DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Quinta-feira, Maio 26, 2005
 
O dia em que balancei a República

José Dirceu, o número 2 da República, abaixo somente do presidente, resolveu se reunir a portas fechadas com um grupo de artistas. Chico Buarque, Augusto Boal, Maria Padilha, Paul Bétti e Hugo Carvana estavam entre os cerca de 40 convidados.

A reunião era fechada à imprensa. Cisca daqui, cisca dali, consegui entrar no encontro com o chefe da Casa Civil. Levei gravador, mas não tinha muitas ilusões de que poderia usá-lo. O ministro falou durante quase três horas. Na primeira hora e meia, consegui gravar escondido, de longe, mas depois o assessor descobriu e pediu que eu desligasse o aparelho.

Dirceu falou abertamente sobre os problemas do país, fez brincadeiras com Lula, discorreu sobre política e economia, e comentou seus encontros com o presidente Chávez, da Venezuela, e a secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice.

No dia seguinte, escrevi para o Segundo Caderno uma reportagem focando só a parte cultural, que ocupou pouco tempo do encontro. E o que fazer com o resto do material? O jeito era escrever outro texto, para a Nacional.

José Dirceu entrou em pânico, segundo me disseram. O ministro dizia que se saísse o que ele falou na reunião ele caíria. Explicou que eu estava lá em confiança e que não poderia vazar as informações. Os telefonemas se sucediam. O que fazer numa situação dessas?

Acabou que não precisei me preocupar com questões éticas. Para alívio de Dirceu, o jornal estava sem espaço para a matéria. E o que ele disse de tão bombástico? A meu ver, nada que pudesse demitir o ministro. Imagino que ele não gostaria de ver publicado trechos como as conversas com Chávez e Condoleeza. De tudo que ele falou, reproduzo aqui algumas passagens que acredito não vão derrubar Dirceu:

- Eu tenho a mesma angústia que vocês. Evidente que as coisas não andam bem, principalmente na questão política. Ando muito angustiado com o país.

- Estamos reorganizando o Estado brasileiro. O Ministério das Minas e Energia tinha um engenheiro. Isso não é caricatura. Estava tudo desmontado, o Ministério das Comunicações, o do Meio Ambiente, o Ibama, o Incra, a Polícia Federal, a Receita Federal, tudo.

- Quais os problemas que nós temos? Primeiro que a margem de manobra é muito pequena em qualquer votação no Congresso. Nós não devemos ter ilusões sobre isso. Fizemos votação da lei de heranças e doações e não arrumamos nem 100 votos na câmara e nem 20 no senado. Qualquer mudança que mexa para valer na estrutura do país não passa no Congresso.

- O maior choque que levamos quando chegamos ao governo foi a reforma agrária. Havia um estoque de 400 mil pequenas propriedades criadas sem assistência técnica, água, luz, estrada e financiamento. Até fim do ano todos os assentamentos terão assistência técnica e luz.

- A coisa mais grave que está acontecendo neste momento é que estamos começando a ter problemas de falta de trabalhadores qualificados no Brasil, em várias regiões. No Centro-Oeste, por exemplo, estão precisando buscar trabalhadores na região Sudeste.

- Todos os países da América Latina querem se integrar com o Brasil. E não há nada mais importante para o Brasil do que a América Latina.

- Nos EUA, hoje, Cuba não é mais assunto numa roda de conversas como essa. Mas está todo mundo preocupado com a Venezuela.

- Se não fosse Brasil e Venezuela, a economia cubana tinha entrado numa crise terminal. Se houver uma crise da Venezuela com EUA, Cuba é o primeiro país que vai afundar. Tudo que não pode acontecer para Cuba é a instabilidade na América Latina.

- O prefeito Cesar Maia assumiu o compromisso de fazer o Pan-Americano. Está tudo parado. Primeiro porque não tem dinheiro. Segundo porque custa de R$ 1bilhão a R$ 1,25 bilhão só para fazer o Pan, que envolve de 30 mil a 40 mil pessoas. Aí vem o Comitê Olímpico Internacional e apresenta um orçamento que diz que o governo federal tem que pôr R$ 650 milhões e a prefeitura, R$ 600 milhões. De onde o governo vai tirar dinheiro? Não faz o Pan? Aí é desmoralização, porque Brasil quer sediar a Copa do Mundo de 2014. Vamos ver onde tem gordura para cortar.
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Marcas

Passei o dia hoje em Santa Cruz, bairro na Zona Oeste que faz limite com outra cidade. É uma lonjura, mas a causa era nobre: entrevistar garotos que fazem teatro na região, contra todas as dificuldades.

Eu, que não tenho muito contato com garotada, achei o bate-papo interessante. Um dos adolescentes, Elvis, citou uma cena que viu no bar.

- Eram dois caras bem velhos - explicou.

Imaginei dois velhinhos, de seus 90 anos, mas ele completou, a sério:

- Tinham uns 50 e poucos anos.

Eu, que já passei dos 40, não achei graça.

Outro rapaz disse que seu apelido é Canhão. Nada a ver com ser feio ou ter o hábito de namorar mulheres feias.

- Não sei de onde vem o apelido. Na minha região, todo mundo me chama de Canhão. E eu chamo todo mundo de Canhão. Ninguém sabe quem é quem. "Fala Canhão?". "E aí, Canhão?". "Tudo bem, Canhão?".

O fascínio pelas marcas é evidente. Um jovem contou que comprou um tênis Adidas.

- Comprei porque gosto desse nome. Acho de rico. E para estrear meu tênis tem que estar frio. Senão você sua muito.

Outro prefere os produtos falsificados. Ele explicou:

- No Paraguai estão fazendo bem autêntico mesmo.

Teve um adolescente que se disse feliz com a camisa de marca que comprou.

- Quando botei a camisa parecia que as espinhas tinham até saído da minha cara.

Uma menina citou o caso de uma amiga, que diz:

- Quem não tem Melissa é alienada.

Também se falou de teatro, mas isso fica para a reportagem.



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Quarta-feira, Maio 25, 2005
 
Pouquinha gente

Acho que é um medo universal. Quando eu era pequeno, tinha pavor de dar uma festa e não aparecer ninguém. Lembro-me de meu pai contando a história de um menino que fez uma festa de aniversário e não recebeu sequer um convidado. O garoto falou:

- Pouquinha gente, né, pai?

Talvez por isto eu tenha dado tão poucas festas na vida. Dia desses, convidaram-me para dar a aula inaugural do curso "Cronistas que pensam o Rio", na Faculdade de Letras da UFRJ. Uma das organizadoras me avisou que o curso era um sucesso: já havia mais de 50 inscritos.

Cheguei à faculdade, dirigi-me à sala e, passados 30 minutos, havia no local os seis professores do curso e cinco alunos. Isso mesmo: cinco alunos. Dava mais de um professor per capita.

Os organizadores estavam passados. Juravam que não esperavam por isto, pediram desculpas, disseram que eles aguardavam mais gente. Tranqüilizei-os. Expliquei que era assim mesmo, que ninguém vai em aula inaugural, que cinco alunos era bom. Mas, no fundo, era tudo cascata. Estava frustrado de ter passado a noite preparando uma palestra, ter me despencado para o Fundão e ter diante de mim cinco gatos pingados.

Pensei: "Pouquinha gente, né?".

Resolvemos começar a apresentação. Eis que, passados uns dez minutos, a sala foi invadida por uma multidão. Parecia um arrastão. Simplesmente tinham dito aos alunos que a palestra seria em outra sala. Eles estavam há quase uma hora esperando em outro lugar. Deu para ver a cara de alívio dos organizadores. E mais ainda a minha.
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Quarta-feira, Maio 18, 2005
 
Marciano

Lá pelas tantas, na Bienal, um homem veio com a pergunta mortal:

- Está lembrado de mim?

Antigamente, eu disfarçava minha falta de memória. Dizia que "sim, estou lembrando", tentava prolongar o papo até encontrar pistas que me identificassem o interlocutor, falava frases vagas como "cara, quanto tempo!" ou "nossa, você por aqui?".

Hoje em dia, não. Fui sincero e disse simplesmente: "Não."

Ele, muito simpático, falou que era Bernardo, filho de Fernando Sabino. Imediatamente, todas as referências voltaram à memória e nos cumprimentamos efuzivamente. Ele explicou que está fazendo um documentário sobre o pai e perguntou se poderia me entrevistar. Sou péssimo diante de câmeras e pior ainda tendo que improvisar. Mas aceitei, pois falar de Fernando Sabino para mim é um privilégio.

Bernardo contou que já tinha entrevistado outras pessoas na Bienal. Disse que Paulo Bétti quase chorara ao falar de Fernando. Mas estava triste. Ele e o cameraman tinham acabado de se aproximar do ator Octavio Augusto e pedido um depoimento. A resposta, sem qualquer tom de brincadeira, foi:

- Não sei quem é, não. Não vou falar. Eu morava em São Paulo e vim para o Rio bem depois.

Não sei, não, mas para não saber quem é Fernando Sabino acho que ele morava é em Marte.

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Carga pesada

Chego de carro à Bienal do Livro, no banco de carona. O motorista abaixa o vidro e pede autorização ao segurança para entrarmos. O homem responde:

- É só para descarregar?

Logo em seguida, ele se toca e corrige:

- Ah, desculpa, é que é tanta descarga aqui. É só para deixar ele lá? - pergunta, apontando para mim.

O segurança até que não se enganou tanto. Tenho me sentido uma carga, de tanto que sou levado de um lado para outro, tentando dar conta de todas as atividades da Bienal. Aceitei o papel de mediador do talk-show "20 minutos de prosa", organizado pelo jornal. O problema é que são 12 encontros e eu estava afônico e com um princípio de gripe.

É um talk-show atrás do outro, a Bienal já está na metade e ainda não consegui visitar nenhum estande. Volta e meia encontro um rosto conhecido, e os olhos dos dois baixam discretamente para conferir os nomes nas credenciais.

O "20 minutos de prosa" com Verissimo e Chico Caruso foi um sucesso. Eu estava apavorado, porque o Chico não ia poder participar. Como o Verissimo é tímido, e eu também, íamos ficar os dois, um olhando para a cara do outro, diante de um público atônito. Mas o cartunista apareceu e deu um show. Contou histórias, dançou e cantou várias músicas. Numa delas, "Pederasta", sentou-se no colo de Verissimo e depois no meu. Foi ovacionado.

De vez em quando eu me atrapalho todo. Certa hora, peguei um livro e anunciei: "Verissimo está lançando este livro, As aventuras da Família Brasil!". Só que mostrei para o público "As mentiras que os homens contam". No talk-show sobre os guias do Globo, apresentei para a platéia o guia do Rio Antigo. O problema é que disse: "Aqui temos o guia Boa Viagem!".

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Ufa

O caderno sobre Rubem Fonseca tinha tudo para dar errado. Logo que soube da nossa idéia, o escritor falou com o filho Zeca: "Manda o Mauro não publicar este caderno!". Falei com Zeca que, claro, não havia essa hipótese. Íamos publicar mesmo sabendo que ele não gosta de homenagens, correndo o risco de desagradá-lo.

O problema é que ninguém ia se dispor a falar, com medo da reação de Rubem. Certa vez, ele ficou seis meses sem falar com meu pai depois que foi homenageado numa matéria.

Fui em frente e, depois de um mês de muita insistência, recebi boas novas de Bia, filha do escritor: "Papai topou não atrapalhar. Isso significa que ele não vai ficar chateado com as pessoas que falarem dele."

Foi a senha para que eu saísse a campo. Ouvi dezenas de pessoas. João Ubaldo, como se viu, não gostou. Mas eu estava curioso mesmo era em saber a reação do escritor Deonísio da Silva, que muito me ajudou no caderno. Será que ele também não tinha gostado? Será que ficou chateado de só ter saído uma ou duas frases?

Ontem, ao abrir o Jornal do Brasil, tive uma feliz surpresa ao ler sua coluna. Entre outras coisas, ele diz:

"De tudo o que li agora na celebração dos oitenta anos do escritor, passados 42 anos da promissora estréia, uma das matérias mais originais foi a de Mauro Ventura. Só lamentei, assim que li a reportagem que ele assinou em O Globo, que os entrevistados, ouvidos durante horas, comparecessem ali com duas ou três pequenas frases, mas isso, me disseram, são ossos do ofício."

Quando cheguei a esse ponto da coluna, levei um susto. Pensei: "Ah, meu Deus, ele também ficou chateado!". Mas fui em frente na leitura:

"Não o conhecia, nem tinha ligado o nome à pessoa, mas, dias antes de me entrevistar, soube tratar-se do filho de Zuenir Ventura. Queria muito atendê-lo, afinal defendi duas teses e escrevi três livros e vários textos avulsos sobre Rubem Fonseca, mas havia uma condição: ele tinha que me entrevistar na Barra da Tijuca. 'Não tem problema, marque dia e hora, e aí estarei.' (...) A tarde estava cheia de trabalho, mas pareceu que ia começar um antigo recreio escolar quando de repente vi diante de mim um menino humilde, sagaz, armado de perguntas diferentes das que comumente são feitas em tais efemérides."

"Vou começar a espalhar por aí que Zuenir Ventura não está com nada, bom mesmo é o Mauro Ventura. Ninguém vai acreditar na primeira afirmação, é claro, mas na segunda, sim."

Adorei o "menino".




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Quarta-feira, Maio 11, 2005
 
Susto

Para fazer o caderno dos 80 anos de Rubem Fonseca, entrevistei Deus e o mundo. Já que o escritor não ia falar, a saída era ouvir parentes e amigos. Um deles foi João Ubaldo Ribeiro. Ubaldo falou várias coisas sobre Rubem, mas, como é de praxe acontecer, na hora de fechar a reportagem coube a ele apenas três pequenas frases.

O que saiu publicado de Ubaldo sobre Rubem: "É uma grande companhia, simpático, culto, espirituoso, brincalhão. Mente descaradamente! Chega a disfarçar a voz no telefone."

Trata-se, claro, de uma brincadeira, para mostrar que Rubem Fonseca, tão reservado em público, é na intimidade um grande gozador. Este lado brincalhão está também ressaltado na matéria. Achei que estava claro, ainda mais porque o "mente descaradamente" vem logo depois de "espirituoso e brincalhão". Ubaldo não pensou assim e, no início da tarde de domingo, me escreveu:

"Caro Mauro,
Compreendi, mais uma vez, na pele, por que o Zé Rubem não dá entrevista. De tudo o que eu disse a você sobre ele, só saiu, e em destaque, que ele é mentiroso. Não está certo, não é justo, não é fiel, não representa meus sentimentos ou pensamentos em relação a ele e com certeza vai haver gente que pensa que, por inveja ou qualquer coisa assim, foi somente o que eu achei para dizer do Zé Rubem: que ele é mentiroso e disfarça a voz no telefone. Quem não dá mais entrevista agora sou eu. Abraços de
João Ubaldo"

Não fui só eu que recebi a mensagem. Ubaldo tem uma rede de amigos que recebem seus e-mails. Como Ubaldo é uma figura queridíssima e como metade da inteligência carioca recebeu a mensagem, assustei-me e entrei em contato. Ele explicou que estava preocupado com o leitor comum, que não costuma entender ironia. Eu disse que achava que estava muito clara a brincadeira, até porque a frase vem logo depois de "espirituoso e brincalhão". Depois de uma troca de e-mails, já acertamos os ponteiros e ele contou que não está zangado, nem magoado, nem se queixando. Menos mal. Pena que metade da inteligência carioca não recebeu os outros e-mails.
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Terça-feira, Maio 10, 2005
 
Madrugador

Estou exaurido. Passei as últimas semanas à caça de Rubem Fonseca. No domingo, finalmente, saiu um caderno especial dedicado aos 80 anos dele e de Dalton Trevisan.

Rubem é madrugador, ao contrário de mim, que sou notívago. Para seguir o escritor, tive que me adaptar aos seus horários. Durante três dias, fui dormir às 2h e acordei às 5h. Às 5h30, estava na porta de sua casa para acompanhar sua caminhada diárias pelo calçadão, seguida de um café da manhã numa lanchonete no Leblon.

Como ele não dá entrevistas, a saída era fazer que nem Gay Talese, que acompanhou Frank Sinatra e escreveu o melhor perfil já feito até hoje. O problema é que Rubem não deu as caras para fora do prédio nos dois primeiros dias. Passei horas inúteis diante de seu apartamento, sem qualquer resultado.

No terceiro dia, já desesperado com o prazo de fechamento, atrasei-me e só consegui acordar às 6h30. Fui direto na lanchonete, sem qualquer esperança de encontrá-lo. Todo o trabalho tinha sido em vão. Por acaso, esbarrei com o fotógrafo do jornal, que estava com a incumbência de fazer um flagrante do escritor.

Contrastando com o meu desânimo, ele estava eufórico. Justamente naquele dia Rubem Fonseca tinha saído de manhã e passeado pelo calçadão. Ele fizera várias fotos do escritor, enquanto eu dormia um sono profundo.

Desanimado, sentei-me num banco do Leblon, enquanto o fotógrafo tomava café num bar. Eis que vem chegando um senhor de boné, óculos escuros e camisa social. Era ele! Num salto, avisei ao fotógrafo, que levou um susto:

- Este é o Rubem Fonseca? Caramba, fotografei o sujeito errado!

E fomos os dois atrás do verdadeiro Rubem Fonseca. Deu tudo certo. Acompanhamos ele tomando café, pagando a conta, caminhando pelas ruas do Leblon e voltando para sua casa. Michel fez fotos excelentes do escritor e eu consegui a abertura da minha reportagem. Quem quiser ler a matéria pode clicar aqui.

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Gás novo

Tem horas que a gente anda meio desanimado, achando que o trabalho não faz diferença, não influi em nada. Eu estava assim, mas um e-mail de uma querida amiga, Heloísa Buarque de Hollanda, trouxe um pouco de gás a um dia ruim. É um tanto quanto cabotino publicar elogio, mas se não fizer isso aqui vou fazer onde?

Diz a mensagem da Helô: "Mauro, olha só que arraso: estou dando um curso sobre as coberturas feitas pela mídia dos projetos culturais da periferia. O curso tem metade de alunos da ECO e metade de garotos (as) dos projetos de periferia + algumas lideranças. É um baratão este curso. Pois bem. Ontem o Guti Fraga (responsável pelo grupo Nós do Morro) xingou a mídia de todos os nomes e disse: só tem um jornalista que é ético, competente e que tem responsabilidade social: É o MAURO VENTURA. Aí a Carmen Luz (da Companhia Étnica de Dança) e o povo do Jongo da Serrinha começaram a berrar que era isso mesmo e a aula virou uma ode ao Mauro. Viu????????? bjbj h."

Apesar do evidente exagero, fica aqui meu agradecimento ao Guti, a Carmen e ao povo do Jongo.
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Assunto indigesto

A conversa girava em torno de temas amenos, até que alguém comentou o drama de um amigo em comum. Dias antes, seu pai aproximara-se da janela, subira num banquinho e se jogara do sétimo andar. Casado há mais de 50 anos, expansivo e alegre, nada indicava que passava por algum problema. Não deixou sequer uma carta de despedida.

Imediatamente, todos na mesa começaram a se lembrar de casos de suicídio. Como é um tema praticamente banido da mídia, que opta por preservar a dor da família, poucos percebem a extensão do problema. Alguém lembrou de um amigo de 20 e poucos anos que tinha se enforcado com uma echarpe, a exemplo do estilista Amaury Veras. Outro falou na mãe de uma amiga, que se jogou do prédio.

Um terceiro citou a empregada de um conhecido, que tomou formicida e, não contente, subiu no banco e tentou pular da janela. Sua sorte é que acabou caindo para trás e não morreu. Um quarto comentou o caso de um jovem que fechou as janelas e abriu
o gás. Teve quem falasse em pulso cortado, tiro e salto debaixo dos trilhos do metrô. Alguém comentou que não são raros os casos de japoneses que escolhem as Cataratas do Iguaçu para morrer.

Uma das poucas conclusões a que se chegou é que não dá para pensar no assunto em termos de coragem ou covardia. Um dos presentes disse que em geral é a depressão que leva ao suicídio. Outro disse que é um impulso que dá e que faz com que a pessoa tente a morte, sem programar nada.

O impressionante era a quantidade de depoimentos: todos à mesa conheciam algum caso. Depois o papo voltou para assuntos mais corriqueiros e pudemos terminar o almoço.
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Domingo, Maio 01, 2005
 
Cóccix

Numa festa, um colega de ofício me conta que terminou o namoro. Ia tudo bem - ela estava inclusive morando em sua casa - mas a relação desandou.

Peço detalhes. Deu-se que, certo dia, ela comentou que ia no lançamento de um livro. Perguntou se o namorado queria ir, mas ele declinou do convite. Estava cansado, preferia ficar em casa.

No dia seguinte, ele foi almoçar com um amigo. O sujeito contou-lhe que o irmão estava feliz da vida. Conhecera uma moça no trânsito e, na noite anterior, tinha saído com ela. Deu tudo certo e parecia que ia surgir ali um namoro.

O amigo completou:

- E o legal é que ela é uma moça poética, musical. Você acredita que ela tem tatuada no cóccix uma clave de sol?

Meu colega quase caiu para trás. Numa dessas coincidências inacreditáveis, tratava-se da sua namorada, que inventara a história do lançamento para sair com o rapaz que conhecera de tarde no trânsito. E que foi traída por causa de uma reveladora tatuagem no cóccix.



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'Está sentindo o cheiro?'

Encontro um conhecido. Como é comum em conversas de senhores que já passaram dos 40 e que não se vêem há algum tempo, o papo acaba desaguando em saúde.

Ele me conta que perdeu o olfato. Foi após sofrer um aneurisma. O curioso é que ele só percebeu o fato tempos depois, quando deu carona a um grupo de amigos. A certa altura da viagem, ofereceram-lhe um baseado. Só então ele se deu conta de que os rapazes estavam fumando maconha. Mesmo com as janelas do carro fechadas, era incapaz de sentir o cheiro.

Não chego a tanto, mas se dependesse do olfato para sobreviver - como alguns animais - estava frito. Volta e meia alguém me diz: "Você está sentindo o cheirinho?". Não, não estou. Depois que me concentro é que percebo o aroma do café, do bife, do ovo ou do feijão sendo preparados.

O paladar e a audição também não são dos melhores. Quanto ao tato, confesso que não sei julgar. O que me salva é a visão. Ou pelo menos era, já que, forçoso admitir, está ficando menos afiada. Fui renovar a carteira de motorista e tropecei nas letrinhas da última linha. Coisa que o médico nem quis saber, aprovando-me sem problemas. Sei lá se por preguiça ou condescendência.


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Um baiano revoltado com baianada do governo

O governo elaborou a cartilha "Politicamente correto", onde ensina que se deve evitar certas palavras e expressões, como "a coisa ficou preta", barbeiro e baianada.

Pois um baiano mandou-me um texto a respeito do assunto. Seu nome? João Ubaldo Ribeiro. Diz o escritor:

"Caros amigos,
Anexado em forma de documento do Word está uma notícia publicada no Globo de hoje, sábado. É estarrecedor. Estamos ingressando numa era totalitária, em que o governo dá o primeiro passo para instituir uma nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar? Será proibido em breve o uso de palavrões na língua falada no Brasil? Serão eliminadas dos dicionários vocábulos e expressões não consideradas apropriadas pelo Governo? Palavras veneráveis da língua, como 'beata', em qualquer sentido, deverão ser banidas? Será criada uma polícia da linguagem? Os brasileiros serão proibidos por lei de discutir vigorosamente e xingar os interlocutores?

Que autoridade tem essa secretaria para emitir essas opiniões, que por enquanto podem ser apenas opiniões, mas nada impede, na ditadura mal disfarçada em que vivemos, que uma Medida Provisória, da mesma forma com que já nos confiscaram a poupança e os depósitos bancários, venha a ser baixada, confiscando também a nossa língua e os nossos costumes, mesmo os inaceitáveis pela maioria? Os escritores e jornalistas terão seus livros e textos examinados, para que se expurguem termos ou expressões condenadas? Contar piadas será tido como conduta anti-social e discriminatória? O governo é o dono da língua?

As palavras 'negro', 'preto', 'escuro' e semelhantes, nos casos em que não estiverem sendo usadas sem relação alguma com a cor da pele de ninguém, serão vedadas, se em qualquer contexto julgado negativo? As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os negros, quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)? Os túneis são escuros e existe alusão racial na expressão 'luz no fundo do túnel'? A peste bubônica não poderá mais ser mencionada como a 'peste negra'? Tratar-se-á como injúria ou difamação chamar de comunista alguém que até o seja, mas não se considere como tal? Não se poderá mais dizer que alguém é burro ou cometeu uma burrice? Será publicada uma lista de palavras de uso permitido, ou de uso proibido? Acontece isto em alguma outra parte do mundo? Se um homossexual, como fazem muitos deles, rotular-se a si mesmo de 'veado', poderá ser censurado ou punido? O pronome indefinido peculiar à língua falada no Brasil ('nêgo', como em 'nêgo aqui gosta muito de uma festa') só será aceitável se for numa afirmação elogiosa ou 'positiva'?

O ridículo dessa cartilha não nos deve cegar para o fato de que está começando o que parece ser uma ampla distribuição, que certamente atingirá as escolas, nas quais, já hoje, são obrigadas a classificar racialmente os alunos, dando a entender que certas áreas certamente considerarão um progresso e um passo em direção ao ambicionado terceiro mundo a instituição da segregação no Brasil. Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, preconceituoso (ele, sim), asnático, deletério e potencialmente destrutivo - e, o que é pior, custeado com o nosso dinheiro. Que está acontecendo neste país? Aonde vamos, nesse passo?

Quanto tempo falta para que os burocratas desocupados que incham a máquina governamental regulem nossa conduta sexual doméstica ou nosso uso de instalações sanitárias? Enfim, o que é isso, pelo amor de Deus? Até quando vamos suportar sermos tratados como um povo de ovinos imbecis e submetidos ao jugo incontestável da 'autoridade'? Todo poder emana do povo ou da burocracia? Podermos ser processados, se chamarmos um membro do serviço público de 'funcionário'? Temos liberdade para alguma coisa? Foi o Estado que nos concedeu o direito de pensar, opinar e dizer, ou este é um direito básico e inalienável, que não nos pode ser tirado? Não sei mais o que dizer sobre esse descalabro, esse escândalo, essa vergonha, esse sinal de atraso monstruoso, que de agora em diante não deverei mais poder chamar de palhaçada, para não insultar os palhaços.

Até onde vamos regredir? É preciso que reajamos, é indispensável que os homens responsáveis por tal despautério sejam dispensados do serviço público, porque lá estão para cometer atentados à liberdade e arbitrariedades desse tipo. É indispensável que assumamos nosso papel de cidadãos detentores da soberania que, pelo menos nominalmente, é entre nós a soberania popular. CHEGA DE BURRICE, CHEGA DE ABUSO, CHEGA DE INCOMPETÊNCIA, CHEGA DE MERDA JOGADA SOBRE NOSSAS CABEÇAS! Ou então que nos calemos e vivamos o destino de gado a que forcejam para cada vez mais nos impor, a escolha é nossa e essa iniciativa grotesca e idiota seja imediatamente esmagada, ou em breve não teremos direito a mais nada, nem à nossa língua, aos nossos sentimentos e à escolha de nosso comportamento que, não sendo criminoso, é exclusivamente da nossa conta e de mais ninguém. Não podemos ser mais humilhados e envergonhados dessa forma, exijamos respeito e seriedade, defendamos nossa integridade e dignidade, rebelemo-nos e, sim, xinguemos - bons filhos das putas - ou, melhor, bons rebentos de profissionais femininas do sexo, para respeitar as novas diretrizes. Vão se catar, e não às nossas custas, como vêm fazendo até agora. Desculpem, mas eu não posso conter a indignação e tentar passá-la para tantos compatriotas quanto possível.

Saudações democráticas, revoltadas e dispostas a se tornarem revoltosas, de João ubaldo Ribeiro"
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