DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
on-line

   
 
Quarta-feira, Abril 20, 2005
 
Ah, nóis!

O taxista passava de carro por uma rua em Cordovil quando percebeu a mulata andando toda empinada e rebolativa, junto ao meio-fio. Não teve dúvida: botou o maozão na bunda da moça, apalpou o material e saiu dizendo:

- Vou ficar sem lavar a mão muito tempo. Ah, nóis!

Ele, machista até dizer chega, me garante que ela gostou, mas tenho para mim que a mulher deve estar xingando o sujeito até agora.
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Paz só no carnaval

Em janeiro deste ano, a revista "Rio, Samba & Carnaval" me convidou para fazer uma reportagem sobre a paz. É que várias escolas tratariam do assunto no desfile deste ano.

Fiquei feliz, porque minha escola - a Portela - era a que tinha o enredo mais assumidamente pacifista. Procurei o carnavalesco - Nelson Ricardo - e conversamos longamente sobre o tema "Nós podemos: oito idéias para mudar o mundo", que traduzia em samba as metas do milênio da ONU.

Ele e o outro carnavalesco, Amarildo de Mello, desenvolveram um carnaval que pregava um amanhã mais solidário e fraterno. Nelson me falou que um dos carros apresentaria uma grande máquina que destrói armas e cria confetes e bolas de gás, numa referência à alegria. Uma das alas faria uma citação a personagens como Gandhi, Dalai Lama e Martin Luther King. Outra ala traria integrantes da ONG Viva Rio e vítimas da violência.

As fantasias representariam soldados com enormes latas de lixo nas costas cheias de armas estilizadas, de onde sairiam flores.

- É para mostrar que lugar de arma é no lixo. E nossos soldados vêm de branco e prata, camuflados pela paz - contou-me Nelson.

Ando numa correria tão grande que só agora me dei conta da notícia que li no começo deste mês: "O Setor de Investigação da 28ª DP confirmou ontem que o corpo que está no Instituto Médico Legal de Tribobó, em São Gonçalo, é o do carnavalesco Nelson Ricardo Coutinho de Andrade, de 40 anos, desaparecido desde sexta-feira passada, quando saiu de casa, na Praça Seca, ao meio-dia, após falar ao telefone. O corpo foi encontrado no sábado, na Rua Augusto Ruch, no Colubandê. Nelson estava sem camisa, de sandálias e com uma bermuda cinza listrada."

Nelson foi estrangulado num motel da Rodovia Amaral Peixoto.

Pouco antes de encerrarmos a entrevista, ele tinha me dito:

- Mauro, a sociedade precisa se desarmar de todo e qualquer tipo de violência.

Infelizmente não lhe deram ouvidos, Nelson.





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Terça-feira, Abril 19, 2005
 
Bolão

Na hora em que anunciaram o novo papa, o desânimo tomou conta da redação. Em meio ao silêncio, uma voz comemorava a eleição do cardeal alemão Joseph Ratzinger.

Vibrava como se o Brasil tivesse ganho a Copa do Mundo. Alguém quis saber a razão de tanto júbilo. Ela explicou: foi a única ganhadora do bolão feito aqui na redação para acertar o nome do novo papa.

Uma colega, tentando encontrar algum consolo na eleição de Ratzinger, de 79 anos, conhecido por suas posições ultraconservadoras, diz:

- Daqui a pouco tem novo bolão.
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Logo ele

Mas será o Benedito? Foi.

- Está mais para Maledito - diz uma colega de redação, que conhece melhor o novo papa do que eu.

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Quarta-feira, Abril 13, 2005
 
Alegria de uns, tristeza de outros

Um amigo que faz trabalho social numa favela encontrou esses dias um traficante de 18 anos aos prantos. Quis saber o que houve. O rapaz, com um fuzil numa das mãos e um aparelho celular na outra, contou que estava emocionado porque tinha acabado de saber do nascimento de sua primeira filha.

Em seguida, ligou para a maternidade e pediu para ouvir o choro da criança. Pôs até o telefone no ouvido de meu amigo, para que ele compartilhasse também daquele momento de alegria.

Depois, com os olhos molhados, disse:

- Vou lá visitá-la. Vou levar um monte de fraldas! Você me desculpe que eu tenho que ir agora para a pista fazer uns assaltos para comprar as fraldas.

E, ainda com lágrimas nos olhos, seguiu para a Rua Itapiru, no Catumbi, em busca das próximas vítimas. Por via das dúvidas, evitem passar por lá.

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Fumacê

A moça chega lívida à sala dos professores da Unicarioca. Senta-se no sofá e logo lhe acodem com um copo d'água, abanos e pedidos de calma.

Perguntamos o que acontecera. Ela, em meio ao choro, diz que foi culpa do taxista. Pegara um táxi para vir à faculdade e, assim que entrara, sentira um cheiro estranho. Quando viu, o motorista estava fumando um cigarro de maconha. E assim prosseguiu durante toda a viagem, fumando tranqüilamente seu baseado com os vidros fechados.

Ela ficou com medo de contestá-lo e seguiu em silêncio no carro, em meio ao fumacê. Quando enfim chegou na universidade, desabou.

Já vi de tudo em matéria de táxi, mas esta é inédita.
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Domingo, Abril 10, 2005
 
Dossiê

Meu amigo Zeca Borges me liga. Zeca, para quem não conhece, é o coordenador do Disque-Denúncia (DD). Ele lembra que a chacina da Baixada Fluminense aconteceu na noite do dia 31 de abril e que, às 8h da manhã do dia seguinte, um dos funcionários do DD entrou no banco de dados do serviço e começou a pesquisar.

Ela juntou as palavras "grupo de extermínio" e "Queimados", e obteve 27 informações de janeiro de 2004 para cá. Depois, fez o mesmo com Nova Iguaçu - 52 informações - e Caxias - 40 e poucas informações.

Às 10h, eles já tinham 15 nomes de PMs acusados de participarem de grupos de extermínio. Quando a polícia pediu informações ao DD que ajudassem a elucidar a maior chacina do Estado do Rio, recebeu de imediato um dossiê prontinho. Dos 15 policiais citados, 12 estão presos, como suspeitos de terem matado 30 inocentes.

Mas os informantes do DD não deram pistas só sobre matanças anteriores. Eles têm acompanhado o trabalho da polícia atrás dos suspeitos. Como uma pessoa que ligou informando:

- A Polícia Federal está dentro da casa do sargento, mas ele fugiu num Audi preto.

- Mas por que você não dá essa informação para a PF? - perguntou a atendente.

- Não, isso eu só faço para vocês.

O Disque-Denúncia é tudo.
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Pesada

O técnico de Daniele Hypólito disse que ela está acima do peso e a ginasta ficou de fora da Copa do Mundo.

Daniele Hypopólito.
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Domingo, Abril 03, 2005
 
O melhor e o pior

O telefone toca e uma voz feminina pronuncia palavras ininteligíveis para um domingo de manhã. Em meio aos efeitos do álcool e à falta de descanso, diviso frases esparsas. "Você perdeu alguma coisa?", "seu cartão de crédito está aqui", "tem uma pasta sua comigo, aqui em Santa Teresa".

Aos poucos, o susto se impõe ao sono e começo a reconstituir meus passos na madrugada anterior. Eu tinho ido à festa de uma amiga na Lapa e estacionara numa ladeira ali por perto. Pelo visto, um ladrão abrirara o porta-malas sem que eu percebesse e dali tirara alguns objetos.

A moça ao telefone me deu um endereço e falou para eu estar às 19h no local. Ainda de pijama, fui até o carro e constatei que, sim, faltavam algumas coisas, entre elas a bolsa, duas luvas de boxe e um aparador de socos.

Um pouco depois da hora marcada, subi Santa Teresa atrás do endereço. Pergunta daqui, pergunta dali, e nada, ninguém jamais ouvira falar do lugar. Até que o garçom de um restaurante me ensinou o caminho. Era uma minúscula e íngreme travessa, na verdade um beco estreito, distante de onde eu estacionara. No meio de uma imensa, escura e assustadora escadaria, achei o número: 27. Uma moça atendeu à porta e, com rosto desconfiado, disse não ter a menor idéia do que se tratava. Perguntou o nome de quem eu procurava. Sonolento, eu esquecera de manhã de perguntar o nome da mulher ao telefone.

Falei que sabia apenas o nome da travessa e o número, 27. Ela me explicou que havia seis casas de número 27 na rua. Deveria ser uma das outras cinco. Fiquei matutando porque havia seis casas de mesmo número numa única travessa, quando uma vizinha apareceu no terraço e perguntou se era o Mauro. Disse que sim e fui convidado a entrar. Fui recebida por ela e pelo marido - Gesilda e Paulo, esses eram os nomes deles - numa casa modestíssima.

Gesilda me contou então toda a história. Ela estava a caminho da igreja quando vira a pasta jogada no meio-fio. Imaginara que devia ser de alguém que tinha sido roubado - já acontecera isto antes - e resolveu guardar. Por causa do peso e da escadaria, não tinha como voltar para casa e resolveu esconder a bolsa debaixo de um carro, coberta por revistas.

Na volta, pegou a pasta e procurou entre os pertences algo que identificasse o dono. Achou uma conta de telefone e me ligou. Para vocês terem uma idéia, havia na imensa bolsa todo tipo de coisa. Importantes para mim, mas inúteis para o bandido, que resolveu jogar fora: agendas, fitas de vídeo, fitas cassete, anotações, blocos, e-mails, livros, contas, contracheques, recibos etc.

Havia também um cartão de crédito e um papel do banco com a senha que eu, por ingenuidade ou distração, mantivera guardado ali. Eu recebera a correspondência do banco e ainda não tivera tempo de desbloquear. Devia ser um ladrão pé-de-chinelo, para esnobar o cartão.

Gesilda e Paulo recusaram qualquer retribuição material. Insisti, mas eles pareceram ofendidos com a oferta. Disseram que o importante era que eu tinha recuperado tudo. Subi aquela imensa, desértica e escura escadaria com uma sensação de bem-estar, profundamente agredecido por aquele encontro com Gesilda e Paulo.
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Sexta-feira, Abril 01, 2005
 
Papa

Sou um repórter emprestável. Minha editoria - Segundo Caderno - emprestou-me para a editoria Mundo, por conta da agonia do papa. Há duas semanas, onde vou, tenho que ficar com o celular ligado para o caso da morte de João Paulo II.

Hoje cedo, o telefone tocou. Antes mesmo de falarem algo, eu disse:

- O papa morreu.

Me disseram que sim e corri para a redação. Depois o Vaticano desmentiu. Enquanto isso, continuo por aqui, à espera da confirmação, refém da condição de saúde papal. Se ele morrer amanhã, tenho que largar tudo que estiver fazendo e correr para cá. A mesma coisa no domingo.

Lembro-me da primeira visita do papa ao Brasil, em 1980. Uma amiga, Maria Cristina Sá, é que organizou a vinda dele ao Rio. Ele se mostrou inteiramente disponível e topou a proposta de subir a Favela do Vidigal, dando aos moradores um dos maiores presentes de suas vidas.

Na última vinda, em 1997, também organizada por Cristina, João Paulo II falou que o Rio era tão lindo que aqui se encontravam a síntese da arquitetura de Deus com a arquitetura dos homens.

Vai fazer falta este papa.
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O tempo passa

Já vou para o meu quarto papa (quase pego também um quinto, João XXIII).
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