DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
on-line

   
 
Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005
 
José Silva

Leio na coluna de sábado da Hildegard Angel no JB: "Otto Jr. e Mauro Ventura lêem trecho do Dr. Fausto, de Thomas Mann, no qual o músico Adrian Leverkhun firma o pacto com o diabo, hoje, na Livraria Casa da Cultura." Trata-se de um homônimo, é claro.

Às vezes, acho que Mauro Ventura é mais comum que José Silva. A todo instante, chegam notícias de alguém com o mesmo nome e sobrenome. Ora me perguntam se estou no elenco de uma peça, ora querem saber se estou trabalhando em São Paulo. Tem Mauro Ventura ator de teatro infantil, assistente de direção, operador de canhão, designer, professor de jornalismo on-line, ajudante de serviços gerais da prefeitura de Hortolândia, diretor-comercial do grupo Fispal Alimentos e até sócio-fundador da Efix Tecnologia (empresa especializada em soluções de treinamento e gestão do conhecimento).

Jornalistas há pelo menos outros dois. Tem também um especialista em Otto Maria Carpaux. Mas o único que não dá para confundir mesmo é o que vi outro dia numa fotografia. Um halterofilista levantava uma montanha de pesos e a legenda o identificava como Mauro Ventura. Nem com todo anabolizante do mundo daria para transformar meus bíceps mirrados e escassos 68 quilos naquela parede de músculos.
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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
 
Belém 3 - Piriquitaquara

Saiu hoje no Segundo Caderno o resultado da minha ida ao Pará. Quem quiser pode ler aqui. A atriz Dira Paes ligou para agradecer e disse que eu sou o rei. Rei de Cumbu e do Furo do Piriquitaquara, duas minúsculas localidades paraenses. Segundo ela, os piriquitaquaraenses estão emocionados em aparecer nas folhas de jornal.

Em Belém, ficamos num hotel ao lado de um cinema, o Cine Olimpia. Os moradores da cidade dizem que é o mais antigo em funcionamento do Brasil: 92 anos. Se é verdade ou não, não sei. Acho que os paraenses têm imaginação fértil. Volta e meia me contavam uma história. Disseram que, perto do porto recém-restaurado, uma turma faz pega de moto enquanto garotas de classe média alta desfilam nuas. Aí já era demais. Depois outras pessoas me falaram que não era bem assim: os rapazes contratam prostitutas, que andam nuas na garupa das motos.

Belém é uma bela cidade, com um centro histórico e um porto tinindo de novos, graças a uma reforma. Mas também tem seus políticos esdrúxulos. Há algum tempo, um vereador surgiu com o slogan: "Quem fuma, fode e cheira, vota no Caveira". Foi eleito.

Passamos por um cinema e a produtora do festival de Belém conta que só passa filme pornô. Quando chega a Páscoa, eles interrompem a programação habitual e só exibem filmes bíblicos, como "Os dez mandamentos".

No parapeito de um prédio, vemos várias bonecas enfileiradas. A produtora me corrige e diz que são imagens de Nossa Senhora de Nazareth - Naza, como eles a chamam com intimidade. Os moradores criam várias roupinhas diferentes, tal e qual a Barbie, e põem no parapeito para vender. O interessado toca o interfone do prédio e compra o modelo que mais lhe aprouver.

Pegamos um barco e vamos em direção às ilhas. A lancha percorre pequenos braços de rio. No caminho, vemos vários casebres sem luz elétrica e uma vegetação que inclui açaí, palmito e cacau. Estamos em plena Floresta Amazônica.

Passamos por diversos tipos de barco e aprendo que existe lancha, bote, casquinha, casco, canoa, rabeta... Também me ensinam que há um código náutico na região. Se o homem está sentado de frente para a mulher no barco, é sinal de que está tudo bem em casa. Mas se eles estão de costas, isso indica uma crise conjugal. Há ainda um código amoroso. Quando o rapaz passa de barco em frente à casa de uma moça, a forma como ele movimenta o remo ou joga a água para fora revela interesse ou não na jovem.
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Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005
 
Belém 2 - "Chora nos meus pés"

Visitamos o mercado Ver-o-Peso, talvez o cenário mais conhecido de Belém. Tem de tudo, de camarão seco a polpa de frutas como uxi, muruci e tucumã. Numa das barracas, dona Colé usa uma folha de pimenta enfiada na orelha, como se fosse um brinco.

Ela pega um vidro com um imenso pedaço de jibóia dentro, molha as mãos com o líquido e ameaça jogar na gente. Protejo-me, mas, na hora H, ela prefere se banhar com a assustadora infusão.

- É para chamar dinheiro - explica.

Prefiro andar de bolso vazio.

Em outra barraca, uma senhora vende todo tipo de essência: "Chora nos meus pés", "Tira olho gordo", "Hei de vencer", "Chega-te a mim", "Faz querer quem não me quer" e até um que poupa dinheiro do cliente: "Chama tudo".

- Chama dinheiro, homem, mulher... - explica a vendedora.

Ela ensina que o líquido deve ser passado de baixo para cima.

- Não pode passar ao contrário, de cima para baixo, porque senão vai tudo embora.

Belém é o único lugar do mundo, dizem os moradores, onde um ônibus bateu num barco. O acidente foi na esquina do Ver-o-Peso, perto do porto. O barco estava ancorado. A maré subiu, a embaração foi arrastada e, na hora em que fazia a curva, o ônibus deu de cara com o barco. Cada uma.
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Belém 1 - A chegada

Fui ao Pará acompanhar o lançamento de um projeto de cinema. No aeroporto de Belém, a cineasta Betse de Paula, depois de se certificar que sua bagagem tinha chegado, fez trocadilho com o ditado:

- Há malas que vêm para Belém.

Pegamos uma van e fomos para o hotel. O primeiro contato que o turista faz com a cidade - qualquer cidade - costuma ser com seus escombros. Os aeroportos ficam longe e, no caminho, o visitante vai descortinando a periferia. Em Belém, não é diferente. Os casebres, o rio sujo e o mercadão fazem parte da visão inicial da cidade.

Há muitas curiosidades pelo caminho. Pintado na parede de um prédio, em letras garrafais, surge o letreiro: "Bar e motel Casal Feliz." Embaixo fica o boteco e, em cima, os quartos. O casal toma uns tragos e é só subir as escadas.

Mais à frente, somos subitamente transportados para a Barra da Tijuca, quando aparece uma imensa réplica de uma Estátua da Liberdade. Ela enfeita uma loja de R$ 1,99, chamada Belém Importados. Pouco à frente é a vez da farmácia Big Ben ostentar uma réplica do relógio londrino.

No porto, o barco ostenta o nome de "Saldosa maloca". Saudades do tempo em que o português era tratado com mais carinho.

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Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005
 
Pará

Viajo amanhã às 7h para o Pará. Nada a ver com a morte da freira americana. Na segunda, estou de volta e conto como foi a viagem.
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Aula

Quando cursei comunicação social na PUC (lá pela Era da Pedra Lascada), sentia falta de professores que vivessem o dia-a-dia de redação. Havia muita teoria e pouca prática. Depois o cenário mudou, mas fiquei com aquela sensação de que seria interessante para os alunos de jornalismo saber como é o cotidiano num jornal ou numa revista.

Talvez por isto tenha aceitado o convite da Unicarioca para dar aulas este semestre. Será uma cadeira eletiva sobre jornalismo cultural e texto de crônica. Vou falar um pouco sobre essa área do jornalismo que não rende manchetes nem tem a importância da política ou da economia, mas que ao mesmo tempo desperta tanto fascínio.

As aulas começam na terça-feira que vem. São mais de 30 alunos, o que me deixa um pouco assustado. Mas agora é tarde e só me resta desejarem boa sorte.
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Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005
 
Doce de criança

Mês passado foi o cartão de crédito. Agora foi a vez do cartão do banco. Fui tirar dinheiro e descobri que tinham limpado a conta.

Conversando com amigos, descobri que nada tenho de especial. Meu chefe diz que já clonaram o dele três vezes. Uma amiga conta que teve o cartão clonado ao usá-lo na internet. Seu dinheiro foi gasto no pagamento de compras e contas de IPVA e de telefone em Goiânia.

Mesmo tendo o nome dos beneficiários, o banco disse a ela que é difícil achar os culpados porque a telefônica e o governo estadual já receberam o dinheiro e não têm interesse em cooperar. Para mim, a questão é outra. Acho que o banco prefere assumir o prejuízo, reembolsar o cliente e abafar a história para que as pessoas não fiquem com medo de usar a internet.

Mas vamos ao meu caso. Os ladrões fizeram várias retiradas em caixas eletrônicos de Araras, interior de São Paulo, e várias transferência para a conta de Claudio Marcelo dos Santos. O banco diz que vai convocá-lo para se apresentar na agência. Podem
acontecer várias coisas.

1. Ele aparecer e o banco perceber que a conta foi usada sem o seu conhecimento. Isso não é incomum. Os ladrões aproveitam contas com pouco uso para seus golpes.

2. Ele aparecer e ser um sujeito simplório, que abriu a conta a pedido de algum bandido.

3. Ele aparecer e ser culpado. Conta outra.

4. Ele não aparecer. Se isto acontecer, curiosamente o banco não põe a polícia atrás do sujeito. A gerente explica que é para me preservar. "Você teria que ser arrolado como testemunha para comprovar que não autorizou os gastos. O banco não quer que o cliente se sente diante de um golpista. Nós temos endereço fixo e eles são bandidos."

O motivo é nobre, mas acho que tem mais coisa aí. Imagino que os bancos prefiram não chamar muito atenção para a fragilidade do sistema, optando por não dar publicidade sobre suas falhas.

Seja como for, dá para ver que é mais fácil tirar dinheiro de banco que roubar doce de criança.
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Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005
 
Cena carioca

A patrulhinha estaciona e dela salta um PM de olhar duro e gestos nervosos. Olha de um lado para o outro, sempre com a mão na cintura, ao alcance da arma.

Passa um menino de rua de seus dez anos. Carrega nas mãos algumas moedas e no olhar um jeito de animal acuado. O guarda o chama. Ele hesita, mas a voz firme e a mão no coldre fazem com que se aproxime da viatura. Já chega se desculpando:

- Eu num tô fazendo nada, eu juro.

Imagino as piores atrocidades. Penso que o policial vai roubar as parcas economias do garoto e afastá-lo com um tapa. Ou então vai algemá-lo e levá-lo dali.

O PM abre o porta-malas. Presumo que vá jogar o menino ali dentro e sumir. Preparo-me para intervir quando vejo a razão do gesto: o guarda tira do carro uma quentinha e oferece ao garoto, que se afasta aliviado e agradecido com a refeição inesperada. O policial ainda o chama outra vez, apenas para lhe oferecer um garfo e uma faca de plástico e lhe desejar um bom almoço.
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Terça-feira, Fevereiro 15, 2005
 
Senha

Quando deu-se conta, percebeu que a empregada havia roubado R$ 600. Mas não quis fazer escândalo, não era disso. Preferiu bolar um plano.

Um dia, quando a moça tinha descido para o playground, aproveitou para ir no quarto dela e abrir sua bolsa. De posse do cartão, foi ao banco. Digitou a data de aniversário da empregada e... nada. A máquina avisou: "Senha inválida." Não desanimou. Resolveu tentar o aniversário da filha. E não é que funcionou?

Tirou R$ 600, voltou para casa e devolveu o cartão à bolsa. A empregada da minha conhecida está até hoje tentando entender como o dinheiro sumiu da conta.
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Mico total

A Bandeirantes transmitia o Desfile das Campeãs. Lá pelas tanta, a comentarista Astrid Fontenelle chama a repórter que cobre os camarotes.

- Vamos agora ao camarote com dois atores globais, Juliana Silveira e Roger Gobeth.

Enquanto a TV passa a focalizar o camarote, ouve-se a voz de Astrid:

- Ih, eles são nossos agora!

Ela não sabia - e alguém tratou de avisar - que os dois não são mais atores da Globo e sim da nova novela da Bandeirantes, "Floribella", que estréia em março, como os comerciais da emissora em que Astrid trabalha não se cansam de avisar.

Fico imaginando o dono da Bandeirantes. O sujeito faz um investimento danado em teledramaturgia, tira dois atores (tudo bem que são Juliana Silveira e Roger Gobeth) da Globo, faz um carnaval em cima, anuncia a torto e a direito, e nem sua principal apresentadora sabe disso.
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Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
 
Equívoco

Tenho uma impaciência incontornável com filas. Ou melhor, ela é contornável desde que eu esteja com um livro ou um jornal nas mãos.

Há pessoas que resistem estoicamente nas filas, sem sequer um folheto onde pousar os olhos. Uns matam o tempo pensando nos afazeres ou na agenda do dia. Outros, com mais imaginação, gastam os minutos olhando os colegas de infortúnio e criando uma história para eles.

Não tenho tal talento e, por isto, estou sempre prevenido. No banco, na fisioterapia e até mesmo no carro - no intervalo do sinal fechado - você vai me encontrar com o olhar voltado para letras escritas no papel.

Dia desses, num restaurante a quilo, outra pessoa também aproveitava o almoço para mergulhar num livro. Só consegui ver parte do título. Era algo como "Trans" ou "Trains". Imaginei logo que se tratava do excelente "Trainspotting", de Irvine Welsh, que foi transformado em filme por Danny Boyle.

Mulher de bom gosto, pensei, até ter a visão melhor da capa do livro e ler o título completo: "Transforme em positivas as energias negativas."
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Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
 
Alguém nos proteja

A revista "Cláudia Cozinha", que está nas bancas, anuncia em sua capa um brinde: uma espátula que "proteje" suas mãos. Pena que não há ninguém para proteger o leitor desses erros...
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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
 
Ameaças

Não passa um dia sem que chegue um convite para entrar no Orkut, no Multiply ou no OverCampus. Mas confesso que ainda não me animei.

Agora, chegam convites para algo chamado SMS.ac. Eles se definem como a mais popular comunidade para usários de telefone celular do planeta.

Um amigo mandou-me uma mensagem convidando-me para fazer parte da rede de amigos dele. O que me impressiona é o cerco que é feito ao candidato. Já foram quatro e-mails, cada um num tom mais ameaçador do que o anterior.

O último diz: "Can you believe it - this is the fourth request to be in (...) friend network. If this means that you do not care to be in (...) mobile friend network, then just say so - and save both of you the hassle. It only takes a few seconds!".

Em seguida, a mensagem pede que eu entre num site e confirme ou recuse o convite. Deixa eu ver se entendi. Eu tenho que gastar meu tempo para dizer não a algo que não pedi? Me poupe.



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Jeremias

A Flávia, leitora que me passou um sabão por eu publicar aqui mensagens que recebemos das assessorias de imprensa, vai me desculpar, mas eu tenho que mostrar o e-mail fresquinho que chegou. O título é "O conquistador de beldades do Sambódromo - RJ".

"Ele está com tudo e muito bem acompanhado. O modelo Jivago, que vive o personagem Jeremias da campanha dos desodorantes AXE Compact Aerossol, estreou no Carnaval do Rio de Janeiro ao lado das beldades que lotavam o camarote de uma cervejaria, como a atriz Fernanda Fernandes, a apresentadora Ana Luiza Castro e as modelos Marieva Oliveira e Ana Claudia Michels."

A mensagem vinha acompanhada de quatro fotos da tal celebridade cercada pelas tais beldades. Um modelo chamado Jivago que vive o personagem Jeremias de uma campanha de desodorante? Parece até trote.



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14 de fevereiro

O que o comércio não faz para faturar algum. Eis o e-mail que acabo de receber:

"Comemore o Valentine's Day com charme e delicadeza. O Dia dos Namorados no Brasil é comemorado em junho, mas os casais apaixonados podem aproveitar mais uma oportunidade para manifestar seus sentimentos. A Flores Online preparou arranjos especiais para comemorar o Dia Internacional dos Namorados. Mais conhecido como Valentine's Day, o dia 14 de fevereiro exalta a coragem do santo do amor."

E seguem-se várias opções de arranjos florais a preços camaradas - ou não tão camaradas. Dia Internacional dos Namorados. Desta vez se superaram.
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Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005
 
Homem-de-ferro

Manhã de quarta-feira de cinzas, saio à rua sonolento. Antes de ir para o trabalho, passo na loja de sucos habitual, mas as portas se encontram fechadas. Ando mais um pouco e vejo uma loja aberta, com o balcão lotado de jovens atléticos e sarados. Um grito domina o ambiente:

- Um iron man aqui!

Todos os olhares convergem para o canto de onde saiu o grito, interessados em saber quem era o tal homem-de-ferro. Com meus 67 quilos mal distribuídos num corpo escasso de músculos, sinto-me envergonhado de ser alvo de tanta curiosidade. É que, para combater o sono, eu tinha pedido ao caixa uma bebida composta de proteinato, guaraná em pó, ovo de codorna e vários outros ingredientes energéticos. O suco se chama iron man.

Só que, em vez de me dar uma ficha, ele repassou aos gritos o pedido para os atendentes. Um grito forte, poderoso, excessivo. E a loja toda se virou para olhar. Os que não conheciam o cardápio queriam saber quem era o homem-de-ferro apontado pelo caixa. Os que conheciam o suco queriam ver quem tinha pedido a bebida mais poderosa do lugar. E, após um olhar de desdém que parece ter se prolongado por vários minutos, todos voltaram a seus afazeres, enquanto eu tratava de pegar o suco e sair dali rapidinho.
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Portelense e flamenguista

Já vivemos melhores dias.
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Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
 
Bizarrices 2

Nova rodada de e-mails que chegam por aqui:

"Estamos procurando um famoso, solteiro, para participar do +D, programa de decoração, arquitetura e designer do GNT. O tema vai ser apartamento de solteiro. Não é uma matéria sobre a vida pessoal dele, mas sobre a casa dele. O que tem, o que não pode faltar em um apto de solteiro... Espero seu retorno o quanto antes. Abraços e obrigada."

E por acaso agora viramos empresários de artistas? Outra mensagem:

"Eu sou leitor de vocês há muito tempo, e gostaria de saber se vocês poderiam me informar o e-mail do Ziraldo."

Isso é batata. Não passa um dia sem que alguém peça o telefone ou e-mail de alguém. Mesmo que essa pessoa não trabalhe no jornal, como é o caso do Ziraldo. Mais um e-mail:

"Feijoada de Edilásio Barra, no Scala, tem presença de Cesar Cardareiro."

Alguém saberia dizer quem são Edilásio Barra e Cesar Cardareiro? Não contente em nos enviar esta informação de grande relevância, o agente de Cesar Cardareiro ainda manda junto seis fotos do rapaz com amigos. Tem foto de Cardareiro com Leandro Léo (?), com Claudia Ferreira (??), com Pedro Nercessian (???), com Gabriela Lebron (????) e duas com o próprio agente! Deus meu.
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Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
 
Moraes?

Vou à casa de Roberto DaMatta e entrevisto o antropólogo durante duas horas. Na hora de se despedir, ele me diz:

- Tchau, Moraes.

Moraes?

Ligo para o jornalista Carlos Amorim em busca de algumas informações. No fim da conversa, ele fala:

- Fica combinado assim, Marcos. É Marcos, não é?

Não, não é.

Corto cabelo há cinco anos com a mesma mulher, e ela sempre me chama de Mário. Não tem jeito de acertar. Outro dia mostrei um jornal com uma reportagem e a assinatura: Mauro Ventura. Pergunta se mudou alguma coisa? Não, claro. Ela disse apenas: "Que barato, Mário!".

Há alguns anos, escrevi que nome é coisa séria. Vale a pena repetir o que disse na ocasião:

"Tem pai que acha bonito dar ao filho o próprio nome ou uma variante no diminutivo. Graças a esse narcisismo, surgem os Romarinhos, as Moniquinhas, os Segundinhos. Aqui em casa, sabiamente, se evitou um Zuenirzinho, um Zuenir Filho, ou ainda um Zuenir Júnior. Meu pai também não quis americanizar o nome, como fez Ronaldinho com o filho, batizando-o de Ronald. Escapei assim de ser chamado de Zoo Ennyr. Outro dia um jornal citava o ex-deputado Onaireves (Severiano ao contrário) Moura e o advogado Onurb (Bruno ao contrário) Couto. Não me imagino como Rineuz ou Oruam. Escaldado com a própria experiência - é um tal de ligarem atrás de Zoemir, Zeunuir, Joenir, dona Suelir, Juvenil, senhora Sulenir -, meu pai preferiu escolher um nome simples, com a devida concordância conjugal. Mas não adiantou muito. Logo depois do nascimento, um conhecido perguntou: 'Como vai o Lauro?'. Também não sei se é problema de dicção, mas quando me apresento ouço sempre: 'Paulo Ventura?'. Já desisti de consertar e, conformado, digo que sim."

Como vocês podem ver, o problema continua.
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Terça-feira, Fevereiro 01, 2005
 
Bizarrices

Os leitores devem achar que somos uma espécie de oráculo. Os e-mails que chegam aqui são inacreditáveis. Ontem, por exemplo, um leitor escreveu:

"Venho através desta solicitar informações sobre o artesanato de uma vaquinha e/ou burrinho que ao apertar a parte inferior, eles se 'desmontam', e ao soltar tornam a ficar em pé. Necessito do endereço da fábrica ou no mínimo o telefone. Esta necessidade é imperativa, pois disto depende a minha sobrevivência. Enviar a resposta para este e-mail."

Hein?

Também ontem chegou este, de uma leitora:

"Gostaria de saber toda a programação do ano Brasil na França. Vivo em Barcelona e gostaria de me programar para ir a Paris para ver principalmente Antonio Nobrega, Chico Buarque, maracatu e Mestre Salustiano. Por favor me envie as datas."

Alguém esqueceu de avisá-la que são mais de 400 eventos. Igualmente curiosas são as sugestões de pauta que chegam ao Segundo Caderno. Eis uma, enviada ontem:

"Olá, tudo bem? Fazemos Assessoria de Imprensa para Sabina Donadelli - Personal Stylist. Sugiro uma pauta de moda e comportamento bem interessante. Com o 'Big Brother Brasil 5', que tal analisar o guarda-roupa dos participantes? Eles sabem se vestir, combinar as peças? Existe algum estilo de participante que pode se tornar moda fora da casa? Para analisar os BBB's, a Personal Stylist Sabina Donadelli poderá dar dicas para que os telespectadores não errem na hora de se vestir como um dos participantes. Sabina Donadelli oferece atendimento personalizado e cursos 'in company', com o objetivo de valorizar o investimento na imagem pessoal para conquistar sucesso em todas áreas de atuação."

Isso é só uma amostra da bizarrice cotidiana aqui no jornal.

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