DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Terça-feira, Setembro 28, 2004
 
Peruas

Anteontem falei dos bicões aqui no blog. Uma amiga conta uma história curiosa. Há poucos dias, saiu no jornal uma nota anunciando a inauguração do Espaço Lundgren, a sofisticada loja que Regina Lundgren está abrindo em Ipanema, em frente à praia. No dia anunciado, havia uma fila de peruas, todas emperequetadas, tentando entrar no espaço.

- Perdi meu convite - dizia uma.

- Deixei o meu em casa - explicava outra.

- Ficou com meu marido, que vai chegar mais tarde - justificava-se uma terceira.

Só tinha um detalhe: a nota do jornal saiu errada e a data de inauguração ainda não está marcada. A assessoria de imprensa da loja ainda enviou nenhum convite. Ou seja, todas - todas, repito - aquelas peruas elegantérrimas que estavam fazendo fila nas ruas de Ipanema eram penetras.
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Segunda-feira, Setembro 27, 2004
 
Inteira

Vou ao cinema e a bilheteira pergunta:

- Meia ou inteira?

Examinei-me. Nenhum sinal de gravidez, apesar da barriga. O joelho anda baqueado, mas não chega a ser uma deficiência. Não sabia se sorria, com a perspectiva de ter sido confundido com um estudante, ou ficava triste, por ter sido enquadrado na categoria idoso.

Como já deixei de ser estudante há 17 anos e ainda faltam 19 para entrar na terceira idade, fiquei mesmo com a inteira.
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Domingo, Setembro 26, 2004
 
Esperança

Uma amiga se mudou para Campos, terra do senhor e senhora Garotinho. Escolheu uma locadora de vídeo - o que não foi difícil, pois todas têm o mesmo perfil - e descobriu desalentada que nas prateleiras só há quase filmes de ação, muitos deles dublados. Perguntou se havia algum Fellini na loja.

- Não conheço - respondeu a atendente.

- Federico Fellini, o diretor italiano.

A moça consultou o computador: F-R-E-D-E-R-I-C-O F-E-L-I-N-E.

Ela corrigiu:

- Federico Fellini. Sem o "erre", com dois "eles" e um "i" no final.

Não tinha, claro. Resolveu conversar com a dona, que foi sincera e confessou pouco entender de cinema:

- Você não quer me ajudar? É tão difícil escolher filme...

Não estranhem se daqui a algum tempo começar a aparecer Fellini, Scola, Visconti e Truffaut nas prateleiras de uma videolocadora de Campos.



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Blog

O lugar mais apropriado para encontrar bicão é em lançamento de livro. Muito simpático, o rapaz que foi na Livraria da Travessa no lançamento de "Blog: comunicação e escrita íntima na internet" elogiou os acepipes e as bebidas.

- O prosecco está uma delícia!

Assumiu-se como penetra, disse que não passa uma semana sem ir a um evento e confessou que o motivo principal é o bufê. Mas comprou o livro e fez questão de pedir um autógrafo da autora. Da próxima vez virá como convidado.

Tem muita gente que confirma a presença e não dá as caras. Mas é igualmente surpreendente os que aparecem a despeito de todos os empecilhos.

Como o amigo que veio de São Paulo, apesar do atraso de quatro horas no vôo - da Vasp, evidentemente. Ou o casal que, mesmo com três filhos, um recém-nascido, ficou até o final. E Ziraldo, que estava acamado, mas apareceu para pegar seu autógrafo. Preferiu levar uma bronca da mulher a faltar ao lançamento.
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Na livraria

- Você tem a "Antropologia de Fernando Pessoa"?

A livreira pacientemente perguntou se não se tratava da "Antologia de Fernando Pessoa". Outro cliente pediu:

- Você tem "Sete noites na Mongólia", de Bernardo Carvalho?

Aí a vendedora não resistiu:

- Não, mas tenho os livros "Nove noites" e "Mongólia".

Mas nem sempre é o cliente quem troca as bolas. O rapaz pediu "Raízes do Brasil", clássico do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, e a vendedora foi buscar na seção de... botânica.
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Quinta-feira, Setembro 23, 2004
 
Imperdível

Estão todos convidados para ir hoje à Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572), no lançamento do livro "Blog: comunicação e escrita íntima na internet", da Denise Schittine, a partir das 20h. É o primeiro estudo brasileiro sobre o assunto, extremamente bem escrito e pesquisado. Quem diz isso não sou só eu, e sim todo mundo que já leu. Apareçam!
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Humanos

A propósito da nota de ontem, um parente me lembra a história de um primo distante. Ele teve que comparecer ao tribunal, por um motivo que desconheço. Escapou de ir preso e comemorou a decisão do júri:

- Fui inocentado por humanidade!

Pode até ser que os jurados estivessem sendo humanos ao livrá-lo da cadeia, mas o que ele queria dizer mesmo é que tinha sido uma decisão unânime - ou humânime, sabe-se lá.
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Quarta-feira, Setembro 22, 2004
 
Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson

No Comunique-se, Moacir Japiassu fala de uma jornalista mineira que comentou um artigo viculado no site esses dias. Diz a moça:

- A desqualificação dos sindicalistas foi algo assustador. Mas continuo acreditando em uma célebre frase: "Toda a humanidade é burra."

Pobre Nelson Rodrigues - e pobres dos leitores da tal jornalista...

Quase tão engraçado foi o e-mail que chegou hoje, falando sobre o relacionamento entre Rodrigo Santoro e Ellen Jabour. Segundo a assessoria de imprensa, o namoro "vai de vento em polpa".

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Segunda-feira, Setembro 20, 2004
 
Manco

"Pega, pega!". Já nem me espanto mais com o grito, de tão corriqueiro. Desta vez, foi a vizinha do prédio ao lado, que teve a bolsa roubada no último domingo. O bandido puxava da perna, mas, até onde eu sei, o PM não conseguiu detê-lo.

- Se o policial fosse magrinho teria pego - lamentou meu porteiro.

Mas era daqueles PMs com barriga de nove meses. Balançou a pança, empunhou o fuzil e deu uma corrida frouxa atrás do ladrão, que escapuliu pelas ruas de Ipanema - mesmo manco.

- Esses PMs são muito gordos - criticou meu porteiro.

Tem toda razão.
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Sexta-feira, Setembro 17, 2004
 
Sorriso

Quem estava junto com Paula Lavigne na entrevista era o produtor e diretor Guel Arraes. Na hora das fotos, ele não queria sorrir. Justificou:

- A gente só sorri durante cinco por cento da nossa vida. Por que então em toda foto a pessoa tem que aparecer sorrindo?

Não sei de onde ele tirou a estatística. Só sei que acabou sorrindo na foto.
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Preju

No bate-papo com Paula Lavigne, ela mostrou que ainda está irritada com Fábio Assunção. O ator desistiu em cima da hora de filmar "O coronel e o lobisomem", sendo substituído por Selton Mello.

- Ele trouxe um atestado médico da psicóloga dizendo que não tinha condições de filmar. Só que foi fazer comercial em Veneza.

Paula diz que o "triquitriqui" de Fábio lhe custou R$ 300 mil.

- Só a barba que encomendei em Londres custou US$ 6 mil. Tive também que refazer os figurinos, que não cabiam no Selton. E paguei aula de montaria para os três meninos que interpretam o personagem em várias fases da vida. Quando mudou para o Selton, mudaram os atores-mirins. Além disso, as filmagens atrasaram uma semana, porque o Selton teve que se preparar para o papel.

Paula falou com o ator que ele teria que pagar o prejuízo. Negocia daqui, negocia dali, Fábio Assunção morreu em R$ 150 mil.
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De bandidos e piratas

Passei um par de horas na quarta-feira com a Paula Lavigne. É diversão garantida. De perto, Paula confirma a fama de braba e de não ter papas na língua. Conversamos sobre o filme "O coronel e o lobisomem", que ela está produzindo.

A mulher de Caetano Veloso falou também sobre o assalto de que foi vítima sua empresa, a produtora Natasha Filmes, instalada num prédio na Gávea. Os três assaltantes renderam 15 funcionários e agrediram uma produtora. Paula conseguiu se esconder no banheiro.

Na mesa de sua sala, há um fita adesiva. Ela explica:

- Foi deixada pelos ladrões. Eles trouxeram na mochila para tapar nossa boca, mas como ninguém gritou não foi usada.

E por que a fita continua aí?, perguntei.

- Já usei duas vezes. Uma vez botei na boca de uma assistente minha. Ela fala demais.

A outra vez ela relutou em dizer, mas acabou confessando que foi para fins sexuais - serviu para amarrar suas mãos. Ela contou que os ladrões levaram um computador, R$ 22 mil e uma câmera digital. A polícia encontrou os bandidos, mas o dinheiro sumiu. A câmera também. Paula revelou-me o que tinha na máquina. Pediu para não contar, mas como saiu hoje na coluna do Ancelmo, está liberado:

- Eram as fotos de still do filme "Meu tio matou um cara". Tinham várias fotos da Débora Secco nua.

Uma das peças publicitárias que ela mandou fazer para divulgar o filme traz a atriz com os peitos de fora, mas tapados por um título. Paula brinca que vai fazer uma raspadinha no título.

- Mais cedo ou mais tarde essas fotos roubadas vão vazar mesmo. É melhor eu me antecipar. O espectador pega o cartaz, raspa o título e vê os peitos da Débora.

Trata-se, claro, de uma brincadeira.

Paula, que também produziu "Lisbela e o prisioneiro", contou que estava com Caetano numa praia em Recife quando apareceu um garotinho anunciando um disco pirata:

- CD de "Lisbela" a cinco reais, CD de "Lisbela" a cinco reais.

Ela chamou o menino. Quando viu Caetano, ele se apavorou:

- Vixe Maria, ai meu Deus, eu não tenho nada a ver com isso.

A produtora pediu que ele se acalmasse e disse que queria apenas conversar. Perguntou se aquele era o disco que mais saía. Ele disse que não.

- O que vende mesmo é esse aqui.

E mostrou a ela o campeão de vendas no mercado das praias do Recife: um CD pirata de Caetano Veloso, reunindo faixas como "Odara", "Beleza pura", "Eclipse oculto" e "Você não me ensinou a te esquecer". Caetano olhou o CD e disse:

- Eu quero esse disco! Esse pirata tem um bom gosto enorme! Queria achá-lo para dar os parabéns.

E comprou seu próprio CD pirata por cinco reais.
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Terça-feira, Setembro 14, 2004
 
Bom papo

É difícil pôr o papo em dia num lançamento de livro, tantas as pessoas que você revê. Mal entabula uma conversa e vem aquele amigo que você está devendo um chope há anos. Engata um bate-papo e surge aquela figura vagamente familiar, que sabe tudo da sua vida - e você não tem idéia de quem se trata. Mais um pouco e aparece um grande amigo, brigado com sua grande amiga, que está a poucos passos de distância.

Você tem que se dividir pelos pequenos grupos, e pescar fragmentos de conversa. Ontem foi assim. Arthur Dapieve fez uma concorridíssima noite de autógrafos na Livraria da Travessa de Ipanema e reuniu gente da melhor qualidade. Uma amiga, assessora de imprensa, contava que estava sem dinheiro para pagar o tratamento dentário. Não se apertou: deu ao dentista uma pistola alemã dos anos 60. E ele aceitou, feliz da vida.

Marcos Sá Corrêa, jornalista do primeiro time, grande contador de histórias, falava de envelhecimento e comentava a façanha de passar dos 50 sem ter um fio de cabelo branco - bom, digamos que tem um ou outro.

- Fico com medo de ser que nem um tio meu. Ele era inteiraço, até que um dia simplesmente saiu do ar e sumiu. Ou seja, embranqueceu por dentro!

Difícil que isso aconteça com Marcos. Até porque seu pai, Villas-Bôas Corrêa, estava ali ao lado, aos 80 anos, esbanjando vitalidade. Eu me acho veterano no jornalismo, mas com Villas não dá para competir. Quando contei que sou do tempo da máquina de escrever (comecei uns bons cinco anos antes do computador), ele esnobou: lembrou como pegou a transição da escrita à mão para a máquina de escrever!

- Lembro que só eu e mais dois batíamos à máquina. Os outros repórteres todos escreviam à mão.

A noite, como não poderia deixar de ser, terminou no Jobi.
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Segunda-feira, Setembro 13, 2004
 
Que Hollywood o quê

O Rio está caidinho, caidinho, mas ainda mostra fôlego em algumas áreas. O estado continua líder do audiovisual no país, como mostra uma reportagem que fiz esses dias.

Conversei com muita gente, mas, por problemas de espaço, saiu uma frase de cada entrevistado. Quem mais falou foi o produtor Luiz Carlos Barreto. Vale a pena ler o que ele tem a dizer sobre o assunto:

- O Rio é uma cidade que teve a grande felicidade de não se industrializar e se tornou a capital da indústria criativa do Brasil. O termo engloba atividades como cinema, música, moda, turismo e carnaval. É o crème de la crème da indústria, porque não polui e emprega gente e não apenas máquinas. Está todo mundo correndo atrás disso. Mas é algo que acontece de maneira espontânea, sem mecanismo de apoio. Não houve nenhum governo que planejasse isso. Lembro que eu estava em Los Angeles quando a Amy Irving (atriz que é casada com seu filho Bruno Barreto) me levou para visitar as filmagens de "Hook", dirigido por seu ex-marido, Steven Spielberg. Fiquei impressionado. Uma semana depois, levei-a para assistir ao desfile das escolas de samba do Rio. Ela me disse: "Você estava embasbacado com as filmagens em Los Angeles, mas isto aqui é dez mil vezes mais exuberante e criativo do que o que a gente viu em Hollywood!". O Rio deveria desenvolver ao máximo a vocação natural da população, que é a indústria criativa. Deveria, por exemplo, aproveitar o poder criativo do pessoal do samba, para que fosse uma atividade permanente e não sazonal. Deveria fazer um mapeamento desses núcleos produtores. O Rio também poderia ser um centro gastronômico fantástico, desenvolvendo a culinária marítima. Mas, infelizmente, os governantes preferem ficar envolvidos com factóides a aproveitar a capacidade inventiva da população

Disse tudo o Barretão.
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