Quarta-feira, Setembro 28, 2005
Que coisa
No banheiro da classe executiva da Varig, um papel escrito à mão pedia: "Favor não jogar papel no vaso".
Parecia boteco de beira de estrada no interior do Brasil.
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Camisola
Viajei para Portugal acompanhando meu pai, que lançou em Lisboa o livro "Inveja - Mal secreto", pela editora Palavra, de Gonçalo Bulhosa. A editora resolveu lançar a obra no original, sem fazer qualquer adaptação. No rodapé das páginas, há um glossário com a tradução de algumas palavras.
Foi uma decisão acertada. É bem verdade que "café da manhã" é "pequeno almoço", "sanduíche de filé" é "prego no pão" e "chope" é "imperial", mas, de modo geral, não há tantas variações assim. Se bem que levei um susto quando cheguei a uma festa e uma moça me falou:
- Você está bem de camisola.
Gelei. Examinei-me da cabeça aos pés e não vi qualquer sinal de vestimenta feminina para dormir. Não sabia se agradecia ou não. Agradeci, dei uma desculpa qualquer para sair dali correndo, puxei um amigo português pelo braço e perguntei se aquela mulher batia bem da cabeça. Ele me tranqüilizou. Ela estava dizendo apenas que eu fiquei bem de casaco.
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Retiro
Uma amiga decidiu fazer um retiro espiritual evangélico. Eu, que sou cético, quis saber por que. Ela explicou que está dando tudo errado em sua vida e achou que era uma boa idéia renunciar por uns tempos aos prazeres terrenos, encontrar um pouco de conforto espiritual, participar de orações, ouvir sermões, afastar o azar e trabalhar para se converter numa pessoa melhor.
Voltou há poucos dias do retiro. Perguntei como foi. Ela disse:
- Roubaram minha bolsa!
É sério. Enquanto estava no retiro, um dos participantes levou seus pertences. Falei "viu?", mas ela não se deu por vencida:
- Todo mundo lá estava procurando tornar-se uma pessoa melhor. Alguém provavelmente não conseguiu...
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Segunda-feira, Setembro 26, 2005
Numa loja de malas em Paris
Entramos numa loja no bairro de Ménilmontant em busca de uma mala. Após muita procura, achamos uma de 55 euros. Minha mãe estende uma nota de 100 euros, o vendedor a pega e a devolve com um gesto brusco:
- Não serve - diz ele, num francês com sotaque.
Não entendo direito o que o homem fala e imagino que ele não tenha troco para 100.
- Não é isso. Ele está dizendo que a nota é falsa - esclarece minha mãe.
Levo um susto e pergunto ao homem o que fazer. Ele diz:
- Não mostre essa nota aqui na França.
Fico vexado de vergonha. Explico que essa nota foi comprada no Brasil e pergunto se não posso ir ao banco trocar. Ele é enfático:
- Não faça isso. É muito perigoso. É porque eu sou gentil - diz, insinuando que se fosse outro poderia nos entregar à polícia.
Minha mãe paga com outra nota e saímos da loja. Sinto-me um golpista internacional. Imagino que o homem a essa altura deve estar pensando: "Que espertinhos, queriam dar o golpe bem na minha loja!".
Ainda envergonhado, encontramos um casal de amigos, ela brasileira, ele francês. Contamos a história e eles pedem para ver a cédula. Examinam a nota durante uns bons minutos e dizem:
- É boa.
Não acredito no que eles dizem. O vendedor foi tão firme que imagino que os dois estão equivocados em sua avaliação. Mas eles falam:
- Você vai ver como ela é verdadeira.
Saímos para jantar e, no fim, a conta é paga com a nota. Faço uma saída estratégica para ir ao banheiro, já imaginando que na volta a polícia vai estar na porta. Mas, quando retorno, o troco está na mesa. Não houve qualquer problema. A nota era mesma verdadeira.
- O vendedor quis dar o golpe em vocês - diz minha amiga, moradora do bairro. - Se vocês fossem mais bobos, ele teria dito: "Deixa eu ficar com ela que é perigoso, vocês podem ser presos".
Vivendo e aprendendo.
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No metrô de Paris
Um aviso luminoso anuncia que houve um acidente grave e um trecho da linha do metrô teve que ser fechado. Fico curioso em saber o que os eles chamam de acidente grave, mas em poucos minutos esqueço o assunto e embarco no vagão.
Mais tarde, encontro uma amiga que vive em Paris há sete anos. Comento o acidente e ela me explica:
- Em geral, quando eles falam em acidente estão usando um eufemismo para suicídio. As linhas do metrô são o local preferido dos parisienses para se matar, à frente das pontes do Rio Sena.
Minha amiga conta que quase todos os condutores do metrô têm uma história trágica para contar. Há até um serviço de apoio psicológico. Isso porque, geralmente, o suicida olha nos olhos do condutor no momento de se jogar.
- É a última imagem que eles levam da vida. Você pode imaginar como fica a cabeça dos motoristas depois disso.
E eu que achava que era um trabalho razoavelmente tranqüilo, livre de engarrafamentos e reclamações de passageiros.
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Segunda-feira, Setembro 19, 2005
Canal 832
No domingo, leio o jornal e descubro que Nicole Kidman esteve ontem na minha rua fazendo compras. Visitou uma loja de lingerie fina, mas o jornal nao informa se ela comprou alguma peça. A atriz esta em Paris para promover seu novo filme, "A feiticeira".
Ontem à noite, fiquei zapeando com o controle remoto em frente à TV. Nao estava a fim de ver nada em especial, mas passei quase duas horas nessa brincadeira. Sao quase quatrocentos canais, e isso nao é força de expressao.
Ha varios canais de compras, outros tantos de musica ou de esporte. Ha canais de Portugal, Italia, Espanha, Sérvia-Montenegro, Bulgaria, Romenia, Tunisia, Marrocos, Quatar, Oman, Arabia Saudita, Libia e ate do Kuwait.
Vou apertando o botao do controle remoto e fazendo uma viagem por diferentes culturas, distintas linguas e programas bizarros. O canal 48 é todo dedicado a barcos. O 65 é um canal frances judeu. O 85 se chama Astrocenter TV e, como o nome diz, fala de taro, astrologia e assuntos semelhantes.
Mais um pouco e chego ao 206, onde passa um programa com cenas reais captadas por cameras de segurança. Uma funcionaria de uma fotocopiadora tira xerox de seus seios e de suas partes intimas. Em seguida, limpa a maquina com papel toalha.
Saio do profano e caio no sagrado. O canal 209 se chama God TV.
No 244, o Real Madri TV, quem aparece é Pelé. Ha uma entrevista com o rei e imagens de seus gols. Na TV Polonia (290), passa um seriado medico. Chego ao 332 e dou de cara com a Al Jazeera! Gasto alguns minutos vendo a CNN do mundo arabe, e continuo em frente. O 360 chama-se Arirang TV, nao me pergunte porque. Dai, os canais dao um salto para 832, o Kinder Kanal. Mas ai a brincadeira ja tinha perdido a graça e fui dormir.
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Cardapio
Continuo às voltas com o mesmo teclado e instalado no mesmo apartamento parisiense emprestado por uma amiga de meus pais. Ela cede a casa e os amigos se encarregam de conciliar as agendas. Chegamos e quem tinha acabado de sair era Renata Sorrah.
Ha um revezamento permanente e, em outras épocas do ano, o local pode estar ocupado por Gilberto Braga, Maria Bethania ou Francis e Olivia Hime. De anonimo, somente eu e mais uns poucos.
Saimos para jantar com os filhos de Lucia e Luis Fernando Verissimo. Mariana, como de habito, rouba a cena com suas historias. Ela diz que o passageiro brasileiro estava num voo da TAP quando a aeromoça portuguesa foi servir o jantar. Ele perguntou:
- Quais as opçoes?
Esperava ouvir o cardapio tradicional de frango ou massa, mas escutou:
- As opçoes? Sim ou nao.
Pode nao ser verdade, mas que é possivel, é.
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Quinta-feira, Setembro 15, 2005
Sem acento
Escrevo de um cibercafé em Paris, num teclado todo diferente, sem alguns acentos e com vqriqs - quer dizer, varias - letras trocadas.
Uma amiga de meus pais emprestou a casa por uns dias. Anteontem, bateu à porta um senhor distinto. Veio dirigindo seu carro e vestia caça caqui e camisa polo. Logo em seguida, chegou uma senhora vistosa, que passaria bem em qualquer restaurante. Eu e meu pai nos preparavamos para sair quando os encontramos. Eles estavam mais bem vestidos que nos.
Ele era o pintor que veio pintar o banheiro e ela, a empregada doméstica. Se alguém nos visse, acharia que os moradores da casa eram eles.
A exemplo de Lisboa, aqui não tem porteiro. Aquela figura tão tipica do Brasil, com quem temos uma relação por vezes afetuosa, por vezes conflituosa, simplesmente não existe por aqui.
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Sábado, Setembro 10, 2005
Flores
Aqui em Lisboa, encontramos uma amiga brasileira. Sua nora, espanhola, chama-se Begônia. Nós, que só estamos acostumados com Rosa, não conseguimos acertar o nome.
- Como vai a Gardênia? - perguntamos certa vez. - Desculpe, é Camélia, não?
Até de Hortênsia a moça já foi chamada.
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Quinta-feira, Setembro 08, 2005
A Baiuca
Esse blog andava muito pornográfico, então achei melhor enveredar por assuntos mais amenos. Estou em Lisboa, acompanhando meu pai, que está lançando o livro "Inveja - Mal secreto".
Fomos a uma minúscula e charmosíssima casa de fados no bairro de Alfama. Na Baiuca, os cantores chegam, cantam duas, três músicas e vão-se embora. Cantam pelo prazer de cantar, em troca do aplauso do público, de um vinho e de um prato de comida.
Até chegar lá, passamos por becos escuros e vielas assustadoras, em pleno morro. Se fosse no Rio, eu não estaria aqui para contar história. A noite foi agradabilíssima, com os versos ecoando nos nossos ouvidos. "Parto com a alma a sorrir, deixo a minha voz para vós", canta um homem. "Leio em teus olhos que o nosso amor está cansado", diz outra canção.
Uma senhora vem toda noite. Veste seu melhor chale, põe um colar fino e se apresenta por alguns minutos. Em troca, ganha um prato de sopa e lava a alma. Teve 20 filhos. Dez já morreram e, dos restantes, alguns estão doentes e outros, desempregados. O marido morreu após 36 anos de casamento.
- Que pena - alguém comenta.
- Já foi tarde - ela rebate. - Ele era mau. Me batia.
Os pais primeiro, e o marido depois, não deixavam-na cantar. Agora, ela é só felicidade, apesar das letras lamentosas do fado.
O dono do lugar namora uma norueguesa. Ela é uma mulher riquíssima, tão apaixonada por fado que se mudou para Portugal, e que também costuma se apresentar na casa. A Baiuca exibe desenhos dos cantores em todas as paredes - todos feitos por ela.
Comemos chouriço, porco preto, morcela, bebemos vinho e cerveja. Lá fora, um homem pendura roupas na janela para secar. Saímos de madrugada e passamos um bom tempo ao ar livre, jogando conversa fora, com uma imensa sensação de paz. Ninguém olhou para os lados, ficou com o coração acelerado assim que um estranho se aproximou ou se inquietou com algum barulho. Uma noite memorável.
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