tomei 3 vodkas, 4 Dreher, 4 São João da Barra e 2 garrafas de cerveja. Depois fiquei bebinho, e quase queu caio. Acho que o remédio que o senhor me passou está me fazendo mal.
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Quinta-feira, Junho 10, 2004
Garota
Historinha ótima que li no livro de Regina Zappa sobre Chico Buarque. Nos anos 60, Vinicius de Moraes participava semanalmente do programa "Esta noite se improvisa", da TV Record. Os convidados - gente como Caetano, Gil, Simonal, Chico, Edu Lobo e Carlos Imperial - tinham que apertar um botão o mais rapidamente possível, logo depois que o apresentador dizia uma palavra. Quem apertasse primeiro, ganhava pontos se cantasse uma música que tivesse a tal palavra na letra.
Vinicius era lento toda vida na hora de apertar a tecla. Nunca se lembrava de música alguma. Até que o apresentador falou: "garota". Na mesma hora, com uma agilidade de menino, ele apertou o botão e começou a cantar "Garota de Ipanema", sua música mais famosa, feita em parceria com Tom Jobim. Vinicius ia cantando na maior animação, certo da vitória. Ele ia cantando, cantando, e nada de surgir a palavra.
Até que a música terminou e só aí ele se tocou de que na letra de sua música "Garota de Ipanema" não há a palavra "garota"! Não levou os pontos e ainda ficou com cara de tacho.
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Rocinha
Ontem faltei a uma reunião com o secretário de Segurança, Anthony Garotinho. "Ainda bem", diz um amigo. Mas a causa era nobre. O Viva Rio solicitou a audiência para pedir mais atenção à Rocinha, que tem sido vítima de maus policiais e continua sob risco de ser invadida. Como faço parte do conselho, deveria ter ido. Ainda não sei no que deu o encontro, mas a razão de minha ausência tem nome e sobrenome: Chico Buarque. Mais tarde explico.
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Terça-feira, Junho 01, 2004
Anti-estrela
O celular toca no sábado, em pleno jogo de basquete. Interrompo a pelada e ouço a voz firme no aparelho:
- Mauro, é Fernanda. Estou ligando para mandar um beijo e pedir desculpas por não ter conseguido me despedir direito. Eu não tinha seu número, mas consegui com a assessora de imprensa do filme, espero que você não se importe.
Importar-me, eu, um reles repórter, quando do outro lado da linha estava simplesmente a maior atriz brasileira, que se deu ao trabalho de me localizar para pedir desculpas? Fernanda só podia estar brincando.
Na véspera, eu tinha estado em seu apartamento, em Ipanema, para escrever um perfil. Afinal, Fernanda, para variar, rouba a cena no filme "O outro lado da rua". O papo estava bom, demorei-me mais do que devia na entrevista e os repórteres da Vejinha e do jornal O Dia já estavam esperando a sua vez. Ela teve que ir trocar de roupa - para não aparecer com a mesma camisa em todas as fotos - e não conseguiu se despedir direito.
Por isso, a ligação com pedido de desculpas de Fernanda Montenegro, a anti-estrela por excelência. Aos 74 anos, a atriz exibe uma vitalidade incomum. Vai estar em três filmes este ano e não pensa em fazer plástica.
- Nos anos 70, passei por uma pequena cirurgia debaixo dos olhos. Mas não mexi mais. Quem quiser, é isso aqui mesmo. Mais que isso ou menos que isso não tem - brinca. - Deixa a papadinha descer, deixa os olhos empapuçados, porque se você vai fazendo puxadinhos durante a vida chega toda esticada na velhice. Com o tempo, o corte debaixo do queixo já está na garganta, quando vira de perfil tem um treco que te puxa, e você ali, com a ilusão de que ninguém está percebendo.
Quem quiser ler a reportagem que saiu no Segundo Caderno pode clicar aqui.
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Dicionário de sexo
Não sou nenhum especialista no tema, mas já tinha ouvido falar de alguns comportamentos sexuais considerados anormais, como zoofilia (ou bestialismo, que é sexo com animais), necrofilia (sexo com cadáveres) e incesto (sexo com parentes). O que não imaginava era que houvesse tantas variações, como está descrito num artigo do advogado Heitor Piedade Júnior, incluído no livro "A violência silenciosa do incesto".
Senão vejamos: erotomania (ilusão delirante de ser amado), erotografia (satisfação incontrolada de escrever sobre sexo), gerontofilia (atração sexual patológica por idosos), riparofilia (atração sexual pelo corpo e por órgãos genitais sujos), mixoscopia (tendência patológica de olhar os órgão genitais), cromoinversão (a pessoa só consegue ter ereção com indivídios de outra cor), etnoinversão (atração sexual por pessoas de raças diferentes), pigmalionismo (satisfação da libido por meio do uso de estátuas, geralmente feitas pelo próprio sujeito), vampirismo (atração sexual com a sucção do sangue do outro) e triolismo, que na verdade é o famoso suíngue ou ménage à trois. O DizVentura também é cultura - ainda que sexual.
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Atrás da criança
Devo ser um monstro insensível. Dormi - não de roncar, mas quase de suspirar - no Mummenschanz. A idéia do grupo suíço é "buscar a criança que está em algum lugar dentro do adulto" e fazer do palco um espaço lúdico que se contraponha à massificação da vida contemporânea. Não achei a tal criança. Tinha visto o espetáculo nos anos 70 e confesso que as lembranças eram as melhores possíveis. Não sei se foi por isso - é sempre um risco rever algo décadas depois - ou se foi porque meu olhar já está mais habituado aos truques e às ilusões, mas o certo é que achei um tédio só. Não desisti de buscar a tal criança, mas definitivamente não foi no parque de diversões do Mummenschaz que a achei.
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