DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Sexta-feira, Agosto 26, 2005
 
Meu Deus do céu

Vocês vão achar que é brincadeira, mas aconteceu de novo. Acaba de chegar uma mensagem no meu computador. No assunto, está escrito: "O espetáculo 'A Viagem de Alice - do Cu ao Apocalipse', do dramaturgo Ricardo Monteiro, estréia dia 02 de setembro, sexta-feira".

Do cu ao Apocalipse? Lewis Carroll teria um ataque se soubesse da afronta que fizeram com sua personagem.

Abro o e-mail e leio o texto: "A Viagem de Alice - do Céu ao Apocalipse" espetáculo de Ricardo Monteiro com direção de Nelson Baskerville que estréia no Teatro Paulo Eiró, dia 02 de setembro, sexta-feira ás 21h é uma peça de teatro que se vale da linguagem e do imaginário fantástico da literatura de cordel para refletir nossa perplexidade perante um mundo que, divinizando o consumo e a riqueza, termina por produzir uma grande miséria, material ou espiritual, que consome a todos."

Ou seja, já deu para ver que é bom tomar cuidado com títulos que contenham a palavra "céu"...


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Terça-feira, Agosto 23, 2005
 
Susto

Levo um susto com o e-mail que chega esta manhã. No assunto, está escrito: "Release do livro 'Com O Cu Entre Os Dentes'."

Fico espantado que alguém tenha dado tal título a um livro. E fico mais espantado ainda que uma editora - no caso, a Geração Editorial - tenha aceitado publicar um livro com esse nome. Não é puritanismo, acho apenas que é de mau gosto. O novo livro de Gabriel García Márquez provocou polêmica por causa do título e algumas livrarias não quiseram vender, mas "Minhas putas tristes" tem uma dose de lirismo que falta à obra da Geração Editorial.

Após o susto, abro a mensagem e descubro do que se trata: "Com O Céu Entre Os Dentes - O cronista e jornalista Kido Guerra resgata memórias da infância e adolescência em Brasília e retrata de forma nostálgica uma geração que cresceu junto com a cidade".

E-mail tem dessas coisas. Na pressa, algumas vezes uma letra é suprimida e dá origem a enganos. Lembro de uma repórter que, quando estagiária, mandou um e-mail para o chefe perguntando se havia alguma pauta naquele dia. Ela escreveu: "Tem alguma puta para eu acompanhar hoje?". Nem é preciso dizer que virou alvo de gozação geral.
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Terça-feira, Agosto 16, 2005
 
Visitem

Ontem entrou no ar o No Front do Rio, um blog que eu e o Cesar Tartaglia estamos escrevendo no Globo Online. O assunto, como o nome diz, é a cidade. Estão todos convidados a visitá-lo.
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Semelhanças

Chego à entrevista e me perguntam:

- Já lhe falaram que você se parece com o João Moreira Salles?

Não, nunca me falaram. Mas volta e meia me comparam com o irmão dele, o também cineasta Walter Salles. Digo que sou o genérico do Waltinho: mais feio, mais pobre e menos talentoso. O próprio Waltinho brinca dizendo que, se um dia eu entrasse com um processo por reconhecimento de paternidade, ele nem faria o exame de DNA e decretaria à Justiça: "É meu irmão."

Mas tem gente que me confunde também com alguém do Casseta & Planeta. "Você parece aquele cara do Casseta", ouço de vez em quando. Ninguém sabe dizer exatamente quem é, mas, por eliminação, deve ser o Reinaldo. Zéjosé, um dos meus chefes, diz que está todo mundo errado. Eu sou a cara mesmo, ele garante, é do Daniel Azulay.
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Quarta-feira, Agosto 10, 2005
 
Joguei a toalha

Quando digo que ninguém acerta meu nome, falam que exagero. Mas é verdade. Em geral, é Paulo, mas já fui chamado de Lauro, Mário e até Moraes. Mauro mesmo são poucos os que acertam.

Meu pai queria facilitar minha vida, já que ele penou com o nome, mas não deu muito certo.

Hoje, no meio de uma entrevista, o entrevistado me perguntou: "Mas é Milton ou Newton?". E olha que já tinha dito o nome umas três vezes. Eu desisto.
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Sexta-feira, Agosto 05, 2005
 
"Clique aqui"

Já que citei um aluno, devo lembrar que na semana que vem recomeçam as aulas. Semestre passado fiz minha estréia como professor de universidade - só tinha dado aula em cursos.

Em junho, os professores de comunicação se reuniram para fazer um balanço do semestre. Todos - eu incluído - ficamos espantados de como alguns alunos estão simplesmente copiando os textos da internet sem sequer se dar ao trabalho de pôr alguma contribuição individual. Foi citado o caso de um professor que deu 27 zeros por causa disso. Foi ameaçado de morte. Recebeu um texto anônimo que dizia algo como: "Eu moro no morro, tome cuidado", deu queixa na polícia, mas não voltou atrás. Conclusão: na prova seguinte, os trabalhos melhoraram extraordinariamente.

No meu caso, na primeira prova, levei Ziraldo para ser entrevistado por meus alunos. A avaliação consistia em fazer uma reportagem com base no que o cartunista falou. Um dos trabalhos que recebi era uma beleza, cheio de desenhos. Só tinha um problema: era inteiramente chupado do site de Ziraldo. Até o layout era igual. A única contribuição do aluno foi incluir uma vírgula indevida no começo do texto: "Ziraldo, nasceu em Caratinga." Era tão copiado que ele sequer adaptou o material da internet para o papel e pôs: "Clique aqui para ver as ilustrações de Ziraldo."

Um professor diz que eu não vi nada. Teve um aluno dele que errou até o próprio nome...
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"Não dá mais pra segurar"

Abro o jornal "O Dia" e vejo a foto de um aluno meu. O título da reportagem assusta: "Ameaça de fechar Zuzu Angel - Líder comunitário da Rocinha convoca protesto contra ação da PM na favela. Idéia é que moradores acampem dentro do túnel".

Ele é justamente o tal líder que está convocando o protesto. Tem usado um e-mail intitulado "Não dá mais pra segurar... que exploda a confusão" para avisar às pessoas da manifestação.

Sou inteiramente solidário a ele quanto às reclamações da ação dos policiais, que volta e meia extrapolam suas funções na favela. Mas acho tal protesto uma roubada. Imagine a reação da população, impedida de passar pela túnel. Além da irritação natural, vai imaginar que a idéia partiu dos traficantes, quando ela na verdade surgiu dos moradores do morro, cansados das humilhações.

Faço minhas as palavras de meu colega Xico Vargas que, no Nomínimo, escreve: "Por pacífica que venha a ser, esse tipo de manifestação é atalho para o desastre."


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Fã da Lillian

Elogio é artigo raro por essas bandas, então quando aparece algum a gente tem que agradecer. Eu tinha acabado de chegar à redação quando recebi o e-mail de uma amiga:

"Fiquei muito feliz, e até vaidosa, ao ver a Lillian Witte Fibe comentar que seu pai é (opinião certamente compartilhada por milhões de leitores) 'o maior jornalista vivo do Brasil', e a seguir; 'e o filho dele é muito inteligente também'. Isso, no Programa do Jô, das quartas-feiras, que deve estar batendo recordes de audiência."

Não estava sabendo de nada. Logo em seguida, meu chefe veio falar: "A Lillian disse no Jô que você era ótimo." Então não era trote. Num e-mail para meu pai, no dia seguinte, ela mesmo falou: "O Jô me ligou lá pra meia-noite pra comentar o programa. Acho que estava feliz. Comentei que só falo o que penso mesmo. E você é meu ídolo, ponto. Eu tinha adorado de verdade a tua pensata do dia sobre a violência no Rio que tanto nos preocupa. E você é o melhor jornalista em atividade no Brasil. O mais completo, o mais sábio, o mais sensato. O mais tudo. E se o Mauro não tiver visto: talvez tenha te escapado (e talvez até à doce Mary!) que a Lúcia (Hippólito) concordou comigo quando falei que o filhão também era brilhante."

Não conheço a Lillian pessoalmente. Na verdade, nunca nos falamos. Mas se eu já era admirador da apresentadora agora virei fã incondicional.
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Terça-feira, Agosto 02, 2005
 
Novela das oito

No último dia 26, saiu na coluna de Marcia Peltier a seguinte nota: "Novo casal na praça: formado por um talentoso ator surgido na década de 90 e um empresário da noite, produtor de balacos animadíssimos numa determinada boate."

Como vocês podem ver, é uma nota cheia de ressalvas. Como se trata de um casal gay, a colunista optou por ser vaga. É um recurso que usamos muito. Deixamos subentendido, para não ferir susceptibilidades ou não ser alvo de processos. Só que às vezes somos mais realistas que o rei. Foi o que aconteceu com a Marcia.

O que fez a coluna de meu amigo Joaquim Ferreira dos Santos? Foi além e, no dia seguinte, saía no Gente Boa a seguinte nota: "Namorando firme, Cabbet Araújo, dono da Fosfobox, e o ator Mateus Nachtergale anunciam aos amigos sua festa de casamento. 'Mas só para o ano que vem, temos de dar mais tempo para nos conhecermos melhor', diz Cabbet."

Neste fim de semana, fui a um restaurante super-reservado na Serra. O Cremêrie Genève fica na Estrada Teresópolis-Friburgo e serve comida francesa de altíssima qualidade. Era tarde e só havia duas pessoas no local - justamente Mateus e Cabbet. Os dois estavam acompanhados de seus três cachorros e foram muito simpáticos. Lá pelas tantas, comentavam quem seria a mulher mais bonita do Brasil. Mateus votou em Mariana Lima (atriz que fez a peça "Apocalipse 1,11", casada com o diretor Enrique Diaz). Cabbet optou por Vera Holtz. "Além de ser tudo aquilo de mulher, ela não se preocupa com o tamanho da cintura", justificou o dono da Fosfobox - ou Fiofóbox, como diz um conhecido, referindo-se ao pequeno tamanho da casa e ao público GLS.

Mateus é um ator excepcional. Fez a peça "O livro de Jó" e os filmes "Auto da Compadecida" e "Carandiru". Tem um vastíssimo currículo teatral e cinematográfico. A filha da dona do restaurante, de seus cinco anos, quando viu o ator se aboletou em seu pescoço e não largou mais. Ficou assim o resto da noite. Estranhei tanta tietagem, até descobrir que ele está na novela "América", com um personagem chamado Caveirinha. Se ele tivesse ido lá seis meses antes, provavelmente a garota o teria ignorado. Mas agora, como está na novela da Globo, ela estava siderada com Mateus - ou melhor, Caveirinha.
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Sustos

Há três anos, passei maus bocados para fazer uma reportagem sobre o complexo penitenciário de Bangu. O tema era, sem trocadilho, complexo. Tratava-se de fazer um raio-X das 21 unidades prisionais de Bangu, uma cidade-prisão com nove mil detentos, 1.400 agentes, 30 mil visitantes por fim de semana e muitas histórias.

Nessa dura tarefa, tive ajuda. As duas pessoas que mais colaboraram na matéria, que ocupou três páginas do jornal, foram Paulo Roberto Rocha e Teresa Mendes.

Rocha era diretor de uma das cadeias e ajudou a me mostrar como funciona o nebuloso mundo das prisões. Teresa era assessora da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária. Deu-me informações preciosas, marcou entrevistas, conseguiu dados e fez todo o possível para que eu conseguisse revelar aos leitores os bastidores de Bangu.

Oito meses depois de publicada a reportagem, li no jornal a notícia: "O coordenador de segurança do complexo penitenciário de Bangu, Paulo Roberto Rocha, de 48 anos, foi assassinado a tiros ontem à noite, na Avenida Brasil, em Irajá. Segundo a polícia, Rocha foi morto por dois homens numa motocicleta, enquanto dirigia carro oficial."

Levei um susto e lamentei a morte de Rocha. Ele tinha bom trânsito com os presos e conhecia como poucos os meandros da vida na prisão. Até hoje não encontraram seus assassinos.

Hoje, chega pelo e-mail a mensagem: "Comunicamos que no dia 04 de agosto de 2005, às 10:30 horas, no auditório da Secretaria de Segurança Pública (SSP), no 4º andar do Prédio da Central do Brasil, será celebrada a Missa de 7º dia pela alma da nossa amiga e colega Teresa Cristina Mendes de Freitas, assessora de comunicação da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap)."

Outro susto, maior ainda. Não consegui maiores informações. Sei apenas que seu corpo foi encontrado em sua casa pelos bombeiros, que tiveram que arrombar a porta. Não havia sinais de violência. Aos 38 anos, Teresa era uma bela mulher, com um filho de 15 e um talento incomum para conciliar os diferentes interesses e administrar as veleidades das autoridades e dos jornalistas. Vai fazer muita falta.
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Segunda-feira, Agosto 01, 2005
 
Sufoco

Normalmente não me orgulho do que escrevo. Tenho a autocrítica tão exacerbada que vivo arrumando defeito do que sai do teclado. Mas devo dizer que fiquei feliz com o resultado das duas páginas que escrevi para os 80 anos do GLOBO. A reportagem falava da vida de duas famílias que apareciam no primeiro número do jornal. O que aconteceu com elas de 25 de julho de 1925 para cá? Como a história delas se mesclava à História do país e do jornal?

Como vocês devem imaginar, era uma reportagem delicada. Afinal, envolvia o aniversário do jornal. Para completar, ela sairia justamente no dia do aniversário de jornal. Para piorar, era a única matéria sobre o aniversário do jornal. E, para complicar mais ainda as coisas, deram-me liberdade total de escrever o que eu quisesse.

O resultado saiu na última sexta-feira. Quem quiser ler pode clicar aqui. Acho que as pessoas gostaram. Menos o neto de um dos personagens, que me escreveu o seguinte e-mail:

"Sr. Mauro Ventura,
Quanto à matéria veiculada pelo O Globo, hoje, página 15, com o título Eugenio Cotia, repilo seu conteúdo, pois fere a memória e comete profunda injustiça quanto ao meu falecido pai, Lauro Cotia, conforme posso comprovar com documentos. Solicito entrar em contato urgente comigo pelos telefones (...)
Atenciosamente"

O curioso é que eu não falo do pai dele, a não ser na hora em que digo que Eugenio teve três filhos. Seja como for, liguei para o homem, mas ele ainda não retornou.


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À la Jefferson

Estou que nem o Roberto Jefferson. Mas pelo menos eu não alego que o olho roxo é culpa da queda de uma estante na hora de pegar um disco do Lupicínio Rodrigues.

Tampouco o machucado é fruto de uma cena de ciúme ou de um ato heróico. Foi uma cotovelada recebida numa pelada de basquete no Aterro do Flamengo. O mais patético é que quem bateu foi um jogador do meu próprio time, na hora de pegar um rebote. É o que em guerra se chama de "fogo amigo".

O curioso é a reação das pessoas. Alguns perguntam de cara: "Você levou um soco?". Tem quem brinque: "Qual era o disco que você estava procurando?", numa referência à desculpa de Jefferson. E tem aqueles que olham, fingem não estar vendo e nada perguntam, como se fosse a coisa mais natural do mundo alguém com o olho roxo. Provavelmente estão pensando que apanhei e não querem ser indelicados.
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