DizVentura
 

 
Reflexões crônicas sobre literatura e jornalismo. Email: mventura@oglobo.com.br.
 
 
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Quarta-feira, Julho 26, 2006
 
Queimando as mãos

Tenho uma relação apaixonada com os livros. Não enfrento uma fila ou viajo sem um exemplar à mão. Tenho mais volumes do que minha casa comporta. E posso passar alguns dias sem ouvir música, ver TV ou ir ao cinema, mas não fico algumas horas sequer sem ler ao menos alguns linhas.

A todo momento, recebemos no jornal os lançamentos da editoras. Cada vez que chega um pacote é uma festa. Abro o envelope com sofreguidão, à espera do exemplar que vai encorpar a prateleira ou ser doado para alguém que goste.

Hoje chegou uma leva da Editora Record. Abri às pressas, louco para ver o que tinha dentro. Eram quatro livros - a coleção completa de Diogo Mainardi, colunista da "Veja". Era como se os exemplares queimassem minhas mãos. Fiz algo que nunca tinha feito. Joguei tudo no lixo.

Um amigo viu, e pegou-os. Diante de meu espanto, ele explicou:

- Ou vou ganhar algum troco no sebo ou vou dar para alguém só para implicar com a pessoa.
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Sexta-feira, Julho 14, 2006
 
Mictório

Estive esses dias na Cinédia, em Jacarepaguá. Criado por Adhemar Gonzaga, foi um dos principais estúdios da história do cinema brasileiro.

Hoje é alugado para gravações, como a do programa "Claro q é rock", em que Frejat recebe convidados. Naquele dia, estavam presentes Samuel Rosa, Fred Zero Quatro, Dinho Ouro Preto, Meg, Edgard Scandurra e Arnaldo Antunes.

As gravações começaram ao meio-dia e se estenderam pela madrugada. Entre um intervalo e outro, fui ao banheiro. Enquanto esperava minha vez, reparei que cada trecho do estúdio tem um nome, devidamente registrado numa placa.

Olhei a placa e li: "Rua Mictório di Mayo". Faz sentido, pensei, afinal é o trecho onde fica o banheiro. Mas por que "di Mayo"? Por que não "de Maio", ou "di Junho", "di Julho" etc?

Não consegui achar uma resposta, mas falei a mim mesmo: "Tenho que botar isso no blog. É engraçado: o lugar onde fica o banheiro se chama Rua Mictório".

Finalmente chegou minha vez. Entrei no banheiro, saí e resolvi olhar de novo a placa. Está lá: "Rua Victório di Mayo".

Trata-se de um cineasta italiano, que a Cinédia decidiu homenagear dando a ele o nome daquele pedaço do estúdio.

Como a cabeça da gente prega peças.
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Quinta-feira, Julho 13, 2006
 
Adeus, Flip

Ontem foi o caos. Não só em São Paulo, mas também para quem quis comprar ingressos da Festa Literária de Paraty, a Flip.

As vendas começavam ao meio-dia. Por telefone, foi impossível. Pelo computador, consegui reservar oito ingressos, mas, toda vez que ia pagar, o site da Ticketmaster avisava que havia um erro de sistema. Ao longo do dia, tentei várias vezes pagar, mas foi impossível. Para minha tranqüilidade, pelo menos meus ingressos continuavam reservados, até que à noite todos sumiram e eu perdi tudo.

Liguei para uma amiga, Lúcia Ryff, maior agente literária do país, para ver se ela tinha sido bem-sucedida. Lúcia passou o dia inteiro estressada com o assunto. Foi até a livraria Fnac, na Barra, e só conseguiu entrada para o show de Maria Bethânia.

- Foi o ingresso mais caro da minha vida, só o que gastei de táxi para ir e voltar... - conta.

Tentou a Modern Sound, em Copacabana, mas do meio-dia às 15h só cinco pessoas tinham sido atendidas. Rodou os postos de gasolina, e nada. Descobriu que em todos esses lugares não havia ingressos físicos disponíveis. Os atendentes se limitavam a fazer o mesmo que eu em casa, ou seja, acessar o computador. A única vantagem era não pagar a taxa de conveniência de R$ 5.

Ela conta que um conhecido seu conseguiu comprar tudo pela internet. Ficou aliviado, até que, depois de algum tempo, recebeu um e-mail da Ticketmaster dizendo que a compra tinha sido cancelada.

Uma bagunça sem tamanho.

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Quinta-feira, Julho 06, 2006
 
Bancos e desodorantes

Recebo um e-mail de um amigo e passo adiante:

"Já que estamos todos indignados com a atuação ridícula, mercenária e ofensiva dos principais jogadores e treinador da seleção, temos obrigação de reagir com o que está ao nosso alcance:

JAMAIS CONSUMIR QUALQUER PRODUTO OU SERVIÇO ANUNCIADO POR CAFU, PARREIRA,
ROBERTO CARLOS, RONALDO E RONALDINHO GAUCHO.

Divulgar ao máximo essa mensagem. Que ela vire campanha e seja adotada por parcela expressiva da população nunca mais veremos a imagem desses vendedores de bancos, bebidas, desodorantes etc."
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Quarta-feira, Julho 05, 2006
 
Verônica

Publiquei esses dias uma capa sobre Fernando Sabino. Os 50 anos do romance "O encontro marcado" estão motivando várias comemorações.

Após conversar com um dos filhos de Fernando, Pedro Sabino, consegui realizar dois antigos desejos: ter acesso a trechos do livro que ele escrevia quando morreu e visitar sua casa, para ver como vivia e trabalhava o escritor.

O livro, que ficou inacabado, vai permanecer inédito, porque Fernando proibiu em testamento qualquer lançamento após sua morte. Daí a importância de mostrar aos leitores trechos do romance, chamado "A resposta".

A visita ao apartamento de Fernando foi emocionante. Pedro me contou que está quase tudo no mesmo lugar, com exceção de alguns dos 5.400 livros, que estão sendo distribuídos entre os filhos. Na reportagem, eu revelo a intimidade do escritor. Não tinha idéia de como a família ia reagir à indiscrição.

No domingo, recebo um telefonema. É Verônica Sabino, filha de Fernando. Tremo.

- Estou ligando para dizer que fiquei emocionadíssima com a matéria.

Relaxo.

- É amorosa e carinhosa. Foi um chororô aqui em casa - continua ela. - Ele ia amar. Onde quer que ele esteja, deve estar muito feliz. Ele falava com carinho imenso de você, dizia que você era o único jornalista que prestava.

Sempre exagerado, o Fernando.

Verônica lembra casos que mostram a deliciosa "loucura sabinesca".

- Papai me convenceu a vir para Ipanema. Eu morava no Alto da Gávea, mas, para ele, Alto da Gávea e Vargem Grande era mais ou menos a mesma coisa.

Conversamos mais um pouco e, dias depois, recebo um embrulho em casa. Dentro, um bilhete ("Esta é uma pequena lembrança, espero que goste...") e um CD de Verônica. O que dizer diante de tanta gentileza? Muito obrigado, Verônica.
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Flagra

Hoje em dia, qualquer zé-ninguém tem assessoria de imprensa. O que faz com que volta e meia recebamos mensagens bizarras. A mais recente desembarcou há pouco:

"Oi galera, tudo bem?

O ator Marcelo Castione, atualmente pode ser visto desfilando sua beleza na novela Cobras e Lagartos cruzou o túnel e saiu da Barra onde mora para resolver assuntos na Zona Sul do Rio. O ator, enquanto caminhava com a namorada pelas ruas de Ipanema, encontrou o amigo Nicola Siri com quem colocou o papo em dia e aproveitou para ver alguns livros que são de seu interesse. Ele foi flagrado folheando na Livraria Renovar, Ipanema, o livro 'O Caçador de Pipas', de Khaled Housseini. É uma história sobre amizade e a indicação foi do amigo Oscar Magrini. Castioni foi conferir de perto o livro que já vendeu mais de 2 milhoes de exemplares só nos EUA. Nas horas vagas, entre surfar e cozinhar para a bela namorada, o ator também gosta de ler."

Além do português capenga, o e-mail dava direito a foto do rapaz lendo o livro na Renovar. Se fosse o Caetano Veloso, a nota já não teria o menor interesse. Em se tratando de Marcelo Castione - ou Castioni, a assessora não chegou a uma conclusão sobre como é o sobrenome de seu cliente - então...


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