DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Sexta-feira, Novembro 26, 2004
 
Adoráveis canalhas

Carlos Heitor Cony, Geraldinho Cardoso, Ruy Castro, Aldir Blanc e Marcelo Madureira lançaram o livro de contos "Meu querido canalha". Cada um deles criou um personagem canalha - daqueles que não poupa nem mulher de amigo - e escreveu um dos contos do livro. Aproveitando o lançamento, resolvemos juntar os cinco para um bate-papo no Bar Lagoa.

O resultado saiu publicado no último domingo no Segundo Caderno. Quem quiser, pode ler aqui.

A conversa durou duas horas e meia, e os cinco desandaram a falar sacanagem. Muitas coisas não entraram na reportagem. Eis os melhores momentos do que ficou de fora:

Marcelo Madureira, humorista: "O canalha é um espada convicto e praticante. Não conheço nenhum viado canalha. Nem canalha viado."

Ruy Castro, jornalista e escritor: "O canalha é um profissional que se dedica a pensar em coisas que não passam pela cabeça dos não-canalhas. Por exemplo: o que fazer com o pentelho que fica na sua boca no melhor da festa? A única solução é engolir. O canalha se preocupa com esse tipo de questão." (nessa hora Aldir entrou na conversa e falou: "O canalha tenta num momento inicial achar que é fiapo de manga.").

Aldir Blanc, letrista e escritor: "Lá no bar onde eu modestamente bebo os sujeitos anotam os dados das mulheres que aparecem. Por exemplo: bunda (com vestido) azul e sapato alto. Porque numa masturbação futura isso ajuda a reviver a lembrança."

Madureira: "Estou com uma coisa aqui na cabeça. Nós estamos aqui falando de canalhas e enquanto isso nas nossas casas deve ter algum canalha comendo nossas mulheres."

Geraldinho Carneiro, poeta: "Uma cena acabou de me ser relatatada por uma mulher muito bonita. No sábado passado, ela vinha chegando da praia e passou por um bar com uns 30 caras. Quando ela vinha passando, houve um aplauso espontâneo. Ela foi aclamada. Só vi acontecer essa cena no Rio ou em Roma." (nessa hora Cony completou: "Em Roma, você entra naqueles metrôs vagabundos e até bunda de homem eles pegam. É impressionante.")

Madureira: "Meu canalha favorito é o Carlos Imperial. Uma vez uma mulher chegou para ele e disse: 'Não entendo você. Um cara tão legal, tão gente boa, e faz questão de manter essa imagem de cafajeste, de mau caráter. Por que você é assim?' Ele falou: 'Minha filha, se eu não for assim eu não vou comer ninguém.'"

Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor: "Tem um jogador antigo, o Carreiro, que começou no São Cristóvão e era um canalha. Ele tinha uma habilidade impressionante de botar o dedo no cu dos outros jogadores. Não jogava futebol, nem nada, mas tinha um dedo duríssimo e grande. Ele pulava e bum! O outro jogador reclamava e muitas vezes o juiz expulsava o cara errado."

Madureira: "O arcebispo de Boston é um canalha. Ele galgou degraus na hierarquia do Vaticano só para comer garoto na sacristia." (nessa hora Geraldinho complementou: "É um canalha metafísico." O humorista devolveu: "Não, é um canalha metofísico.")

Aldir: "Toda vez que vou ao (restaurante) Capela começo a pedir várias misturas. Quando chegou em casa doidão, implico com o abajur: 'Que é esse cara?' Aí levo uns tapas da minha mulher."

Ruy: "Uma vez namorei uma dentista bonitinha à beça. Mas com um cheiro de clorofenol..."
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Atropelada por um Fusca

Enquanto espero a hora da fisioterapia - para curar uma tendinite no ombro - folheio o jornal e presto atenção na conversa ao lado. Duas pacientes também aguardam a vez.

Uma delas, dentista, conta para a outra as diferenças entre seu consultório em Copacabana e em Nova Iguaçu.

- Nova Iguaçu é outro mundo. Tem paciente que fala: "Dôtora, tô com pobrema na gengiba." Outra dia um chegou e disse: "Quando custa a distração?". Eu tive que brincar: "Distrair o dente custa baratinho, agora a extração custa mais caro." Mas o melhor foi um senhor que contou seu problema. Ele disse que tinha espirrado e a prótese dentária superior saiu da boca. Ela foi parar no meio da rua e acabou atropelada por um Fusca! Dito isso, o homem tirou a prótese do bolso, mostrou as marcas de pneu e perguntou se eu não podia colar com superbonder! Só rindo.
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CAT

Na mesa ao lado, duas meninas conversam.

- Estou feliz da vida. Instalei a CAT lá em casa. Agora posso ver o People & Arts.

Diante da cara de estranhamento da amiga, a jovem explicou.

- É que arrumei um técnico que fez um gato e instalou a NET lá em casa. Como é uma ligação clandestina, não pago nada. Em vez da NET, tenho a CAT (gato, em inglês).

O procedimento da moça é para lá de condenável, mas o trocadilho até que é curioso.

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Sexta-feira, Novembro 19, 2004
 
Se não avisasse...

Título do jornal "Extra" do último domingo, numa reportagem sobre empregos temporários: "Falta pouco para o Natal."

Ah é, é?

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Quinta-feira, Novembro 18, 2004
 
Bola nas costas

Tem horas que a gente leva umas bolas nas costas. Durante vários meses, insisti para ser o primeiro jornalista a ver o novo filme de João Moreira Salles, "Entreatos", que conta a campanha de Lula à Presidência, e o primeiro a entrevistar o cineasta.

Há duas semanas, ouvi o tão aguardado sim. A exibição e a entrevista foram marcadas para o começo da semana retrasada. Mas, na segunda-feira retrasada, disseram-me que o diretor teve que antecipar uma viagem para o México e só ia poder falar na segunda-feira passada. De qualquer forma, eu seria o primeiro a entrevistá-lo. Insisti, insisti, mas explicaram que ele estava sem tempo.

Na sexta-feira passada, o primeiro susto: a Folha saiu com uma matéria de uma página sobre o filme. Pelo menos o cineasta não tinha falado. Por via das dúvidas, resolvemos dar uma primeira matéria no domingo, mesmo sem a entrevista. Daríamos uma reportagem agora e a outra, com a entrevista, sairia na semana seguinte.

No domingo passado, saiu a capa do Segundo Caderno com a matéria, que pode ser lida aqui. Eis que, no próprio domingo, ao sintonizar o "Fantástico", lá está João dando uma extensa, detalhada, minuciosa entrevista a Pedro Bial. Agora me explica: se ele não tinha tempo de dar entrevista, se ele tinha garantido que a nossa ia ser a primeira, como é que estava lá na TV, todo faceiro?

Ainda estou para descobrir.
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Socorro

Colesterol alto e fígado baqueado, mostram os exames. O médico diz:

- Você vai ter que diminuir carne vermelha, ovo, queijo, manteira, leite e bebida. Galinha pode, mas sem pele.

Isso dá praticamente a minha dieta diária.

- Pode trocar a carne pela linguiça?

- Não.

- Cortar os pulsos pode?

Prevejo dias difíceis pela frente.
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Segunda-feira, Novembro 15, 2004
 
Enfim

Piadinha politicamente incorreta aqui no jornal: finalmente vamos ver enterro de anão. É que morreu o político João Alves, um dos anões do orçamento, como ficou conhecido o grupo de deputados corruptos, todos baixinhos, que recebiam propinas de grandes empreiteiras.
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Domingo, Novembro 14, 2004
 
Gloria

Tomei um susto esses dias: Laura Branigan morreu! Não acreditei quando um amigo me deu a informação, mas uma reportagem na revista "People" conta que ela sofreu um aneurisma em casa. Duas semanas antes, tinha se queixado de dor de cabeça a um amigo, mas não procurou atendimento médico. Morreu aos 47 anos.

P.S.: Aos que chegaram há pouco ao mundo: Laura Branigan, quatro vezes indicada ao Grammy, é a cantora do ultramegasucesso "Gloria", música que fez todo mundo dançar no começo dos anos 80.
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Parem as rotativas!

Sugestão de pauta que chegou aqui para o Segundo Caderno:

- Caso julguem interessante, comunico o meu casamento dia 02/12 na catedral Boa Viagem para 700 convidados incluindo diretores do Hospital Mater Dei, Hospital Biocor, empresários da construção civil entre outros. Sou ginecologista e obstetra e coordeno junto com meu irmão uma das maiores clínicas de Reprodução Assistida, IBRRA-Instituto Brasiliero de Reprodução Assistida.

Faltou semancol.
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Um romance secreto que durou 18 anos

O filme de Zelito Viana sobre JK está causando enorme polêmica. Tudo porque a principal personagem feminina não é a primeira-dama, dona Sarah, mas Maria Lúcia Pedroso, que foi amante de Juscelino Kubitschek durante 18 anos. Quem vai interpretá-la é Mariana Ximenes. A família do presidente não gostou e vem fazendo de tudo para sabotar o filme.

Fui incumbido de acompanhar a primeira semana de filmagens e ver como a pressão dos parentes de JK afetava o trabalho. O resultado saiu publicado no domingo retrasado no Segundo Caderno. Quem quiser ler pode clicar aqui.

O mais complicado de tudo foi falar com Maria Lúcia. Descobri que ela ia sair de Petrópolis, onde mora, para almoçar no Rio com Mariana - a atriz pedira um encontro para poder compor o personagem. Depois, Lúcia ia assistir às filmagens. Fui para o set, arrumei um fotógrafo e fiquei à espreita. O tempo passou e nada. Horas depois, descobri a razão. Alguém avisou a ela que eu estava de plantão, à sua espera. O que ela fez? Cancelou a ida às filmagens e voltou correndo para Petrópolis. Não quis falar nem ser fotografada. A razão:

- Seria uma provocação com a família de Juscelino.

Vocês pensam que eu desisti? Na sexta-feira à noite, faltando pouco para fechar a reportagem, finalmente consegui localizá-la, depois de quase uma semana de tentativa. Ao contrário do que eu temia, ela foi extremamente receptiva. Claro que usei uma velha técnica jornalística. Comecei o papo assim:

- Dona Lúcia, tudo bem? Meu nome é Mauro Ventura, estou fazendo uma matéria sobre o filme "JK" e a Mariana Ximenes me disse que está encantada com a senhora. Falou que a senhora é uma mulher elegante, enxuta, forte engajada.

Ela gostou dos elogios, todos verdadeiros:

- É mesmo? Pois o encantamento é recíproco.

A partir daí, o papo correu solto. Lúcia (permitam-me a intimidade) é uma mulher animada e cheia de histórias. Fiz a entrevista, publiquei-a no domingo, mas fiquei tenso. Como ela reagiria ao ver sua vida íntima exposta no jornal? As dúvidas acabaram na segunda-feira, quando recebi um telefonema:

- Mauro? É Lúcia. Queira lhe dizer que fiz aniversário ontem (70 anos) e foi o melhor presente que eu poderia ter recebido. A matéria estava elegante, superior, bem apresentada. Fiquei fascinada. Uma maravilha.

Fiquei aliviado. Conservamos durante uma hora e ela contou várias histórias de Juscelino. Lúcia, que era casada quando começou o caso com JK, falou que a pressão da família de Juscelino não vai dar em nada - ela tem três cartas em que o presidente a pede em casamento. Em seguida, desabafou:

- O romance destruiu o meu lar. Não o dele.

Lúcia lembrou-se de quando eles estiveram em Veneza, no aniversário do presidente, e lágrimas escorriam do rosto de JK, que sentia saudades do Brasil.

- Falei para ele: "Você não tem o direito de chorar. A prisão por motivos ideológicos dignifica o político. Sua vida foi linda. Faltava para a sua biografia a diversidade. Você tinha que ter sua Santa Helena, como Napoleão (que foi exilado na ilha)." Ele enxugou as lágrimas e falou: "Nunca ninguém me disse uma verdade tão certa."

Também contou detalhes de uma vez em que JK quis se suicidar, por não suportar mais o exílio, mas imagino que ela não vá querer ver isso publicado. De qualquer forma, ficamos de nos encontrar para mais um papo e prometo contar mais histórias sobre JK. Mariana tinha mesmo razão: trata-se de uma mulher encantadora.


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Quarta-feira, Novembro 03, 2004
 
Se merecem

Repetindo o que disse aqui há alguns dias: Ohio que os partam.
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Terça-feira, Novembro 02, 2004
 
Mico

Dia desses fui ao melhor lançamento de livro da minha vida. Foi no Armazém Digital, em Botafogo. Meu amigo Alexandre Medeiros lançou "Batuque na cozinha - As receitas e as histórias das tias da Portela".

A noite foi um espetáculo. Juntou gente boa à beça, teve exibição do filme "Batuque na cozinha", de Anna de Azevedo, e contou com uma roda de samba com a Velha Guarda da Portela que não deixou ninguém parado. Até a mangueirense Beth Carvalho deu canja.

Começou às 18h e terminou quase 1h da manhã. Tudo certo, não tivesse eu escrito naquele dia uma reportagem mostrando que os lançamentos de livros estavam se renovando e ganhando um clima de festa.

Escrevi a matéria algumas horas antes do lançamento. Ela saiu publicada no dia seguinte. Está todo mundo lá - menos meu amigo Alexandre. Quando cheguei no lançamento, caiu a ficha. Eu não tinha onde enfiar a cara: faço uma reportagem sobre lançamentos inusitados e não incluo justamente o melhor de todos. Quem quiser ler a reportagem micada pode clicar aqui.
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Fantasmagórico

O Rio à noite é uma cidade fantasma. Em Ipanema, então, não se vê vivalma. A única drogaria que ficava aberta 24 horas - mesmo assim era só uma portinhola - desistiu. O Letras e Expressões, que varava a madrugada, hoje fecha as portas no fim da noite.

O medo de sair de casa tem atrapalhado a vida dos produtores de teatro, que estão pensando em começar as peças mais cedo. Conversei com alguns deles para traçar um painel da cultura no Rio.

O secretário estadual de Cultural, Arnaldo Niskier, é otimista. Para ele, a cultura no Rio está aquecida. Muita gente pensa diferente e acha que a cidade vive dias de esvaziamento, ainda mais se comparada a São Paulo. Quem está com a razão? Quem quiser ler o resultado da reportagem pode clicar aqui.
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Segunda-feira, Novembro 01, 2004
 
Paulo Coelho também

Uma amiga, Júlia Marinho, me diz que meu chefe não é o único a recorrer à estratégia do "meu advogado não permite" para evitar a avalanche de pedidos de leitura de originais. Escreve ela:

- Paulo Coelho segue à risca essa regra, por recomendação dos advogados dele. Todo grande autor faz isso.
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Mensagens conflitantes

Hoje é dia de contracheque - ou holerite, como se dizia antigamente. Abri-o e havia uma simpática mensagem de "Feliz aniversário" (foi em outubro). Ao lado, o salário do mês: R$ 0,00.

É que como oficialmente as férias foram em outubro o salário veio todo mês passado. Não deixa de ser cômica a mensagem de parabéns seguida do "presente" de zero reais.
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