DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Quinta-feira, Junho 30, 2005
 
Cícero

Ontem fui jantar no Nova Capela, após a exibição do Momix, no Teatro Municipal. O garçom era o Cícero, conhecido por quem freqüenta a boemia carioca. O nome me despertou curiosas lembranças.

Um amiga ouviu falar de uma simpatia para arrumar namorado. A mulher tem que encher a boca de água e esperar atrás da porta. Assim que gritarem um nome masculino, ela tem que engolir a água. Com isso, diz a lenda, consegue arranjar um homem com o nome que foi gritado.

Minha amiga, no desespero, resolveu tentar. No primeiro dia, não se ouviu nenhum grito e ela passou a tarde com água na boca. Ela só torcia para a mãe não chamar o pai, que tem nome de Etevaldo ou coisa parecida. Acabou desistindo.

No segundo dia, ela já estava havia três horas com a boca cheia quando ouviu a vizinha chamando o marido:

- Cícero!

Ela engoliu a água e pensou:

- Além de encalhada, sou azarada. Vou arrumar logo um homem com o nome de um dos Três Porquinhos!

Essa amiga é muito divertida. Outra amiga em comum também tem boas histórias. Certa vez, ela viajou para a Europa com a avó. Seja por vaidade ou por não querer assumir o envelhecimento, o caso é que a senhora não usa óculos, apesar da miopia. Pois bem, as duas foram para um hotel. Ela estava no quarto quando ouviu a avó gritar do banheiro:

- Adriana! Adriana! Puseram a gente num motel!

- Que é isso, vó?!

- É sim. Olha só: tem camisinha e gel no banheiro!

Era touca de banho e shower gel.

Debochada, ela pegou a touca e brincou com a avó:

- Você acha que alguém tem o pau deste tamanho, vó?

Mesmo míope, a distinta senhora teve que concordar com a neta.



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Quarta-feira, Junho 29, 2005
 
Beijo

A matéria de capa da revista Megazine de ontem falava sobre os jovens que saem beijando a torto e a direito nas micaretas e nas festas. Tem rapaz que beija até 40 meninas numa noite. Em oito horas, ele beijou mais gente que eu em quase 42 anos de vida.

A vulgarização do beijo foi o assunto do nosso almoço. Uma repórter falou de sua amiga, quarentona como eu, que não se acostumou com os novos tempos. Ela diz que, para beijar alguém, tem que ter referências.

Outro repórter contou o caso de um amigo que perguntou o nome da moça que tinha beijado. Ela reagiu irritada: "Para que você quer saber?!".

Talvez inspirada na reportagem, uma jovem mandou uma corrente por e-mail:

"O negócio é BEIJAR MUUUITO!!!!! Mande para 20 pessoas ou vai perder o amor da sua vida... se quebrar essa corrente.. ñ vai beijar ninguém por 98 meses, e ñ queremos isso, então se liga, e se mandar essa mensagem para 20 pessoas vai ser Beijado pela pessoa que gosta, Blz eh facinho é só copiar e colar mande a mensagem nos próximos 15 min (quem te devolver quer te Beijar)".

Porque 98 meses não sei.
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Do outro lado

Por causa do blog, volta e meia sou procurado para dar alguma entrevista - e eu adoro. Passo a vida entrevistando gente, então é bom de vez em quando inverter um pouco as coisas. Em geral, é para alguma dissertação, tese ou reportagem sobre os jornalistas e os blogs.

A mais recente foi para a revista Paradoxo. A matéria, assinada por Ana Clara Costa, saiu ótima, como se pode ver aqui.
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Terça-feira, Junho 28, 2005
 
Acidente

Ligo para minha irmã, pedindo uma ajuda. Ela me explica que não está podendo falar direito. Está num enterro, em Jardim Sulacap. Quem morreu é o sobrinho de uma grande amiga nossa. Não conseguiram me avisar a tempo.

No domingo, um almoço reuniu toda a família de minha amiga. O rapaz estava animado como sempre, distribuindo sorrisos e afeto. No dia seguinte, morria num acidente. Ele era o piloto do helicóptero que se chocou contra o prédio da Faculdade Bennet. Vida louca.
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Segunda-feira, Junho 27, 2005
 
Novo nome

Outra mensagem que desembarcou na minha caixa postal:

"Olá, sou estudante de jornalismo da Universidade de Caxias do Sul. Na última sexta-feira você esteve aqui dando uma palestra no nosso seminário 'Literatura x Jornalismo: a fronteira entre os dois gêneros'. No entanto, não pude participar e por isso venho agora por meio deste te pedir uma orientação. (...) Você poderia me ajudar? Espero não estar sendo abusada, mas tenho que arriscar, não? Desde já agradeço a sua atenção e aguardo retorno.
Abraços,
Vivian Fiorio"

Só tem um detalhe: nunca estive em Caxias do Sul. Adoraria ajudar a Vivan, mas trata-se, como vocês podem imaginar, de um homônimo. Como já disse antes, tem horas que acho que Mauro Ventura é mais comum que José Silva. Meu nome completo é Mauro Akiersztein Ventura, mas quando virei jornalista optei por eliminar o nome do meio ao assinar as reportagens. Até porque ficaria meio difícil alguém lembrar ou pronunciar o sobrenome herdado de meus avós poloneses.

Mas agora, depois de 20 anos de profissão, estou pensando em mudar a assinatura. Quem sabe Mauro A. Ventura?
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Resposta

Outro dia fiz graça com uma mensagem que chegou à redação sobre a Corrida das Galinhas, em Pernambuco. Por conta disso, recebi o seguinte e-mail:

"Oi, Mauro,
Tava dando uma olhada no seu blog e vi um e-mail enviado por nós. Na verdade enviamos para O Globo (o e-mail geral da redação), para fazermos contato, pois em anos anteriores a Corrida das Galinhas já virou notícia em vários jornais de circulação nacional, como O Globo. Não confundimos com o Globo Rural, mas não entendi como o e-mail chegou até você.
De qualquer forma desculpa pela trapalhada.
Um abraço,
Ondine Bezerra"

O que posso dizer? A mensagem é tão simpática e delicada que fiquei até arrependido da gracinha que fiz.

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Terça-feira, Junho 21, 2005
 
Montanha abaixo

Mal cheguei de viagem e já estou em terra estrangeira, desta vez no Chile. Mais precisamente em Portillo, debaixo de uma nevasca, deslizando montanha abaixo, para uma reportagem sobre esqui. Mais tarde dou mais detalhes.
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Domingo, Junho 19, 2005
 
Ao telefone

Só liguei uma vez para uma emissora de TV. O programa "Você decide" perguntava se a mocinha deveria ou não ficar com o personagem principal - um bicheiro ou, como preferem alguns jornais, um banqueiro do bicho.

Liguei compulsivamente, votando em "não", mas fui fragorosamente derrotado.

Dia desses, numa das raríssimas zapeadas pela TV, dei de cara com uma tarja dizendo que a briga entre ateus e espíritas estava pegando fogo.

Deti-me e vi que era o programa daquela moça que deu o golpe da barriga no Mick Jagger. De um lado do ringue, na tela, estavam um senhor que narrava seus contatos com Churchill e Vargas, uma senhora inclassificável e uma jovem cujo rosto não me era estranho.

Do outro lado, estavam três jovens céticos e bem articulados. A luta estava toda a nosso favor. E o placar refletia isso. Mas eis que, talvez por excesso confiança, os ateus passaram a se mostrar um tanto quanto debochados. Desdenhavam dos adversários, davam sorrisinhos irônicos. E o placar sobre quem tinha razão no debate virou.

Passei a ligar furiosamente para a emissora paulista, logo eu, que não peguei o telefone no "Criança Esperança" e no "Big Brother Brasil". Mas foi um massacre. Fomos derrotados por 58% a 42%.

E não quero nem ver a conta de telefone.
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Quarta-feira, Junho 15, 2005
 
Engano

Encontro debaixo da porta de casa um envelope. Pequeno e branco, não se distingue de outros tantos que se vê por aí. Não há qualquer identificação de remetente. Abro-o e dou de cara com o seguinte texto:

"Você acaba de receber o cartão Daslu. Isto significa que a partir de agora você é cliente especial da boutique mais exclusiva do Brasil. Tenha sempre com você este cartão para garantir seus privilégios (vallet parking e estacionamento gratuitos). Seja bem-vindo à Daslu."

Junto com o texto, recebo um cartão magnético preto e elegante, com o desenho da fachada da loja. Pensei imediatamente em Carlos Drummond de Andrade. Lembro-me de seu espanto quando recebeu em sua mesa de trabalho um vistoso e gigantesco envelope. Imaginava ter ganho de presente uma gravura preciosa. Quando abriu, viu que se tratava da propaganda de um majestoso edifício na Praia de Copacana. O cronista perguntava:

"Por que me mandastes, senhor, vosso cativante prospecto? Acaso me tínheis na conta de gordo possuidor de reservas (...)? Informou-vos um gaiato que eu fizera os 13 pontos?".

Meu espanto é semelhante. Acaso me julgam capaz de freqüentar o templo dos endinheirados brasileiros? Eu, que sigo uma dieta de vestuário quase franciscana, que pago minhas contas a duras penas, iria fazer o que numa megaloja de luxo em que um jeans custa R$ 5 mil? Muito obrigado, mas acho que foi engano.
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Segunda-feira, Junho 13, 2005
 
Então tá

Você deixaria seu filho dormir com Michael Jackson? Pois o júri decidiu que não tem nada demais. Ele não é nem pedófilo nem pederasta. Periga até sair dessa história com fama de machão e pegador. E é capaz de ir jantar baby beef para comemorar.

Um amigo diz: se fosse negro, que nem o Mike Tyson, duvido que escapasse. Mas como virou branco...
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Linha cruzada

Tinha quase 20 anos que eu não entrava numa sala de aula. Agora, estou de volta, mas do outro lado do balcão.

E o que mais tem me impressionado como professor é a naturalidade com que o celular foi incorporado aos hábitos da turma. Uns pedem licença e saem da sala para falar. Outros, falam baixinho - o que distrai a atenção do mesmo jeito. E tem alguns que começam a conversar como se estivessem a sós - e como se nós é que atrapalhássemos.

Daqui a pouco vai ser preciso ter em sala de aula aquela advertência dos cinemas e teatros: "Por favor, desliguem seus celulares."
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Às voltas com nós

Ainda me lembro de uma noite qualquer de 1994 em que fui ver o Momix no Municipal. Antes do grupo, ia se apresentar uma desconhecida companhia de dança carioca.

Ninguém estava nem aí para ela, o que todos aguardavam eram os bailarinos americanos. Terminada a noite, o assunto das conversas era a Companhia de Dança Deborah Colker, que fazia ali sua estréia. Desde então não perco um espetáculo. Alguns deles, como "Rota", vi mais de uma vez.

Por isso, tomei um susto quando recebi um telefonema da assessora de Deborah pedindo que eu escrevesse o texto de apresentação do programa de seu novo espetáculo, "Nó", que está em cartaz no Teatro João Caetano. Falei para mim mesmo que ia recusar. Primeiro, porque não sou especialista em dança. Segundo, porque era responsabilidade demais para meu gosto. Acabei aceitando.

Fiz o texto. Deborah leu, disse que terminou a leitura com lágrimas nos olhos e contou que foi a melhor coisa que já escreveram até hoje sobre a companhia dela. Mas... Tem sempre um mas. Mas, segundo ela, o texto entrega muito o espetáculo, dando pouco espaço para o espectador tirar suas próprias conclusões. Se fosse uma crítica, estaria perfeito. Com isso, apenas um trecho do que escrevi foi usado no programa. Para que ele não fique inédito, aí vai o texto na íntegra:

O plural de nó é nós, e isso, mas que um jogo de palavras, é a constatação de como o novo espetáculo de Deborah Colker mexe fundo com o espectador. Em "Nó", a coreógrafa transforma em dança um tema demasiado humano, o desejo, e nos leva a investigar partes inexploradas de nós mesmos.

No palco, o público acompanha, entre seduzido e fascinado, um espetáculo ao mesmo tempo violento e delicado, brusco e sensível, contundente e lírico, chocante e amoroso.

Deborah nos traz bailarinos amarrados com cordas, corpos que se aprisionam e se libertam, movimentos inspirados em um cavalo, dançarinos entrelaçados, uma mulher presa pelos cabelos.

Na coreografia do desejo de Deborah, os bailarinos se movimentam, no primeiro ato, em meio a um emaranhado de 120 cordas. Cordas que dão nós e que simbolizam os laços afetivos que nos amarram. Cordas que servem para aprisionar, para puxar, para ligar, para libertar e, no caso de "Nó", para enfeitiçar o espectador.

No segundo ato, a floresta de cordas dá lugar a uma caixa vermelha transparente, inspirada nas vitrines com garotas de programa do Bairro da Luz Vermelha, em Amsterdã. Neste aquário gigante, que ao mesmo tempo impede e aproxima, os bailarinos se enlaçam e se desenlaçam, se atraem e se opõem, se atam e se desatam. É uma metáfora do desejo, daquilo que se quer, mas não se pode pegar, daquilo que se vê, mas não se pode ter, daquilo que se ambiciona, mas não se pode realizar.

A companhia de Deborah, que costuma equilibrar com rara competência movimentos clássicos, contemporâneos e acrobáticos, aqui mostra também domínio das técnicas do bondage e da amarração dos nós.

Com um olhar voyeurista, a platéia acompanha os bailarinos num espetáculo visceral, recheado de elementos fetichistas como cabelos e cordas. Num espetáculo de intensa comunicação com o público, Deborah evita eleger vítimas e culpados. Ela prende a atenção ao apresentar a teia de relacionamentos humanos e mostrar que, mesmo nos momentos de dominação, há espaço para a escolha e o consentimento. Um domina e o outro é dominado, mas os papéis se invertem e se misturam. A perversão seduz, a sedução perverte.

A coreógrafa consegue encontrar delicadeza num universo de perversão e elabora uma originalíssima mistura de caos e disciplina, de entrega e controle, de domínio e submissão. Com "Nó", os laços que amarram o espectador a Deborah Colker se estreitam ainda mais.
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Terça-feira, Junho 07, 2005
 
Cócóricócócó

Palpitante sugestão de pauta que acaba de chegar ao jornal:

"Após cinco anos, a Corrida das Galinhas está de volta com a sua 8ª edição. O evento acontece em São Bento do Una, interior de Pernambuco, e tornou-se a principal festa da cidade com turistas do mundo todo. Uma das características marcantes do evento é a gozação com pessoas públicas e famosas. O fato é que a Via Mídia Comunicação está fazendo a assessoria da Corrida das Galinhas esse ano e gostaria de obter os contatos do Globo para o envio de uma sugestão de pauta. Aguardo resposta."

Acho que nos confundiram com o Globo Rural.
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Segunda-feira, Junho 06, 2005
 
A CNN se rende ao blog

A World Report Conference, em Atlanta, tratou de alguns temas-chaves da profissão. Na conferência mundial de jornalismo organizada pela CNN, foram debatidos os assuntos mais relevantes da atualidade, como a questão árabe, a falta de confiança do leitor/telespectador na mídia e a Tsunami, seis meses depois.

O que mais me impressionou foi que um dos principais debates, em pé de igualdade com os demais, tratava disso aqui que estou fazendo agora. Isto é, blog. O painel, chamado "Blogging: O quinto poder", fazia referência à imprensa, que é considerada o quarto poder. Os principais executivos de TV do mundo estavam lá, atentos, ouvindo os palestrantes falando de como os blogs estão mudando a cara do jornalismo.

Para quem ainda tinha dúvida, blog é coisa séria.
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Ted

Ted Turner não é mais o dono da CNN, mas foi o grande homenageado da World Report Conference, em Atlanta. Quando ele lançou a emissora, em junho de 1980, as pessoas deram risadas. Hoje, já há mais de 70 canais de notícias 24 horas no mundo.

Ele aproveitou as homenagens para dar algumas estocadas. Disse que a CNN-USA, que cobre o mercado americano, deveria se preocupar mais com assuntos ligados a meio ambiente e dar menos atenção à "perversão do dia", numa referência a Michael Jackson.

Turner não está mais casado com Jane Fonda. Alguém me conta que ela se tornou uma fanática religiosa e ele cansou. Numa das festas, tenho a oportunidade de abordá-lo. Pergunto o que ele acha do Brasil.

- Já fui várias vezes. Es muy caliente!

Ele também disse que o brasileiro é que tem que preservar a Amazônia e que ele não vai botar dinheiro nisso.

- Os brasileiros é que têm que se concientizar e lutar por ela.

Em seguida, pedi para tirar uma foto ao lado dele - a exemplo do que fizeram quase todas as pessoas na festa. No outro dia, quem estava presente à conferência era o cantor Ricky Martin. Muito simpático e acessível. As jornalistas faziam fila para tirarem foto. Achei ridículo - até me lembrar de que eu tinha feito o mesmo com Ted Turner e também com a Christiane Amanpour.
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Dossiê

Em Atlanta, tivemos a chance de conversar com as principais estrelas da CNN. Um dos papos mais interessantes foi com Christiane Amanpour, a mais famosa repórter de TV do mundo, acostumada a cobrir guerras como as do Iraque, do Afeganistão e da Bósnia.

No último dia, descobri que, antes das entrevistas, a CNN mostrava aos seus âncoras, jornalistas e dirigentes um dossiê com o nosso perfil, para que eles soubessem quem ia entrevistá-los. Procura daqui, pergunta dali, consegui ter acesso ao material que a CNN preparou sobre mim:

"Mauro is a key new contact for us, since he works as what Brazilian media calls a special reporter, a journalist who is able to cover any story and can write pieces for differente sections of a medium. Howewer, he is more focused on Cultural issues and seems very clever. He might be able to write a very good piece on the history of journalism in CNN, for example. He is very nice and easygoing."

Numa tradução apressada, é algo como: "Mauro é um novo contato chave para nós, já que ele trabalha como o que a mídia brasileira chama de repórter especial, um jornalista que é capaz de cobrir qualquer história e escrever reportagens para diferentes seções de um veículo. No entanto, ele está mais focado em assuntos culturais e parece muito inteligente. Ele pode ser capaz de escrever uma reportagem muito boa sobre a história do jornalismo na CNN, por exemplo. Ele é muito legal e fácil de lidar."

Acho que confundiram as pessoas...
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Domingo, Junho 05, 2005
 
Cenas de Atlanta

- No almoço, escolho para comer carne de bisão, especialidade do restaurante. Para beber, peço uma cerveja, mas a garçonete me diz: "O senhor vai ter que esperar cinco minutos." Diante do meu estranhamento, ela explica: "São 12h25 e em Atlanta só se pode servir bebida alcoólica depois do meio-dia e meia."

- Aqui, como aliás nos EUA inteiro, os motoristas respeitam todos os sinais. Um taxista me explica que é medo da polícia. Caso você seja parado, não tem jeitinho, conversa ou propina que dê resultado. A relações públicas da empresa Turner conta que, na semana passada, ela voltava de carro para casa quando foi parada por policiais. Tinha bebido apenas uma cerveja, mas foi obrigada a levantar uma das pernas, esticar os braços e contar até 120. Tudo para provar que não estava bêbada. "Se eu estivesse de salto alto, teria caído e iria presa", conta-me ela, assustada.

- Acordamos todo dia às 7h para trabalhar e as tarefas se estendem até 23h. Num dos poucos intervalos de descanso, vamos ao Lenox Mall, principal shopping de Atlanta. O que mais impressiona - positivamente - é o público. Os negros são quase metade dos freqüentadores. Elegantemente vestidos, eles circulam cheios de compras pelos corredores, antes de entrarem em seus potentes carros e irem para suas requintadas casas. É verdade que Atlanta é um caso especial - aqui nasceu Martin Luther King e a cidade foi palco de violentos protestos raciais. Mas ainda assim é impressionante. É como se você chegasse ao BarraShopping e, em vez de só ver negros como seguranças ou faxineiros, visse que eles representassem quase 50% dos freqüentadores.
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O centro vira mar

Ao entrar no quarto do hotel em Atlanta, sinto-me como se estivesse numa praia deserta, e não no centro de uma cidade de quase quatro milhões de moradores. Depois entrendo a razão: uma música ambiente, vinda do rádio, reproduz o som das ondas e das gaivotas. É uma forma de dar boas-vindas ao hóspede.

O despertador permite que você seja acordado pelo sor do mar, das florestas, do vento ou de um riacho. As novidades não terminam aí. No banheiro do centro de convenções do hotel, você não precisa puxar a alavanca para pegar papel e enxugar as mãos. Graças a um sistema de infravermelho, o papel sai sozinho, evitando o contato das mãos com a haste. Mais higiênico, impossível.
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Paranóia

Passei os últimos dias em Atlanta. Para um jornalista, não havia melhor lugar do mundo para estar. Fui para o World Report Conference, encontro mundial de jornalistas que, este ano, celebrou os 25 anos da CNN, emissora criada por Ted Turner em junho de 1980.

Tinha prometido a mim mesmo que não ia voltar aos EUA enquanto Bush estivesse na presidência, mas o convite era irrecusável. Pena que esteja tão difícil entrar no país. Era a primeira vez que eu ia desde o 11 de setembro, e as medidas de segurança desanimam o viajante.

Cheguei a Atlanta ao mesmo tempo que centenas de militares americanos - e mesmo eles foram obrigados a tirar os sapatos para serem analisados pelo raio X. No aeroporto, ao chegar, não se pega a bagagem e sai, como em qualquer lugar do mundo. Você pega as malas, bota-as de novo numa esteira e tem que pegá-las novamente em outro lugar.

Antes de entrar no avião, em São Paulo, é preciso jogar fora isqueiro e fósforos. Na alfândega americana, somos fotografados e temos que deixar nossas impressões digitais.

Mas o que causou risadas nos brasileiros foi o comunicado feito dentro do avião da companhia Delta: "Os passageiros não poderão formar grupos ao redor dos banheiros ou da cozinha." As novas medidas de segurança dos vôos incluem outra ordem: "Os passageiros só podem usar banheiros da mesma classe. Os da primeira classe só podem usar os da primeira classe. Os da econômica, só os de sua própria classe."

Deixar os Estados Unidos também não é fácil. Na hora do check-in, não se despacha simplesmente a mala, como é de se esperar. É preciso levá-la para ser passada pelo raio X. Depois do raio X, algumas são selecionadas e minuciosamente esquadrinhadas por funcionários com luvas de plástico. Se você tiver sorte de escapar dessa primeira peneira, não comemore. Há um segundo crivo: antes de entrar no avião, alguns passageiros são selecionados para uma nova revista completa da bagagem. Brabeira.
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Adeus

Mais um domingo de plantão aqui no jornal. Fiz as contas e descobri que, dos últimos oito fins de semana, trabalhei sete, sem nenhum descanso durante a semana.

É que juntou frila, com Bienal do Livro, com viagem a trabalho, com plantão. Somando tudo, chega-se ao seguinte número: nos últimos 51 dias, só não trabalhei três.

Quem quer ser jornalista tem que levar em conta isso: a vida pessoal é inevitavelmente sacrificada. Hoje, por exemplo, era almoço de aniversário de meu pai. Família toda reunida, menos eu. Também recebi um telefonema comunicando que um querido amigo tinha morrido hoje de manhã e o enterro seria às 16h, em Santa Cruz. Ainda tentei ir, mas não deu tempo.

Josmar foi meu analista de 1985 a 1995. Ex-padre, largou a batina porque queria ter filho. Percebeu que, quando dirigia, ficava fascinado com as crianças que acenavam do carro da frente. Casou-se, teve um menino - hoje já na faculdade - e virou terapeuta. Era brilhante. Tinha clareza, sabia manejar como poucos a palavra e sabia acalmar nossos demônios interiores. Foi fundamental em transformar aquele sujeito extremamente amedrontado diante da vida - eu - em um cara que não se acanha em correr riscos.

Há duas semanas, achou que estava com uma bursite. Feitos os exames, constatou-se um câncer nos ossos. Foi tudo rápido demais, não deu tempo de agradecer tudo que fez por mim. Mas na missa de sétimo dia contarei a seu filho a extraordinária importância de seu pai em minha vida.
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