DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Sexta-feira, Agosto 27, 2004
 
Caranguejola

Fernanda Montenegro enfrentou de carro a viagem entre São Luís e Santo Amaro. São mais de cinco horas e é tanto sacolejo que a cabeça bate no teto da caminhonete. Ela não quis ir de helicóptero, emprestado pela polícia do Maranhão.

- A gente não deve desafiar os deuses. Todo dia cai uma caranguejola dessas.
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Crimes

Em Lençóis, descobri que existe um crime chamado molestamento de cetáceos. Um repórter está sendo processado porque o barco onde estava bateu numa baleia em Abrolhos.

Ficamos hospedados em Santo Amaro, cidadezinha que é o ponto mais próximo do Parque Nacional. Dizem que o candidato da situação à prefeitura - o atual vice-prefeito - é semi-analfabeto. Outro candidato a prefeito tem o slogan: "Nunca uma novidade teve tantas novidades." Pior é um candidato a vereador. Seu nome? Pau-de-Cebo.

O português, de fato, é um tanto quanto maltratado em Santo Amaro. Um cartaz anuncia os serviços de Elenide: "Manicuri e pedicuri". Na farmácia, a atendente diz: "A gente já tinha visto falar." Mas há expressões que são simpáticas. O rapaz me conta: "De carro, são 40 minutos. Mas de pés é longe."
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Incompetência

A viagem para Lençóis Maranhenses foi a trabalho: acompanhar as filmagens do novo longa-metragem de Andrucha Waddington, que tem no elenco sua mulher - Fernanda Torres -, sua sogra - Fernanda Montenegro -, além de Luiz Melodia, Stênio Garcia, Seu Jorge, Emiliano Queiroz (o Dirceu Borboleta de "O bem amado") e Enrique Diaz.

Não costumo levar muita coisa em viagem, mas como não sabia o que ia encontrar, entulhei a mala de roupa. Ia ficar apenas três dias naquele deserto à beira-mar do Maranhão, mas resolvi ser precavido. Achei que tinha exagerado na dose quando encontrei no aeroporto o repórter da revista "Variety", que carregava uma pequena sacola, contrastando com minha pesada mala. Tudo bem, pensei, melhor pecar por excesso.

Só na hora de dar um mergulho numa das inúmeras lagoas da região é que percebi que faltava um item básico na minha bagagem: calção de banho. Mais tarde, ao trocar de roupa, nova descoberta: não tinha levado cuecas nem meias. Isso é que é saber fazer mala.
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Injustiça

Volta e meia a gente ouve alguém falar no risco de o Brasil virar uma Colômbia. Com isso, queremos dizer que a violência está num nível tão grande e a droga está tão disseminada que o país vai se tornar semelhante a seu colega de América do Sul.

Trata-se de uma injustiça. Injustiça com a Colômbia, como se pode ler no Dossiê Violência, no site da BBC Brasil. Uma das reportagens fala sobre a capital colombiana, Bogotá. Em nove anos, ela reduziu a taxa de homicídios de 70 para 24 por 100 mil habitantes, que era o nível do Rio em 1983, antes da onda de violência que nos inundou.

Uma combinação de reforma da polícia somada a políticas sociais, controle de armas, controle do álcool e mobilização da opinião pública através de campanhas tornou possível a mudança. Ou seja, há solução.
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Quinta-feira, Agosto 26, 2004
 
Dose tripla

No fim de semana, saíram finalmente as três matérias que tive de fazer ao mesmo tempo. Uma que falava de Olga Benario, outra referente ao novo filme de Andrucha e a terceira, sobre livros digitais. Quem quiser ler pode clicar aqui.
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A velha

Achei que o nome Lençóis Maranhenses fosse devido ao lençol freático na região - as águas ali correm muito próximas da superfície. Mas não. O nome é porque o lugar, com suas dunas de areia, parece um imenso lençol sendo estendido na cama. O motorista que nos guia na caminhonete diz que trabalha muito.

- Eu tomo conta da velha - explica, referindo-se à mãe.

E quantos anos ela tem.

- 43.

Senti-me subitamente envelhecido.
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Lençóis

Dá trabalho chegar a Lençóis Maranhenses. É preciso pegar um avião até Brasília, trocar de aeronave, seguir viagem, parar em Fortaleza e ir até São Luís. Acabou?

Longe disso. Após a viagem aérea, é hora de pegar a estrada. De van, passamos por um ponto chamado Sangue - o nome se deve ao rio de águas muito escuras que corre por ali - e chegamos a Morros. Ali, é preciso trocar de carro e pegar uma caminhonete com tração 4 por 4. A Toyota corta as areias e lagoas da região - tem hora que a frente do carro quase desaparece nas águas.

Voltar também é trabalhoso. Levei 20 horas para sair de Lençóis e chegar ao Rio. Como fui de Gol, tive uma overdose de amendoim - refeição-base dos vôos da empresa.

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Vidas em português

Vi ontem o filme "Língua - Vidas em português", de Victor Lopes, que mostra como a língua portuguesa resiste, renova-se e se reinventa diariamente ao redor do mundo. Só estréia no dia 22 de outubro, mas selecionei alguns depoimentos em primeira mão:

Um dos entrevistados é o escritor José Saramago, que fala do empobrecimento do vocabulário: "Parece que estamos num processo de involução, em que estamos a voltar às cavernas. Se calhar, qualquer dia, para dizer a uma mulher que se gosta dela, somos capazes de dizer grunpff. E ela ficará muito contente porque lhe disseram desta maneira, um pouco estranha, que é amada."

Outro entrevistado é um rapaz que trabalha como sapador, desativando minas em Moçambique, instaladas durante a guerra civil de libertação do país: "Um sapador é a linha de frente de todo esse processo. É ele que, centímetro a centímetro, metro a metro, vai desbravando o mato. Tenho aqui a minha máquina detectora. Que serve para me auxiliar nos trabalhos de desminagem. Confio muito mais nessa detectora, é uma boa máquina. Considero muito mais, parece que é a minha própria esposa. Ela nunca me enganou e é por isso que quem trabalha com ela trabalha com toda a confiança." O curioso é que após explodir algumas bombas e limpar uma área, ele e os amigos aproveitam o campo para disputar uma animada partida de futebol, numa bonita celebração à vida.

Tem um depoimento igualmente interessante, de um militar que também trabalha na desativação de minas, um emprego arriscadíssimo. Ele conta como foi sua inscrição no serviço: "Quando cheguei para entrar neste programa, o primeiro choque foi quando preencho os papéis para me registrar. A primeira pergunta é:
- Em caso de acidente a quem contactar?
A segunda é:
- Em caso de morte para quem vai a compensação?
E só a terceira é que perguntam como é que se chama."

No filme, o escritor João Ubaldo Ribeiro fala da contaminação do português: "Nós estamos importando não só vocabulário mas também a sintaxe americana. A maneira de pensar americana, a maneira de colocar o raciocínio. Isso é que é gravíssimo. Hoje você encontra a composição do futuro no Brasil, pelo menos na juventude, como se o nosso futuro fosse composto. 'Eu vou sair', quer dizer 'eu saírei'. Mas 'eu vou ir' é um pouco demais, né? Você ouve 'porque nós vamos ir na festa depois, primeiro nós vamos ir no cinemá'. We will go."

O cantor Martinho da Vila toca numa tecla parecida, ao falar da influência americana: "Estados Unidos, Nova York, Miami, esses lugares você encontra em qualquer lugar do mundo. Quer dizer, você viaja pro mesmo lugar. Você não precisa de Miami pra ter as coisas que tão em Miami. Tão aqui, estão em todo lugar, na Europa toda. Agora, se a pessoa viaja pra Cabo Verde, que é um arquipélago riquíssimo, bonito, com uma cultura fantástica e de uma beleza extraordinária, a pessoa vai pra outro lugar."

Por fim, o líder do grupo Madredeus fala das sutilezas do português: "O mal de amor, na nossa sociedade, na sociedade da Língua Portuguesa, é uma coisa que o indivíduo tolera. E chegamos então a essa chave extraordinária da vida que é a saudade. A idéia de saudade, que é essa autorização que conferimos a nós próprios pra ficar tristes. Se tivermos razões para isto."
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Quarta-feira, Agosto 18, 2004
 
Anda um pouquinho, pára um pouquinho...

Jornalismo tem dessas coisas. Estou escrevendo ao mesmo tempo três matérias: uma sobre a Era Vargas, outra sobre livros pela internet e uma terceira sobre o novo filme de Andrucha Waddington.

Falo um pouquinho sobre Getúlio, paro; escrevo algo a respeito dos e-books, interrompo; digito um tantinho sobre Fernanda Montenegro, suspendo; e volta tudo novamente.

Isso tudo em meio a televisões aos berros transmitindo Olimpíadas, a telefones tocando ininterruptamente e a um sono devastador, fruto de noites em claro. Preciso urgentemente de férias.
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Terça-feira, Agosto 10, 2004
 
Paradão

Uma amiga me escreve:

- Tenho uma coisa pra te contar. Achei o homem da minha vida na semana passada. Um cara sólido, mais velho, reflexivo. É estrangeiro. Acho ele um pouco caladão, meio parado pro meu gosto, mas a gente se acostuma a tudo quando existe uma disposição, não é mesmo?

Já estava pronto para dar os parabéns quando chegaram as fotos dela ao lado do novo "namorado": "O pensador", de Rodin. Aliás, tive que escrever às pressas uma materinha sobre a estátua, enquanto fechava dez páginas de caderno. Quem quiser ler pode clicar aqui.

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Segunda-feira, Agosto 09, 2004
 
Macumba

O rapaz me conta que tem uma lista com os prédios do Rio que merecem ser implodidos. O do Mourisco, em Botafogo, é um dos candidatos mais óbvios em qualquer lista sobre o assunto. Os que enfeiam a orla da Lagoa também deveriam ir abaixo, diz ele. O Rio Sul é outro que não escaparia da degola.

São muitos os mostrengos que atrapalham a vida do carioca, graças principalmente ao construtor Sérgio Dourado e ao ex-prefeito Marcos Tamoyo, que ele prefere chamar de Tramoyo. Mas, para um amigo meu, nenhum merece tanto desabar como o que hoje abriga a loja de importados Brasif, no Leblon.

Há questões sentimentais envolvidas. Ali ficava o Real Astória, templo da boemia nos anos 80. Ele não saía das mesas do restaurante - fartas, diz a lenda, de uísque e de cocaína. Quando o RA, como era conhecido, acabou, ele liderou piquetes contra o fechamento. No lugar, botaram uma filial da Pizza Hut, que mais tarde fechou e deu lugar à importadora.

- Eles encheram o Pizza Hut de luz, para afastar os boêmios. Mas a vampirada toda se mudou para o Jobi - lembra ele. - Até macumba contra a pizzaria fizemos. E deu certo.

Esqueci de perguntar se ele tem planos de usar a macumba contra o Brasif.
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Direito de ir e vir

O melhor de "Olga" não é a atuação de Camila Morgado nem a direção de Jayme Monjardim. É a reconstituição histórica e a direção de arte do filme. A trama se passa no Brasil, na Alemanha, na União Soviética e na França, mas foi toda rodada no Rio. O campo de concentração, por exemplo, foi feito na antiga Fábrica Bangu. E no dia em que neva na tela - a base de gelo seco e xampu - estava fazendo 42 graus na vida real.
O marido da minha prima, Gilson, foi o cenógrafo do filme. A produção contratou um sobrevivente do Holocausto para dar consultoria às filmagens. Gilson viu que eles tinham acertado a mão no dia em que o homem visitou o campo de concentração cenográfico. Ele ficava entrando e saindo a toda hora do campo. Até que Gilson perguntou o que ele tinha achado. A resposta:

- Gostei daqui. A gente pode entrar e sair a hora que quiser.
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Segunda-feira, Agosto 02, 2004
 
Dia-a-dia na redação

Quem desconhece o dia-a-dia da redação não tem idéia de como o acaso influencia as reportagens que saem publicadas. Ele manda muito mais que o dono do jornal. Para desânimo dos que acreditam em teorias conspiratórias, a sorte, a coincidência, a falta de espaço, o excesso de espaço, o anúncio que chega na última hora, o publicidade que é cancelada no último instante, tudo isto tem um peso muito grande.

Um exemplo, entre tantos que acontecem semanalmente: fui entrevistar Daniel Filho sobre sua participação como ator no filme "Querido estranho". Conversamos por mais de duas horas. Ele falou coisas interessantes. Disse que foi proibido de atuar pela Globo - não pôde fazer sequer uma participação numa novela -, contou que o maior problema da televisão é a falta de concorrência à TV Globo e revelou que perdeu espaço na Globo Filmes.

Material de primeira. Mas me bateu a dúvida: será que daria para publicar? Soube que não haveria qualquer problema. Só que na hora de escrever a matéria acabei preferindo me concentrar na atuação de Daniel Filho em "Querido estranho". Decisão minha, e só minha, motivada por várias razões: o espaço não era tão grande; o gancho era o filme; a matéria ficava mais redonda abordando ele como ator etc. Mas vai explicar que não houve nenhum tipo de proibição ou veto...
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