Sexta-feira, Outubro 29, 2004
Advogado não deixa
Volta e meia alguém me pede para ler e dar minha opinião sobre um texto - originais de um livro, artigos, releases etc. Acho-me pouco indicado para a tarefa, mas aceito. Sofro, deixo para a última hora, viro a madrugada, pergunto-me porque aceitei, mas, envaidecido, acabo lendo e dando meus pitacos.
Na mesa de meu chefe, empilham-se pedidos semelhantes. Ele vivia às voltas com os mais variados apelos, e não sabia como recusá-los. Mas agora não aceita nenhum. Diz simplemente: "Meu advogado não permite." Como assim?
Ele me explicou que aprendeu com os americanos, claro. É que toda hora tem um processo nos Estados Unidos por plágio. O sujeito envia os originais para alguém, esse alguém lê e anos mais tarde escreve algo. Mesmo que os textos só tenham remotíssimas semelhanças, o camarada entra com um processo por plágio e a história vai parar nos tribunais.
Se acontece isso ou não, não sei, mas a desculpa tem dado certo. Da minha parte, vou continuar lendo.
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Sexta-feira, Outubro 22, 2004
Macaquices
O show do Village People no Circo Voador foi uma das mais desastrosas estratégias de marketing dos últimos tempos. Cada ingresso custava R$ 120, o que desanimou muita gente.
Quando viram que ia micar, os produtores distribuíram filipetas em toda cidade dando desconto de 50%. Mesmo assim, o estrago já estava feito.
No dia do show, a surpresa: o preço na bilheteria caiu para R$ 60, independente de se apresentar a filipeta. Quem pagou R$ 120 deve ter ficado uma fera. Ainda mais porque os cambistas estavam oferecendo a... R$ 50.
O show foi uma delícia. Depois de ver Gloria Gaynor na Le Boy, Donna Summer no Maracanãzinho e Village People no Circo Voador, só ficava faltando o Abba se juntar de novo e vir ao Brasil. Aí ia ser a glória.
Pena que o espetáculo tenha sido curto - menos de 50 minutos. Mas foi tão divertido que até os metaleiros que tinham ido ver Sepultura na vizinha Fundição Progresso ficaram do lado de fora, na grade, dançando e balançando a cabeleira.
A certa altura, um dos integrantes do Village People avisou que ia ensinar a coreografia de "YMCA". Ué, mas todo mundo não sabe? Aí é que está. Ele mostrou que, ao contrário do que se pensa, o M não se faz com os braços nos ombros ("parece macaco", ironizou) e sim na altura do peito. Passei 26 anos dançando que nem macaco e não sabia.
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Ohio
Os comentaristas americanos têm dito que o estado de Ohio pode definir a disputa presidencial nos Estados Unidos. Só falta Bush levar. Ohio que o partam.
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Sexta-feira, Outubro 15, 2004
Adeus
A segunda-feira começou bem. Recebi um convite para desfrutar de graça de uma massagem no Nirvana, o belíssimo espaço zen que foi inaugurado no Jóquei. Havia várias terapias à escolha do freguês.
Escolhi uma de nome jet leg, indicada para casos de estresse. O massagista - desculpe, massoterapeuta - era uma fera. Durante uma hora, deu um jeito neste corpinho maltratado pelo tempo e pelos maus hábitos. Saí de lá levitando e morrendo de sono. Quase fui para casa dormir.
Mas, trabalhador que sou, segui para o jornal. Cheguei relaxado e sereno. Até que o telefone tocou. Era o meu pai, com a voz triste.
- Fernando morreu.
Fernando era Fernando Sabino. O resto do dia, como vocês podem imaginar, foi bem diferente. Fui escalado para escrever o obituário. É complicado fazer o funéreo de um amigo. Um pouco para pegar informações, um pouco para fugir da tarefa, fui para o velório. Havia vários outros repórteres no local. O único de cultura era eu. Tinha gente que ia sair dali e correr para a favela de Vigário Geral, onde tinha havido um tiroteio. Outros já estavam na terceira matéria do dia e ainda iam se incumbir de mais duas.
- Aqueles dois ali são o jornalista Wilson Figueiredo e o escritor Moacyr Werneck de Castro - informei eu a uma repórter, que me pediu ajuda, apontando os dois.
- Moacyr, posso falar com você? - disse ela para Wilson.
Outro repórter perguntou:
- O Hélio Pellegrino mora no Rio ou em Minas?
- Mora aqui - respondi.
Afinal, ele morreu em 1988 e está enterrado no cemitério São João Batista, onde estávamos.
O escritor Alcione Araújo lembrava o dia em que estava com o cineasta Arnaldo Jabor no enterro do diretor Joaquim Pedro dos Santos e uma repórter aproximou-se e falou:
- Vocês podem dar uma geral do cara que morreu?
Jabor bufava.
De volta à redação, não pude mais adiar o trabalho e tive que escrever o texto, que pode ser lido aqui. Saí do jornal à uma da manhã, com a cabeça doendo e a mente cheia de lembranças de Fernando.
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DizVentura também é cultura
Na quinta-feira retrasada, fiz uma brincadeira aqui no blog e disse que o Leblon devia mudar o nome para Lebronx. Quatro dias, saía a mesma história na coluna do Joaquim. Alguém deve ter visto o trocadilho aqui no DizVentura e passou para o Joca - sem contar que tinha lido aqui, é claro. Tudo bem. No domingo, na coluna do Agamenon também sairá que o bairro devia se chamar Lebronx.
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Quinta-feira, Outubro 07, 2004
Floreando
Virou moda mudar o nome das profissões para dar, pretensamente, mais glamour ao ofício. Assim, maquiador agora é make-up stylist. Recebi um e-mail com sugestões engraçadíssimas para florear a profissão:
- Especialista em Marketing Impresso (boy do xerox)
- Supervisor Geral de Bem-Estar, Higiene e Saúde (faxineiro)
- Oficial Coordenador de Movimentação Interna (porteiro)
- Oficial Coordenador de Movimentação Noturna (vigia)
- Distribuidor de Recursos Humanos (motorista de ônibus)
- Distribuidor de Recursos Humanos VIP (motorista de táxi)
- Distribuidor Interno de Recursos Humanos (Ascensorista)
- Diretora de Fluxos e Saneamento de Áreas (a tia que limpa o banheiro)
- Especialista em Logística de Energia Combustível (frentista)
- Auxiliar de Serviços de Engenharia Civil (peão de obra)
- Segundo Auxiliar de Serviços de Engenharia Civil (coitado...)
- Especialista em Logística de Documentos (office-boy)
- Especialista Avançado em Logística de Documentos (motoboy)
- Consultor de Assuntos Gerais e Não Específicos (vidente)
- Técnico de Marketing Direcionado (distribuidor de santinho em esquinas)
- Especialista em Logística de Alimentos (garçom)
- Coordenador de Fluxo de Artigos Esportivos (gandula)
- Distribuidor de Produtos Alternativos de Alta Rotatividade (camelô)
- Técnico Saneador de Vias Públicas (gari)
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Apareceu o hífen
Acompanhei uma entrevista coletiva do ministro da Cultura, Gilberto Gil - é impressionante como ele fala, fala e não diz nada - e escrevi uma matéria sobre o assunto. Na mesma reportagem, falei que o secretário do Audiovisual, Orlando Senna, anunciou uma co-produção franco-brasileira sobre Santos Dumont.
No dia seguinte, quando vejo a matéria impressa, está lá: Santos-Dumont. Alguém tascou o hífen no meio do nome. Não deu outra. Luiz Garcia, que faz a crítica interna do jornal, reclamou, em sua mensagem para toda a redação, a presença indevida no meio do nome do aviador. Sobrou para mim.
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Apelido
Com a alta de violência no bairro, o Leblon está merecendo mudar de nome para Lebronx.
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Segunda-feira, Outubro 04, 2004
Bombas
Minha contabilidade do Festival do Rio está quatro a dois. Quatro bombas e dois filmaços. E teve mais um - "18-J" - mediano. As bombas foram "A história de Marie e Julien" (chato e pretensioso), "9 canções" (vai entender porque foi feito), "Perigosa obsessão" (caricato e com uma atriz brasileira, Carol Castro, numa atuação inacreditável) e "Anoitecer vermelho" (descosturado). Os elogios vão para "Wilbur quer se matar" (impactante e sensível) e "Descrença".
Escrevi sobre "Descrença" no domingo. É um documentário russo que fala de um atentado a bomba em um prédio em Moscou, em 1999, que matou 92 pessoas. As autoridades puseram a culpa nos terroristas chechenos, mas o filme levanta a dúvida: terá sido mesmo obra dos separatistas ou por trás do atentado está o governo russo, interessado numa invasão à Chechênia?
À primeira vista, fica difícil acreditar que as próprias autoridades mataram civis indefesos para justificar uma guerra. Mas no fim da projeção ficam fortes suspeitas de que a explosão foi mesmo planejada pelo governo russo. Um checheno chegou a ser preso acusado do atentado. Ele confessou a culpa. O filme mostra como isso aconteceu. Mesmo torturado, ele não assinou a confissão. A polícia mudou de estratégia. Disse que ia pegar sua mulher, na época grávida, e seus dois filhos, levar para o meio dos parentes das vítimas e avisar:
- Esta aqui é mulher do homem que explodiu o edifício.
Ele teria que ficar no carro vendo sua mulher e seus filhos serem linchados pela multidão. Diante de um argumento desses, ele achou por bem confessar. Três meses depois, quando ficou comprovada sua inocência, foi solto. Até hoje os culpados não foram identificados.
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As aparências enganam
Visitei o set de filmagens de "O coronel e o lobisomem". Havia um galo, que contracenava com o ator Diogo Vilela. Contracenava não é bem modo de dizer, porque ele fazia tudo errado. Nos ensaios, comportava-se direitinho, mas, na hora em que o diretor gritava "ação!", ele empacava. Um sufoco.
Tem tanto animal no filme que foi contratado um treinador. O nome dele: Carlos Cavalo. Imaginei que Cavalo fosse apelido e não sobrenome. E era. Comentei que fazia sentido, dada a sua profissão de adestrador de bichos. Mas não tinha nada a ver. O apelido é por causa do rabo de cavalo do rapaz.
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Sexta-feira, Outubro 01, 2004
Lobisomem
Esqueci de pôr o link para a reportagem sobre o filme "O coronel e o lobisomem", que saiu no dia 20 de setembro, no Segundo Caderno. Aqui está.
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Ufa!
Meu chefe pediu que eu juntasse os dez cineastas brasileiros que estão concorrendo na Première Brasil do Festival do Rio para um bate-papo. Felizmente, sete moram no Rio - só dois vivem em São Paulo e um, em Brasília. O jornal não dava passagem, vinha quem pudesse.
Foi difícil achar todo mundo e conciliar as agendas. Na hora H, eu só tinha cinco confirmados. Metade do total. Cheguei ao local da entrevista desanimado, mas - aleluia, aleluia! - apareceram oito dos dez diretores. Não foi fácil organizar a conversa. Uns falam demais, outros, de menos. E tinha gente que só queria fazer a foto.
No fim das contas, deu tudo certo, como se pode ver nesta reportagem aqui.
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Bebuns
Numa festa, passei um tempo batendo papo com um policial civil. Ele contou histórias curiosas sobre a profissão. Diz que sempre que está numa blitz e vê um carro com um plástico do tipo "Deus é fiel" manda parar.
- Tem muito bandido que usa para disfarçar. Ou porque de fato acredita.
Ele contou a roubada que é dirigir bêbado e ser parado pela polícia.
- Se o policial desconfiar que você está bêbado, manda-o fazer um exame no Instituto Médico Legal. Se ficar comprovada a embriaguez, você vai ser autuado e, para escapar da prisão, tem que pagar uma fiança de R$ 1.200. Em dinheiro. Imagine que seja de noite, depois que fecharam os caixas eletrônicos. Você não vai ter dinheiro vivo e vai parar na cadeia. Até resolver as questões burocráticas, pode levar uma semana. Certa vez, um rapaz me ofereceu um rolex verdadeiro em troca dos R$ 1.200. Uma pechincha. Mas eu não tinha o dinheiro.
Claro que há sempre a possibilidade de acerto com o guarda.
- Além disso, nem sempre compensa para o policial autuar a pessoa. Ele vai ter que ir ao IML, depois à delegacia. Nisso tudo, pode perder umas oito horas. Imagine a quantidade de "dez reais" que um policial corrupto deixa de ganhar nesse tempo...
Ele sabe que há muitos colegas bandidos. Tanto que também tem medo de ser parado à noite pela polícia. Que dirá nós, pobres mortais.
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