DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Sexta-feira, Novembro 25, 2005
 
Fórum das Letras de Ouro Preto, parte 3

Na última noite do festival de literatura de Ouro Preto, um jantar reuniu alguns dos principais escritores presentes ao evento. Marçal Aquino contou que o roteirista de cinema não pode se preocupar muito com ego.

- Roteiro de cinema é que nem calendário de navio: todo mundo mexe.

Mas a melhor da noite foi uma historinha que um escritor na faixa dos 40 contou sobre Rubem Fonseca, que completou este ano 80 anos. Ele disse que propôs ao maior escritor brasileiro que gravassem um depoimento em que Rubem falaria o que quisesse sobre seus contos. Avesso a entrevistas, Rubem negou. O rapaz insistiu, explicou que não faria nenhuma pergunta, contou que não se falaria sobre vida pessoal, mas o criador de Mandrake manteve-se irredutível. Até que o jovem escritor sacou seu argumento final, irrefutável, definitivo:

- Eu prometo que só divulgo isso depois que você morrer.

No que Rubem se virou e disse:

- Você está achando que eu vou morrer antes de você?

Ao escritor só restou rir e desistir da idéia.
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Fórum das Letras de Ouro Preto, parte 2

Marçal Aquino deu um show, ao lado de Nelson Motta, na mesa que falava de linguagem cinematográfica do romance noir. Um dos melhores escritores brasileiros, Marçal se disse o rei da conversa alheia. Lamentou que, com o avanço da tecnologia, hoje não exista mais linha cruzada no telefone.

- Eu adorava ouvir linha cruzada.

Marçal, que também é roteirista de cinema e jornalista, disse que a coisa que lhe dá mais prazer - e menos dinheiro - é a literatura. Seus maior sucesso, "O invasor", virou filme pelas mãos de Beto Brant.

- Pensei no título "O invasor" e decidi escrever o livro. Achava o título bárbaro, mas não sabia sobre o que seria. Tinha gente que perguntava: "É um livro sobre alienígenas?".

Ele contou que a história finalmente surgiu quando entrevistou para o jornal o diretor de uma multinacional. Perguntou ao sujeito sobre a realidade brasileira, mas o homem disse não ter contato com o povo. Acorda numa casa toda vigiada, pega o helicóptero, chega ao escritório todo protegido, pega o helicóptero e volta para casa. Mas Marçal Aquino contra-argumentou que a empregada e o motorista dele eram da periferia. Daí surgiu a história de dois construtores que resolvem eliminar o sócio e para isso contratam os serviços de um matador da favela - que resolve continuar na vida dos dois depois que termina seu trabalho.

Nelson Motta também falou de seus livros. Contou como começou a escrever.

- Criei minhas três filhas no Rio. Vivia preocupado com a segurança delas. Um dia falei para meu analista: "Fico paranóico." Ele falou: "Não se preocupe. No Rio, a paranóia é um método."

Nelsinho disse que um dia, uma das filhas, cansada de tanta superproteção, falou: "Pai, por que você não vai escrever ficção?".

- Me libertei da paranóia. Livrei-me dela ao começar a escrever.

Ele falou ainda das mulheres mortas em seus romances. Contou que avisou a Marília Pêra, sua ex-mulher, com quem tem duas filhas, que uma atriz seria assassinada em seu livro "Bandidos e mocinhas". Marília ficou preocupada, achando que tinha sido a inspiração, mas ele a tranqüilizou:

- Falei para a Marília: "Não é uma atriz muito talentosa." Aí ela se convenceu de que não era ela.

Em seu primeiro livro, "O canto da sereia", passado na Bahia, uma cantora de grande sucesso é assassinada. Ele diz que tinha passado alguns meses antes trabalhando com a Daniela Mercury.

- Eu estava de saco cheio. Ela fala muito, tem seis celulares. Aproveitei e a matei (no livro). Mas isso tem que ficar entre nós, porque eu adoro ela - brincou Nelsinho com a platéia.



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Dançando em Ouro Preto

Fui a Ouro Preto, mas não visitei Ouro Preto. Explicando melhor: fui à cidade mineira participar da primeira edição do Fórum das Letras de Ouro Preto. O convite foi para ser mediador de uma mesa sobre crônica, que reunia os escritores Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Giffoni e Carlos Herculano Lopes.

A idéia era participar da mesa, ver outros debates e passear. Mas jornalista está sempre devendo algo - dinheiro ou matéria. Ou os dois. No caso, tinha que entregar seis páginas de reportagem para a revista da Oi. Achei que tinha tempo, mas fui informado de que o prazo era já, o que me obrigou a virar noite escrevendo o texto.

Para completar, Loyola Brandão faltou por problemas de família. Não sei quem teve a brilhante idéia, mas acho que, por falta de opção, fui promovido em cima da hora a palestrante. E pediram a meu pai, que participou de outra mesa, para ser o medidor.

Passado o susto inicial - eu não tinha preparado nada -, acabou sendo bom. Giffoni, que já tem 15 livros publicados, é um belo contador de histórias. Ao falar de inspiração para crônica, ele explicou que é preciso aguçar os olhos para o cotidiano. Contou que um dia estava caminhando pela rua quando veio uma senhora em sua direção. Ele se desviou para um lado, ela também. Ela tentou passar pelo outro lado, mas ele fez o mesmo. Os dois ficaram algum tempo tentando seguir em frente, mas por acaso sempre iam para o mesmo lado. Até que os dois riram e a mulher disse:

- Senhor, obrigado por dançar comigo esta manhã.

Pronto, surgia uma crônica. Era uma daquelas cenas banais, que volta e meia acontecem com a gente, mas que ganhou um novo significado graças à frase da moça. E que foi devidamente transformada em crônica por Giffoni.



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Domingo, Novembro 20, 2005
 
A crônica sobre os 100 anos da Avenida Rio Branco

A Avenida Rio Branco surgiu na minha vida - pelo menos assim registra a memória - nos anos 60, quando, ainda guri, fui levado até lá por minha tia, sensibilizada com os apelos do sobrinho, que queria subir no maior prédio do Rio e ver a cidade do alto dos 34 andares do edifício Avenida Central.

Embaixo, os 1.800 metros de asfalto que cortam o Centro sempre foram palco de grandes manifestações. Não estive na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, por conta das diferenças ideológicas e do meu 1 ano de idade. Na Passeata dos 100 mil, em 1968, fui representado por meus pais. No comício das Diretas Já, em 1984, passei por lá a caminho da Candelária, onde me juntei ao um milhão de pessoas nos aplausos a Sobral Pinto.

Não segui os caras-pintadas que pediram o impeachment de Collor, em 1993, embora tivessem minha total solidariedade. Mas descontei em 1995, quando, depois de uma onda de seqüestros na cidade, acompanhei do começo ao fim a passeata Reage Rio, pedindo paz pela cidade - pedido ainda longe de se realizar.

Mesmo em dias normais, sem protestos, passam pelo coração financeiro da cidade dois milhões de pessoas. A Rio Branco é uma rua que só sossega aos domingos e à noite. Nessas horas, não tem correria de PMs com camelôs, meninos que entregam folhetos "compro ouro", e gritos de "van para Cascadura, vai sair" e "pega ladrão" - o alvo predileto dos bandidos é o celular.

À noite, o movimento do público diminui, a fiscalização desaparece e uma legião de pessoas pode trabalhar em paz, sem policiais e guardas municipais nos calcanhares.

Como os taxistas, que ocupam os dois lados da rua após as 20h. Ou o rapaz que monta sua banquinha e vende doces, biscoitos, cigarros e café das 18h às 3h.

- Tem todo tipo de figura nesta rua. Porteiro, taxista, mendigo, o pessoal da night - conta.

Mas os mendigos consomem?

- Consomem. Eles bebem cachaça e pedem: "Me dá um biscoito baixa renda?".

Biscoito baixa renda, ele explica, é o de R$ 1. O homem vê vantagens na noite.

- Não troco a noite pelo dia. Até porque de dia só quem pode montar a barraquinha é deficiente físico. E de noite a concorrência é menor, vendo a R$ 2 biscoitos que de dia saem a R$ 1,50.

Os tipos noturnos que povoam esparsamente a avenida incluem os catadores de papel, que aproveitam as dezenas de sacos de lixo acumulados na esquina com a Sete de Setembro - restos do que a rua produziu durante o dia. Desconfiados, eles reagem a qualquer aproximação, depois que um jornal publicou reportagem mostrando a sujeira na calçada.

- Pode estar suja agora, mas de manhã ela está limpinha - defende-se um catador.

A fauna notívaga é formada ainda por uma senhora que passa xingando os nordestinos e um rapaz que vende refrigerante e tem um estranho ritual. Diariamente, de madrugada, ele forra cuidadosamente seu chapéu com recortes do jornal do dia. Em seguida, tira o acessório e o roda por dez minutos, enquanto olha as notícias.

- Ele diz que vê o mundo assim - conta uma testemunha.

Há ainda o mendigo gay que passa pelo vendedor de balas Carlos e o saúda:

- Oi, Roberta.

Carlos nunca entendeu por quê.

Mas o vendedor de flores de um quiosque 24 horas entende a aflição de alguns clientes que, por apenas R$ 5, levam um vasinho de violeta para casa.

- O cara fica bebendo até tarde, esquece a hora, e compra a flor para fazer média com a patroa. Tem gente que chega, vê que está aberto e diz, todo feliz: "Você salvou meu casamento, minha mulher iria me matar!".

Só de noite também que um motociclista consegue trafegar todo faceiro na contramão da rua, como aconteceu na terça-feira passada, e que um grupo de trabalhadores espalha seus cones e começa a instalar uma rede de fibras óticas nos subterrâneos.

- Somente depois das 22h é que começamos a trabalhar. E também aos domingos, porque nem no sábado dá, de tanto tráfego - diz o encarregado da obra.

Como já observaram os colunistas Joaquim Ferreira dos Santos e Tutty Vasques, o publicitário Celso Japiassu e o compositor Leo Jaime, existe uma mulher típica da Rio Branco. "Talvez por estar longe de seus bairros, pois são todos estrangeiros no Centro, ela tem uma malícia, provoca uma taquicardia diferente", diz Joaquim.

Mas, à noite, a Rio Branco é um território essencialmente masculino. Com exceção de uma ou outra mulher que ficou até mais tarde fazendo serão, elas são raras e se concentram nas proximidades das casas noturnas perto da Cinelândia.

À meia-noite, os taxistas escasseiam, os moradores de rua já estão dormindo e a Rio Branco mergulha em um de seus raros instantes de monotonia.

- Depois de meia-noite, só ficam os ladrões - diz um taxista, no que é contestado por um colega:

- Nem eles.
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Os bastidores da crônica

Como eu escrevi abaixo, o Globo Online encomendou-me uma crônica sobre os 100 anos da Avenida Rio Branco. Como eu estava atolado de trabalho, não tive tempo de visitar a rua durante o dia. O único horário que me restou para dar uma passada na avenida foi às onze da noite.

Fui para lá e passei maus bocados. Tentei entrevistar um grupo de catadores de lixo, mas quase apanhei. Eles me cercaram irritados e demorei para entender a razão. Aos poucos, descobri.

Poucos dias antes, o jornal "O Dia" tinha feito uma reportagem denunciando a sujeira na rua e, para ilustrar, fotografou-os escondidos. Quando disse que era jornalista e queria conversar com eles, os catadores misturaram tudo e acharam que eu era do mesmo jornal.

Já passava da meia-noite e não foi nada agradável estar cercado de uns oito desconhecidos, alguns visivelmente embriagados, e todos irritados. Tive que usar de muita lábia para escapar dali.

Também tentei conversar com um mendigo. Dei-lhe dinheiro, ele aceitou, e perguntei se podíamos conversar um pouco. Quando ouviu a pergunta, ele pegou o dinheiro e me devolveu, decepcionado. Não queria papo. Falei OK, disse para ele ficar com os R$ 2,50, mas o rapaz recusou: "Já jantei, obrigado." O que mais me impressionou foram seus olhos, de uma tristeza sem fim.

Algumas pessoas foram mais receptivas e falaram sem maiores problemas da vida noturna da Rio Branco. O curioso é que, depois que saiu publicada a crônica, algumas pessoas vieram me elogiar a idéia. "Que boa sacada que você teve! Todo mundo faz a Rio Branco de dia, quando passam dois milhões de pessoas pela rua, e você fez o contraponto. Mostrou a avenida à noite, sem o burburinho do dia-a-dia", foi o que alguns me disseram. Só que não foi sacação nenhuma! Foi simplesmente falta de tempo.

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Avenida Rio Branco, 100 anos

Se hoje festejamos o Halloween, houve tempo em que comemorávamos o 14 de Julho, dia da Queda da Bastilha. Se atualmente interrompemos uma reunião para o coffee break, houve época em que acompanhávamos as estações do ano pelo calendário da França, como lembra Angela Perricone Pastura no livro "Imagens de Paris nos trópicos": "Em pleno verão carioca, muitas mulheres se vestiam com o figurino do inverno parisiense."

Pois é, o ridículo continua, só que com outro sotaque. Se no início deste século os americanos servem de modelo, no começo do século XX eram os franceses que nos inspiravam - a tal ponto que importamos pardais para povoar os parques e jardins da cidade.

E o símbolo maior da chamada Belle Époque tropical foi a abertura de uma rua criada à imagem e semelhança dos boulevards franceses: a Avenida Rio Branco. Para comemorar os 100 anos da avenida, o Globo Online encomendou-me uma crônica sobre a rua. Vou pôr no próximo post.

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Quinta-feira, Novembro 10, 2005
 
Café

Tomo em média 12 cafés por dia. A maior parte intragável. Mas vício é vício.

Meu melhor amigo, preocupado, enviou-me um teste para ver quantos cafés um sujeito pode tomar até que a bebida o mate. quem quiser fazer o teste pode clicar no http://www.energyfiend.com/death-by-caffeine/.

Fiz o teste e descobri: são precisas 72.64 xícaras até morrer. Acho que não tenho muito mais tempo...
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Coitado do neorealismo

Ontem, no programa "Supertudo", na TVE, a jovem atriz, querendo fazer bonito, indicou ao público o filme "Morte em Veneza", de François Truffaut.

A apresentadora, boa gente e informada, percebeu logo o erro e, com jeito, informou que "Morte em Veneza" era de Luchino Visconti. E completou:

- Um dos maiores representantes do neoliberalismo italiano!

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Quinta-feira, Novembro 03, 2005
 
Fácil de usar

Hoje é o Dia Mundial da Usabilidade. Confesso que nunca tinha ouvido falar no assunto até segunda-feira.

Nesse dia, na coluna do Luiz Gravatá, no caderno Informática ETC, ele citava esse cantinho aqui, o blog DizVentura, como "craque no assunto". Perguntei por aqui do que se tratava e me disseram que usabilidade, como o nome indica, é facilidade de uso. A data foi instituída para divulgar a importância de se criar produtos mais práticos e fáceis de usar.

Usabilidade? Podiam começar escolhendo uma palavrinha mais fácil de usar...

De qualquer forma, Gravatá é um sujeito generoso à beça.
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Terça-feira, Novembro 01, 2005
 
Vou te contar

O jornalismo já me levou a muitos lugares diferentes nesses últimos 20 anos. Visitei favelas como Jacarezinho, Rocinha, Vidigal e Maré. Viajei a países como Ilhas Seychelles, Granada, África do Sul e Suíça.

Entrevistei figuras como Chacrinha, Prestes, Brizola, Tom Jobim e Fernando Sabino. Comi nos restaurantes mais chiques e nos pé-sujos mais fuleiros da cidade. Estive em prisões, fiquei hospedado em vilarejos sem água encanada, conheci pessoas encantadoras e gente da pior espécie.

Mas a profissão continua me reservando surpresas. Como na semana passada, quando juntei o ator Diogo Vilela e o cantor Cauby Peixoto para uma reportagem. Diogo vai interpretar Cauby num musical, e o único dia que eles podiam se encontrar era num sábado, uns dos meus raros dias de folga.

Topei mesmo assim. A entrevista aconteceu nos bastidores, com o público impaciente esperando o começo do show. Terminado o bate-papo, a secretária de Cauby falou:

- Você fica para assistir ao show, não é?

Gelei. Gaguejando, disse que tinha um compromisso, mas a moça insistiu no convite. Não era o que eu tinha planejado para meu sábado à noite, mas, resignado, concordei.

Pois tenho que confessar: adorei. Cauby está longe de fazer parte de meu gosto musical, mas nunca vi alguém dominar uma platéia como ele. As fãs vão ao delírio: "Maravilhoso! Gostoso! Lindo!".

No meio do espetáculo, ele fez questão de citar o encontro com Diogo Vilela nos bastidores. O público aplaudiu entusiasticamente. Depois disse:

- Dei uma entrevista para o jornal O GLOBO, um dos mais importantes do país. A imprensa tem uma importância muito grande nas nossas vidas.

Ninguém aplaudiu, mas pelo menos não se ouviram vaias.

Cauby rege a platéia como um maestro.

- Esqueci a letra - ele finge, apenas para ver o público cantar sozinho seus sucessos.

O cantor aplaude o desempenho dos espectadores, ergue os polegares em sinal de aprovação, e diz:

- Agora deixa comigo - e volta a dominar o palco com sua inconfundível voz.

O repertório agrada em cheio: "My way", "Andança", "Modinha", "Madalena", "Luciana", "I just call to say I love you", "Vou te contar" e, claro, "Bastidores" e "Conceição". No bis, sua voz enche o Teatro Rival, enquanto as cortinas permanecem fechadas. O público grita: "Abre! Abre!". E as cortinas se abrem e surge um Cauby resplandecente, brilhoso, fulgurante. A platéia vibra.

Confesso que tinha implicância com o cantor. Implicância com seu jeito espalhafatoso, seu repertório romântico, seu excesso de plásticas. Ri quando me contaram a velha piadinha infame de "Conceição", que todos vocês conhecem. Não? Então vou contar. Todo show, assim que ele terminava a música cantando "Conceição!", algum engraçadinho gritava: 30! Até que um dia ele perguntou o que afinal queria dizer esse 30 e um espectador respondeu: "24 com seis são..."

Mas dou meu braço a torcer. Saí de lá nas nuvens.
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