DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Domingo, Janeiro 30, 2005
 
Alegria e tristeza

O sol lá fora compensa os últimos dias de chuva que enfeiaram o Rio. Pena que estou aqui no gelo do ar condicionado da redação. Não estava previsto passar o domingo de plantão, mas, na sexta-feira à noite, avisaram-me que eu teria que vir fechar o Segundo Caderno. Originalmente a tarefa era de outro jornalista, mas ele não poderia vir porque está em Cannes.

No café, encontro uma colega, igualmente de plantão. Comento o troca-troca que me fez vir aqui hoje, e ela observa:

- É que nem me disse um torturador: "Alegria pra uns, tristeza pra outros."

Levo um susto, mas depois me lembro que ela tinha sido presa política e peço detalhes sobre a frase. Ela me conta. Na época da ditadura militar, diz, estava presa no Rio Grande do Sul e foi transferida para o Rio. Quem a trouxe foi um torturador gaúcho, que não conhecia a cidade.

Ela vinha para ficar na PE (Polícia do Exército), onde viria a sofrer todo tipo de tortura. Foi ao chegarem aqui que o militar, feliz da vida com a oportunidade de conhecer o Rio e sabendo do que a esperava, disse a tal frase: "Alegria pra uns, tristeza pra outros."

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Quinta-feira, Janeiro 27, 2005
 
Racismo

Meu amigo fazia compras numa loja de ração para animais quando dois carregadores começaram a discutir. O motivo não ficou claro, mas os ânimos estavam exaltados e os dois lados se mostravam intransigentes na defesa de seus argumentos.

A discussão caminhava para uma briga quando um deles surgiu com o argumento que considerava irrefutável:

- Pára de falar bobagem. Eu estou certo, eu sei o que digo. O único crioulo lá em casa sou eu. Minha mulher é branca de cabelo liso e meus filhos são mulatos. Na sua casa, todo mundo é preto.

O confronto terminou ali mesmo, com o outro homem assumindo a derrota na discussão porque, afinal de contas, não tinha nenhum branco na família.
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Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
 
Dentes

Um amigo chegou a um boteco numa cidadezinha do interior do Rio e pediu um café. Ao seu lado, havia três homens, que pediram Coca-Cola. O balconista pôs as garrafas no balcão e gritou:

- Chama o abridor de garrafa!

Passou-se algum tempo e surgiu de dentro do bar um matuto, de seus 40 anos. Eles pegou uma garrafa, mordeu a tampa e ploc, destampou a Coca-Cola. Fez isso com as outras duas também.

Meu amigo, acostumado a escovar os dentes três vezes por dia, passar fio dental e bochechar com anti-séptico bucal, ficou impressionado com a saúde dentária do sujeito e resolveu perguntar que cuidados o capiau tomava. Ele respondeu:

- Dotô, eu masco fumo de rolo e passo cinza da fogueira nos dentes.

E lá foi o abridor de garrafa abrir mais garrafas.
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Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
 
Conspiração

Numa entrevista que eu e meu chefe (Rodolfo Fernandes) fizemos esses dias com Roberto DaMatta (clique aqui), o antropólogo falou de três dircursos fracassomaníacos que sobrevivem no Brasil. Um deles é a teoria conspiratória.

Ele citou como exemplo o que ouviu de um sujeito há poucos dias. Segundo o homem, a loteria esportiva é um golpe que dão no povo brasileiro. Eles deixariam aumentar o prêmio e aí ele sai para uma pessoa que faz parte da quadrilha.

Trata-se, claro, de uma viagem. Mas o brasileiro adora esse tipo de história. Hoje mesmo um amigo chegou para mim e disse:

- Você viu o que fizeram com a Marielza?

Depois que ele me explicou quem era a Marielza, perguntei o que fizeram com a Marielza. Segundo ele, a Globo forçou a saída dela do "Big Brother" porque ele teria falado demais. Ela fez críticas à Liga das Escolas de Samba, que tem conexões com a Globo. O jeito, disse meu amigo, foi tirá-la de cena. O desmaio teria sido uma simulação. A emissora teria feito um acordo com Marielza - que em troca receberia uma grana alta. O derrame cerebral seria uma farsa. Ou - outra opção - Marielza teria realmente desmaiado, mas o problema seria fruto de algum tipo de medicamento que teriam dado a ela.

Não é à toa que o povo brasileiro é um dos mais criativos do mundo.

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Domingo, Janeiro 23, 2005
 
Pôster

A coluna de Maitê Proença na revista "Época" de hoje começa assim:

- Ando totalmente sem paciência - para não usar a expressão mais enfática - com o narcisismo que tomou conta do país. As pessoas estão cada vez menos interessadas no que as cerca e só se deixam motivar pelo que for reflexo de si.

Ao contrário do que acontece habitualmente com os cronistas, que têm seus textos acompanhados por uma ilustração que tenha a ver com o assunto, a página de Maitê traz hoje uma enorme foto... da própria Maitê, numa pose entre o sexy e o sério.

Imaginem se ela não andasse de saco cheio - para usar uma expressão mais enfática - com o narcisismo que tomou conta do país.
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Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
 
Coincidência

Aconteceu com uma parente. Ela viajou para Miami e hospedou-se num hotel. Com seu inglês capega, ficou aliviada quando viu a placa: "Fala-se português."

Solicitou o serviço e viu surgiu uma moça simpática e agradável. Começaram a conversar e, como eram brasileiras, em instantes já estavam íntimas.

A certa altura, minha parente pergutou:

- De que estado você é?

- Do Rio de Janeiro.

- Que coincidência, eu também. De que cidade?

- Nova Friburgo.

- Caramba, eu também. Mundo pequeno, né? E de que família?

- El Jaick.

Ela quase caiu para trás. Descobriram que eram primas, separadas por força das circunstâncias. Após a descoberta, abraçaram-se e choraram. Tem até fotos para provar.



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Que mico

Ontem, a Ilustrada, caderno cultural da "Folha de São Paulo", dedicou sua capa à morte do venezuelano Jesús Soto, uma das maiores estrelas da arte latino-americana.

Curiosamente, o Caderno B também dedicou sua capa de ontem a Soto. A reportagem fala tudo sobre a exposição que vai ser inaugurada terça-feira no CCBB, a mais importante mostra já dedicada ao artista no Brasil. A matéria traz foto de Soto, com a legenda: "O artista venezuelano em seu ateliê de Paris."

A reportagem diz que ele vive em Paris há quase 50 anos, sem, no entanto, se distanciar da Venezuela. Diz ainda: "Esperado para a inauguração da mostra do CCBB, o artista cancelou a viagem por graves problemas de saúde."

Aquela altura, ele já estava até enterrado. O enterro aconteceu na quarta-feira, em Paris.
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Terça-feira, Janeiro 18, 2005
 
Acontece com a gente

A caixa tenta passar meu cartão de crédito no supermercado.

- Não aceitou - ela diz.

Fico irritado, cismo que ela não tentou direito, peço para insistir. Nova negativa. No dia seguinte, ligo para o banco em busca de explicações. O rapaz que atende me pergunta:

- O senhor por acaso comprou algo de R$ 1.999,00 numa loja de telefonia em Maricá?

- Hein? Nunca fui sequer a Maricá.

- E o senhor por acaso tentou comprar algo de R$ 1.039,00 nas Lojas Americanas de Piabetá?

- Nem sei onde fica.

A esta altura vocês já devem ter percebido que clonaram meu cartão. O banco, após a primeira compra, cancelou o cartão. Eles perceberam que ela fugia ao meu padrão e, mesmo sem minha autorização, fizeram o cancelamento. Ainda bem. Com isso, impediram que o bandido fizesse a segunda compra, em Piabetá. Eles bem que tentaram entrar em contato comigo, mas eu tinha ignorado o recado pedindo para ligar. Imaginei que se telefonasse ia ouvir:

- Boa tarde, seu Mauro, temos uma nova modalidade de investimento para lhe oferecer.

Não era nada disso. O atendente me explica que a clonagem pode ter acontecido em qualquer lugar, mas o mais provável é que tenha sido em posto de gasolina ou restaurante.

- Muitas vezes as quadrilhas inflitram alguém como garçom ou frentista durante um tempo só para fazerem a cópia da tarja magnética - ele disse.

Fiquei pensando se não há uma quadrilha dentro das próprias administradoras de cartão.

- Mas como que uma loja vende algo de quase dois mil reais e não pede algum documento? - pergunto eu.

- Normalmente eles têm documentação falsa para esquentar.

A clonagem tem sido tão comum que o banco nem fez maiores perguntas e avisou que vai estornar o dinheiro.


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Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
 
É dose

Fiz uma reportagem com o cineasta Bruno Barreto. Ocupou um bom espaço do jornal. Saiu assinada, com meu nome em destaque no alto da matéria. No finzinho da página, aparecia em letras miúdas a informação: "Arnaldo Jabor: a coluna voltará a ser publicada no dia 1 de fevereiro".

Pois uma leitora escreveu para o jornal pedindo um contato com o diretor. O serviço de atendimento ao leitor me pede que a ajude.

Vou reproduzir aqui a mensagem: "Lendo a reportagem de Arnaldo Jabour sobre o filme de Bruno Barreto, a ser realizado sobre o incidente do onibus 174, desejo expressar um parecer que tenho sb a vida deste menino. como posso conseguir o e-mail do Bruno Barreto?".

Acho que vou responder: "Pergunte ao Jabor".



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Fixação

Meu primo coleciona Amandas. Já é a quarta ou quinta namorada seguida que ele arruma de nome Amanda. Se ainda fosse Cláudia, Ana ou Maria, dava para falar em coincidência. Mas Amanda, só pode ser alguma espécie de fixação.

Não sei como ele as acha. Imagino que deve pegar o catálogo telefônico, olhar as Amandas e ligar para saber idade e estado civil. Deve inventar alguma desculpa e, com uma boa lábia, fazer o filtro das candidatas. Ou então procura na internet e sai mandando mensagens.

Sabe-se lá.

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Sexta-feira, Janeiro 07, 2005
 
Oswaldo Aranha

Os donos da pizzaria Fiammeta convidam para um almoço. Lá pelas tantas, fazem uma surpresa. Trazem à mesa um panini - uma espécie de pão de queijo recheado e crocante -, explicam que o recheio acabou de ser criado e anunciam que batizaram a comida de Ventura.

Agradeço a homenagem. Na hora em que o panini chega à mesa, parto com vontade para provar - já eram 18h e ainda não tinha almoçado. Na primeira garfada, o susto. O recheio era de tomate, espinafre, cogumelo e ricota. Dos quatro, só como a ricota, mesmo assim a contragosto.

Instala-se a dúvida: melhor comer, mesmo forçado, e não constranger os donos ou explicar que agradecia a gentileza, mas preferia dar nome a outro panini? Achei melhor tentar separar discretamente os ingredientes e comer só o panini com ricota. Eles, claro, perceberam, mas não deram muita bandeira. De qualquer forma, fiquei sensibilizado com a homenagem. Senti-me como Oswaldo Aranha.
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Por pouco

O médico dá o diagnóstico:

- Você está com uma capsulite adesiva no ombro direito.

- Hein?

Ele explicou que era uma doença que levava de seis meses a dois anos para curar e que foi provocada por um trauma físico associado a algum problema emocional. Mais especificamente: uma depressão.

Fiquei ainda mais aturdido. Como assim, se sempre me considerei bem resolvido e imune a maiores alterações de humor? Percebi que o médico não estava brincando na hora de receitar o remédio. Achei que se tratava de um simples antiinflamatório ou algum analgésico. Na farmácia, descubro que é um antidepressivo. Não tive coragem de comprar.

Pesquisando na internet, soube que o nome popular da capsulite adesiva é bem preciso: ombro congelado. Por conta disso, tenho aturado intermináveis sessões de fisioterapia. Mas valeu a pena ter ido a quatro médicos e feito vários exames. Afinal, os diagnósticos iniciais apontavam uma tendinite.

Fazia sentido: jornalista, trabalhando 12 horas por dias no computador, nada mais natural que desenvolvesse o problema, comum a tantos colegas de profissão. Por conta da suposta tendinite, evitei fazer movimentos com o braço direito. Foi um erro. No caso da capsulite, o tratamento é justamente o oposto: é preciso estar sempre movimentando o braço. Imagine se eu tivesse imobilizado, o que quase aconteceu. Não ia conseguir mexer mais.
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Domingo, Janeiro 02, 2005
 
Fiasco

Vi os fogos na Praia de Copacabana. Ou melhor: como todo mundo, não vi, graças a espessa cortina de fumaça que encobriu a festa. É desde já o maior mico de 2005.

Os argentinos mostraram que não entendem nada do assunto. Em Copacabana, erraram a mão. Em Buenos Aires, soltaram fogos dentro de uma boate e o saldo foram 182 mortos.
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