Segunda-feira, Julho 25, 2005
Rosa
Encontro uma amiga que está grávida. Mais uma, aliás. Só aqui no jornal são sete repórteres grávidas.
Mas de volta à minha amiga. Pergunto se já escolheu o nome do bebê.
- Vai ser Rosa.
Elogio a escolha. Querendo mostrar erudição, pergunto se é por causa da escritora espanhola Rosa Monteiro, autora do belíssimo "A louca da casa".
- Não. É por causa de Guimarães Rosa.
Nunca tinha pensado nisso.
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Quarta-feira, Julho 20, 2005
Xuca
Toca o telefone aqui na redação.
- Eu queria falar com o Artur, por favor.
Quando alguém chama o Xexéo de Artur eu vejo logo que é roubada. Expliquei que ele não podia atender, mas que ele poderia me dizer do que se tratava. Apresentei-me como Juca, meu alter ego para atender a telefonemas assim. O rapaz contou que passou um e-mail para o Artur convidando o jornal para um festival e queria saber se ele recebera. Eu disse para ele ficar tranqüilo que deixaria recado para o Artur. Ele agradeceu e pediu meu e-mail para repassar a mensagem.
Alguns minutos depois, recebi o e-mail.
"Querida, tudo bom? Falei com você agora pouco pelo telefone...
Estou fazendo a assessoria do (...) e gostaria de saber se vocês não estão interessados em cobrir o evento in loco. (...)
Juca/Xuca (não entendi bem ao telefone, pedão), então é isso, veja se consegue dar uma palavrinha com o Artur, tá? Muito obrigado pela atenção e parabéns pela simpatia..."
Acho que a partir de agora vou trocar o Juca por Xuca.
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Terça-feira, Julho 19, 2005
Ecos da Flip 3
Saíram boas frases das várias mesas que vi na Flip. O dublê de escritor e cozinheiro Anthony Bourdin, autor de "Cozinha confidencial, disse:
- Não há muitos vegetarianos no Brasil. Isto é uma coisa muito salutar.
O português Gonçalo Tavares falou de uma menina que era tão vesga que, na quarta-feira, olhava para os dois domingos. Ele aproveitou a metáfora para falar:
- Tento fazer isso como escritor. Olhar para o passado e para o futuro.
Ele disse ainda que, como escritor, quer encantar e desencantar. Explicou que desencantar quer dizer "parar a canção".
- É como aquele cara que pára a música no meio de uma festa. Ao parar, ele também faz com que você pare de cantar a mesma música que todo mundo e olhe para a janela.
E, olhando pela janela, você vê o mundo e pensa por si mesmo.
O também português Pedro Rosa Mendes, autor de "Baía dos Tigres", falou sobre o cenário devastado que encontrou em Angola. Explicou que a antiga colônia portuguesa na África tem riquezas naturais - petróleo e diamantes -, mas faz parte do que ele chama de zonas de pilhagem. Para ilustrar, contou que os dois únicos prédios construídos em 25 anos em Luanda, capital do país, são de empresas multinacionais. Uma de petróleo e outra de exploração de diamantes. E revelou que 9% das necessidades energéticas diárias dos EUA vêm de Angola.
- E quase nenhum americano sabe sequer onde fica Angola no mapa.
Mendes estava na mesma mesa que John Lee Anderson, que escreveu sobre a guerra no Iraque. Os dois disseram que ficaram impressionados com as condições das populações que encontraram pelo caminho.
- A condição humana pode ser tão deteriorada que as pessoas chegam a viver como baratas, pilhadas de uma normalidade emocional, física, corporal. Esse esterco humano também foi produzido por nós, portugueses - fez o mea-culpa Mendes.
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Quinta-feira, Julho 14, 2005
Tomando todas
A foto principal dos jornais de hoje mostra Gil e Lula chorando. Alguém diz que a cara do presidente não parecia de choro. Parecia mais que ele tinha tomado uns gorós, como aliás é comum.
Outro colega brincou:
- O presidente tomou todas... as providências para esclarecer as denúncias.
A brincadeira é boa, mas já rendeu confusão. Um repórter de rádio foi demitido por isso. Ele não gostava do presidente da CBF, Ricardo Teixeira - aliás, quem gosta? E, por implicância, resolveu começar a transmissão assim:
- Ricardo Teixeira tomou todas...
Depois de um curto silêncio, concluiu:
- As providências para apurar as denúncias.
Foi para o olho da rua.
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Segunda-feira, Julho 11, 2005
Ecos da Flip 2
A mesa mais movimentada da Flip foi a que reuniu MV Bill, Luiz Eduardo Soares e Arnaldo Jabor, com mediação de Miguel Sousa Tavares, o escritor português autor de "Equador".
Bill deu um show, contando histórias de vida e falando do documentário que está fazendo com jovens envolvidos com o crime. Dos 16 entrevistados, 15 já morreram.
- Um deles era o matador da favela. Sua maior frustração era a mãe ter morrido antes de pagar a promessa de levá-lo ao Circo do Beto Carrero. Ele tinha 17 anos quando morreu e seu sonho era ser palhaço. Em vez de fazer rir, acabou fazendo as pessoas chorarem.
Bill chegou a chorar e o público se levantou e aplaudiu de pé. Ele também foi aplaudido quando falou das oportunidades para os negros.
- Preto só pode tocar tambor e ser objeto de estudo universitário?
Curiosamente, Bill, tão acostumado à violência no Rio, foi à Inglaterra e usou por duas semanas a linha de metrô que foi bombardeada por terroristas. Felizmente, tinha acabado de ir para a França e escapou dos atentados. Como disse Miguel, ele foi para a Inglaterra falar sobre violência e escapou lá de ser vítima da violência. Bill lembrou de seus tempos de escola, quando questionava os professores e dizia que eles, em vez de ensinar raiz quadrada, deveriam ensinar como escapar da violência policial e das balas perdidas.
O rapper lembrou do processo que sofreu por apologia às drogas, quando mostrou na Cidade de Deus um vídeo que fez com jovens traficantes, parte do documentário que está fazendo.
- Na nossa pesquisa, vimos que 90% dos jovens do tráfico eram negros. E o movimento negro não se levantou a meu favor. De movimento negro virou movimento neutro.
Na época, uma das poucas vozes que se levantaram a favor de Bill foi a do antropólogo Luiz Eduardo Soares. Ele também foi bastante aplaudido na Flip. Jabor foi aplaudido e vaiado, como na hora em que defendeu o governo Fernando Henrique Cardoso. Ele reagiu no mesmo tom:
- Tá na hora mesmo de dividir essa porra. Pessoal da vaia, vocês são tão ignorantes que acham que estou defendendo um presidente. Estou defendendo um período. A única coisa que funciona nessa bosta desse governo é a política macroeconômica. O PT nomeou 19 mil pessoas em cargos técnicos, em lugares como o Inca (Instituto do Câncer) e a Embrapa. Puseram para saber se o câncer e a soja eram de esquerda ou de direita - ironizou.
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Ecos da Flip 1
Jô Soares preferiu ficar confinado em seu hotel, mas meu pai e Verissimo passearam muito pelas ruas irregulares de Paraty. A todo instante, tínhamos que interromper a marcha porque alguém solicitava deles um autógrafo, pedia para tirar uma foto ou queria bater um pouco de papo.
Numa hora, minha mãe e Lucia, mulher de Verissimo, vinham mais atrás quando uma moça apontou os dois e gritou:
- Olha o casal!
Antes que alguém pense que ela estava insinuando alguma coisa, devo esclarecer que a mulher queria dizer "olha a dupla", mas se enganou. É curioso ver como os dois são diferentes. Meu pai distribui beijos, abraços, afagos. Verissimo limita-se a sorrir sem graça e, como diz sua filha Mariana, só tem duas poses: com as mãos para frente e com as mãos para trás. O resto é imutável. No ano passado, duas adolescentes se aproximaram e pediram para tirar fotos apertando suas bochechas. Ele, como sempre, consentiu. Foi uma para cada lado e as duas posaram dando um beliscão no rosto do escritor.
Ele, tímido como sempre, não se queixou. Há uns anos, numa feira do livro em Porto Alegre, ele caminhava quando foi abordado pela centésima vez. Uma mulher parou-o, tocou-o no ombro e começou a falar:
- Você não é o...
Verissmo fez algo que não faz nunca, talvez para ajudar a moça:
- Sou, sim. Luiz Fernando Verissimo.
Para sua surpresa, ela tirou a mão de seu ombro e disse:
- Ah, não. Achei que fosse outro pessoa.
Dito isto, virou as costas, se afastou e deixou nosso escritor mais famoso plantado sozinho, no meio da feira.
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RIP
Há três anos, eu tive que fazer uma matéria sobre vítimas da violência. Precisava achar pessoas para entrevistar. O jornalista Maurício Menezes, do Plantão de Notícias, indicou-me um camarada que tinha sido assaltado.
Esse tipo de reportagem não é fácil. Muitas pessoas não gostam de falar sobre o assunto ou não querem ser fotografadas. Para minha sorte, esse sujeito topou dar entrevista e aparecer na foto. O papo rendeu o texto abaixo:
" Dono é feito refém e mansão se torna casa de festas
Na hora em que reconheceu o ex-caseiro entre os bandidos, o neurologista Carlos Bacelar já sabia que ia morrer. Aproveitou que um dos assaltantes estava só e propôs:
- Eu te dou o maior bem dessa casa e você não deixa fazerem nada comigo e com a minha família.
Trato feito, pediu que a mulher tirasse do sutiã uma aliança de brilhantes que custava US$ 20 mil. Após limparem a casa, os quatro bandidos resolveram levar Bacelar, de 59 anos, como refém, deixando para trás sua mulher e seus quatro filhos. Na altura de Campo Grande, um deles perguntou:
- Onde vamos desovar o coroa?
A sorte é que o protetor de Bacelar cumpriu o combinado.
- Ele estava dormindo. Tive que dar uma cutucada nele, que apontou a arma para os outros e me disse: "Desce e sai correndo".
A casa de Bacelar fica num terreno de 20 mil metros quadrados, cercada pela Floresta da Tijuca, com campo de futebol e piscina com cascata. O luxo custou caro. Ele vendeu três apartamentos e uma casa, e ainda teve que juntar US$ 40 mil. Tinha planos de viver ali com a família até morrer, mas, por causa da violência, abriu mão do sonho e foi morar na Barra. Em três meses, sofreu um novo assalto. Hoje, mora num lugar desconhecido na Tijuca.
- A família se dispersou, cada um mora num lugar.
Ele transformou a mansão na casa de festas Vale da Boa Vista, que vai ganhar ainda um spa urbano.
- Foram nove anos de inferno na casa. Mas agora a segurança melhorou. Graças às casas de festa do Alto da Boa Vista o índice de assaltos baixou estupidamente.
A violência que vitimou a família de Bacelar é constatada pelo neurologista também em seu consultório.
- Nos primeiros dez minutos de consulta, antes mesmo de falar das doenças, os pacientes contam sobre a violência que sofreram. Ninguém mais dá queixa, eles usam o consultório como desabafo.
Bacelar está de mudança para uma escuna de 62 pés.
- É mais seguro. Além disso, adoro o mar e os esportes náuticos - diz ele, que lamenta ter sido obrigado a desistir do Alto. - Fomos expulsos de nossa própria casa."
A matéria, que trazia ainda outros personagens, era um retrato devastador da violência no Rio. Como ela era ilustrada com fotos, fiquei com medo de que os personagens se arrependessem de ter falado. Não queria também que o Maurício Menezes, que me indicou o Bacelar, se queimasse por minha causa.
Para meu alívio, dias depois Menezes me mandou o seguinte e-mail:
"Cara, o Carlos Bacelar me ligou sobre a matéria você fez com ele. Disse que nunca na vida falou tanto e viu a coisa tão bem resumida. Quem sabe, sabe."
Respirei aliviado e nunca mais ouvi falar no Bacelar. Até há poucos dias, quando li nos jornais sobre a sua morte por câncer. Mas não foi tudo. Dias depois, saiu publicada uma nota contando que a filha dele voltava do crematório, com as cinzas do pai, quanto teve o carro roubado.
Pensei: nem após a morte ele escapou da violência. Felizmente, os ladrões descobriram que Bacelar atendia de graça a muitos moradores do Morro do Borel e devolveram a urna com os restos mortais do neurologista. Sua filha reaveu as cinzas e jogou-as nas proximidades das Ilhas Tijucas, onde o médico gostava de mergulhar e pescar. Menos mal.
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Sexta-feira, Julho 08, 2005
Paraty
Estou indo daqui a uns minutos para a Flip. Na volta, conto como foi.
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EUA versus Brasil
Na visita a Atlanta, ficou patente algumas diferenças das sociedades americana e brasileira. Os brasileiros, com toda sua solidarieade e hospitalidade, não têm a mesma noção de bem comum dos americanos, o que se traduz, por exemplo, no lixo nas ruas, nos sinais furados e nos estacionamentos nas calçadas.
Um exemplo: no prédio da CNN, um cartaz pedia aos visitantes: "Question anyone without a visible security badge. Help Turner security." Traduzindo: "Questione (ou pergunte) qualquer um que esteja sem um crachá de identificação visível. Ajude a segurança da Turner." Isso é tipicamente americano, essa noção de que você também é responsável pela segurança de todos.
Outra diferença está no rigor policial. Uma conhecida que mora em Atlanta saiu de uma festa, pegou o carro e foi parada pela polícia. Contou que só tinha tomado um copo de cerveja, mas o policial obrigou a moça a levantar uma das pernas e a contar em voz alta até 120. Isso mesmo, 120. Ela diz:
- Se eu estivesse de salto, teria caído e ido presa.
É um excesso de rigor risível. Aqui, é aquela bagunça que a gente conhece. Um amigo disse que seu cunhado foi parado numa blitz. O carro estava com os pneus carecas, todo amassado, sem um farol e sem o espelho retrovisor. Para completar, o IPVA estava atrasado e a carteira, vencida. Desesperado, ele vasculhou a carteira e só achou R$ 1. Não teve problema. O PM aceitou e liberou-o. Claro, pois de que adiantaria ficar com aquela tranqueira parada ali? Ele preferiu se livrar logo do problema para continuar a arrecadação habitual.
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Rescaldo
Pus no Dizventura2 quatro reportagens que saíram publicadas nos últimos tempos no Segundo Caderno.
A primeira é sobre as três irmãs cegas do filme "A pessoa é para o que nasce". Levei-as para o Arpoador e batemos um longo papo, que teve como ponto alto a hora em que elas cantaram uma música a meu pedido.
A segunda desencadeou uma grande polêmica entre os cineastas brasileiros. Surgiu de uma declaração do produtor Luiz Carlos Barreto, reclamando que as estatais estavam investindo em filmes sem apelo comercial. Valeu porque rendeu um tititi danado.
A terceira adorei fazer. Surgiu de uma ida a Santa Cruz, para conhecer um belíssimo projeto cultural que está sendo desenvolvido na Cidade das Crianças, um impressionante complexo no começo da Rio-Santos.
E a quarta é resultado da viagem que fiz a Atlanta, para cobrir as comemorações dos 25 anos da CNN. De quebra, tem uma entrevista com o rosto feminino mais conhecido do jornalismo mundial, o de Christiane Amanpour. Divirtam-se, se tiverem paciência.
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Sábado, Julho 02, 2005
"Cadê o holerite?"
Passei o dia fazendo entrevistas e ouvi uma história curiosa a respeito das diferenças entre Rio e São Paulo.
Uma das entrevistadas, carioca, mudou-se para a capital paulista e foi trabalhar numa escola. Certo dia, ela estava no trabalho quando alguém falou:
- Cadê o holerite?
Ao longo do dia, outros também começaram a perguntar: "O holerite já chegou?", "Onde está o holerite?", "Vocês sabem do holerite?". Ela ficou em polvorosa. Para tanta gente estar procurando, ou o sujeito era lindo ou o dono da escola. Como o dono da escola não se chamava holerite, ela imaginou que ia encontrar um gato pela frente.
Até que, no fim do dia, alguém falou: "Chegou o holerite!". Ela saiu estabanada, derrubando tudo pela frente, querendo conhecer o tal deus grego. Não viu nada e perguntou: "Mas cadê o holerite?". Alguém mostrou-lhe um papel e ela aprendeu ali que, em SP, contracheque não é contracheque, é holerite.
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